sábado, 29 de julho de 2017

ORA VEJAM LÁ SE É INCORRECTO...


Estamos no Verão, tempo de férias, de relaxe. O texto que recebido é uma brincadeira que não visa ofender seja quem for. Até o podem referir "como de mau gosto", mas jamais pretende ofender.
"Quando um tipo de direita não gosta de armas, não as compra.

Quando um tipo de esquerda não gosta de armas, quer proibi-las.

Quando um tipo de direita é vegetariano, não come carne.

Quando um tipo de esquerda é vegetariano, quer fazer campanha contra os produtos à base de proteínas animais.

Quando um tipo de direita é homossexual, vive tranquilamente a sua vida como tal.

Quando um tipo de esquerda é homossexual, faz um chinfrim para que todos o respeitem.

Quando um tipo de direita é ateu, não vai à igreja, nem à sinagoga, nem à mesquita.

Quando um tipo de esquerda é ateu, quer que nenhuma alusão a Deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, excepto para o Islão

Quando a economia vai mal, o tipo de direita diz-se que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais.

Quando a economia vai mal, o tipo de esquerda diz que os sacanas dos patrões são os responsáveis e param o país.

 

Tese final:

 

Quando um tipo de direita ler este teste, fá-lo seguir.

 

Quando um tipo de esquerda ler este teste, não o transfere de certeza.


NOTA:  O original deste texto é em Francês.  Foi traduzido para português, para que os de esquerda também o pudessem perceber."
(recebido por email)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Não acabaram os devotos do pensamento único


As ideias bem cimentadas e consolidadas são a força que move as pessoas e as norteia na ação e na influência aos outros. É, por isso, que se constituem os partidos que disputam as eleições junto do eleitorado para alcançar o poder, se fazem os seminários, simpósios e congressos, se criam as academias, se põem a funcionar escolas, se faz apostolado, missionação e até proselitismo. Por isso, se estabeleceu como direito fundamental a liberdade de pensamento, expressão, associação e reunião e se criam e mantêm órgãos de comunicação social.

Critica-se o fundamentalismo e os ataques aos órgãos de comunicação social, a censura prévia e o dirigismo.

Não obstante, de forma encoberta ou de forma deslavada, os paladinos do pensamento único e do uniformismo andam por aí.

Quem não se lembra do desastre que foi a tentativa de exportar para o Norte de África e para o Médio Oriente o figurino de democracia ocidental? E o que deu a veleidade de conceder (!) a independência às colónias somente quando aqueles povos estivessem bem preparados?

Depois, há muitos casos em que aqueles ou aquelas que se manifestarem contra a corrente são objeto de procedimento disciplinar ou são vistos de soslaio pela opinião pública.

Podiam mencionar-se muitos casos. Vou, porém, ater-me necessariamente apenas a alguns.

***

A 14 de julho, podia ler-se num dos sites do Vaticano um artigo de Lola González sob o título “Uma mulher africana dá a cara contra as imposições antinatalistas do Ocidente”. Veja-se o texto em: https://infovaticana.com/2017/07/14/una-mujer-africana-planta-cara-las-imposiciones-abortistas-occidente/.

A ativista nigeriana pelo direito à vida, Obianuju Ekeocha, denuncia o desrespeito dos governos ocidentais pela democracia africana ao quererem impor o aborto legal contra a vontade da maioria dos africanos. Ora, segundo a articulista, os inquéritos de opinião mostram abundantemente que os africanos – tanto as mulheres como os homens – odeiam o aborto. E sublinha a ativista, em declarações ao Catholic News Service, que “ignorar a vontade do povo é cuspir no tipo de democracia que se supõe que temos nos países africanos”.

A fundadora da Culture of Life Africa assegura que as nações ricas que injetam dinheiro na promoção e financiamento de abortos em África se comportam como os antigos senhores coloniais, já que, segundo refere, nunca no seu trabalho encontrou ninguém que suspirasse pela ajuda pelo aborto. E segue acusando muitos dos países ocidentais da síndrome de supremacia cultural em nome da qual tratam de impor a prática do aborto.

Também a ideia de promover a anticonceção para combater a pobreza em África não passa de uma “solução ocidental” que ignora o que pretendem os africanos. Em resposta à asserção da entrevistadora da BBC que lhe referia que centenas de milhões de mulheres não têm acesso à anticonceção e que deveriam tê-lo, Ekeocha contrapôs: “Bom, estás a dizer ‘deveriam’, mas quem és tu para decidir? Não há uma petição popular.”.

E, quando a entrevistadora insistia dizendo ter nascido e sido criada em África, aonde vai várias vezes por ano, para sustentar a garantia de que a anticonceção é um direito humano fundamental e necessário para superar a pobreza, a ativista contrapôs e interpelou-a: “Essa é uma espécie de solução ocidental, não? Porque não escutas a gente primeiro?”. E advertiu que os promotores da anticonceção em África não acautelam os seus efeitos secundários.

Esta nigeriana conta como tem de atender e acompanhar as raparigas a quem proporcionaram métodos anticoncetivos, como o DIU (dispositivo intrauterino), sem a correta informação. E denuncia:

“Estas mulheres estavam a chorar e alguém duma organização ocidental veio, pôs-lhes um DIU dizendo que isso era o que necessitavam para sair de a pobreza”.

Ora, para Ekeocha, “a salvação da pobreza chegou com a educação, não com a anticonceção”.

Em relação ao aborto, a fundadora de Culture of Life Africa defende:

“Não creio que nenhum país ocidental tenha o direito de pagar os abortos num país africano, especialmente quando a maioria das pessoas não quer o aborto – o que é uma forma de colonização ideológica”.

Entretanto, enquanto Mientras Ekeocha defendia nos meios de comunicação o direito à vida e denunciava a colonização ideológica em África, Melinda Gates, num congresso internacional sobre planificação familiar apoiava o controlo da natalidade como forma de poder para as mulheres. Semanas antes, Gates prometera arrecadar quase 5.000 milhões de dólares para financiar a anticonceção em 69 países, muitos deles africanos.

Ora, em  carta aberta a Melinda Gates, Ekeocha refere ter crescido numa cidade remota em África, numa sociedade que ama e dá as boas-vindas às novas vidas. E diz:

“No meio de todas as nossas aflições e dificuldades africanas, no meio de todos os problemas socioeconómicos e instabilidades políticas, os nossos bebés são sempre um firme símbolo de esperança, uma promessa de vida, uma razão para lutar pelo legado dum futuro brilhante”.

Para ela, os milhares de milhões de dólares que Gates pretende arrecadar “compram miséria” para a sua terra. Por isso, reclama:

“Por favor Melinda, escute o grito do coração duma mulher africana e canalize misericordiosamente os seus fundos para pagar aquilo de que que realmente necessitamos: bons sistemas sanitários – especialmente atenção pré-natal pediátrica –, programas de alimentação para crianças pequenas, oportunidades de educação superior ou fortalecimento das ONG que trabalham para proteger as mulheres do tráfico sexual, da prostituição, do matrimónio forçado ou do trabalho infantil”.  

***

Recentemente, o panorama português também regista sérias tentativas de não aceitação de pensamento e expressão que atentem contra o pensamento único ou contra o comummente estabelecido, que se quer impor de certa maneira.

Recordo o caso da psicóloga que fez declarações públicas sobre os casos de homossexualidade, dizendo basicamente que, se tivesse um filho homossexual, que o aceitava, mas como se dum doente se tratasse a quem se deve acompanhamento e carinho. Ia caindo o Carmo e a Trindade e a Ordem dos Psicólogos, além de ter de se debruçar sobre o caso em razão das presumíveis queixas à Ordem, teve vedetas a verberar a senhora psicóloga pela alegada inexatidão científica do que propalara publicamente.

Ora, do meu ponto de vista – não vindo ao caso as questões de juízo moral decorrente das religiões do Livro – pergunto-me em que critérios de cientificidade se baseavam os profissionais da ciência para dantes rotularem de doença ou anomalia a homossexualidade. Mas também me questiono em que critérios de cientificidade se baseiam os neocientistas da praça para vincarem com toda a autoridade absoluta que não se trata de doença nem de anomalia. Ora, respeito, tolerância e aceitação são exatamente aceitação, tolerância e respeito – o que não obriga à confissão da mesma fé científica, sobretudo quando é comum dizer-se que a ciência não tem categorias absolutas!

É óbvio que admito que o Estado produza leis que protejam as pessoas e grupos que não se têm enquadrado convencionalmente nos parâmetros tradicionais. Porém, o alcance deste tipo de legislação (como por exemplo, a referente a barrigas de aluguer, adoção e coadoção por pessoas do mesmo sexo, casamento de pessoas do mesmo sexo) é sobretudo a possibilidade do exercício do direito a ser e a viver diferente. Não implica a adesão inabalável a tais desideratos, mas necessariamente ao respeito, tolerância e aceitação, não coibindo ninguém de pronunciar juízos morais sobre ações e situações e nunca sobre as pessoas. Assim, embora o adultério não seja objeto de cominação por parte da lei, tal não impede o juízo moral sobre ele, a que se sujeita quem entende que se deve sujeitar.

Juízo semelhante fiz em relação ao candidato socialdemocrata à Câmara de Loures, que, para mim, além da inabilidade política, errou na generalização comportamental dos ciganos, na circunscrição aos ciganos dos erros apontados, ignorando outros cidadãos e no exagero e na má explicação da sua defesa da prisão perpétua em alguns casos. De resto, defesas e ataques assumidos foram-no obviamente por desígnios políticos de pragmática, que não de ideologia.

***

Os casos presentes ultimamente à Ordem dos Médicos, nomeadamente os atinentes a Manuel Pinto Coelho e a Gentil Martins, também merecem atenção.

Manuel Pinto Coelho, já com dois processos disciplinares a decorrer, foi objeto de mais um processo disciplinar por causa de algumas das suas ideias polémicas, como a ingestão diária de água do mar diluída, a exposição solar sem proteção ou a suspensão das estatinas na maioria dos casos de colesterol. Alegadamente, vieram a terreiro queixas de sociedades científicas e de especialistas nacionais (Somos ricos em ciência). Não seria mais positivo optar pela discussão científica e necessário acompanhamento dos doentes – e penalizar o clínico por eventuais infrações à informação e liberdade dos clientes – do que optar pela queixa pública e procedimento disciplinar?

Em relação a Gentil Martins, sabe-se que a queixa formal enviada à Ordem dos Médicos, devido às declarações polémicas do cirurgião sobre a homossexualidade, foi reencaminhada para o Conselho Disciplinar do Sul, segundo o Expresso, que cita fonte oficial da OM. Este conselho funciona, dentro da OM, como um tribunal e de forma independente. O organismo espera agora a decisão daquele Conselho Disciplinar para depois se pronunciar.

O cirurgião sustentou, na entrevista à revista do Expresso, que a homossexualidade constitui “uma anomalia”, “um desvio da personalidade”, comparável ao sadomasoquismo ou à automutilação. O médico garantiu que não faz aceção de pessoas no tratamento de doentes e, quando tem de tratar estas pessoas o faz “como a qualquer doente”, mas realçou que não aceita promover esta vertente. Além da já apontada discutibilidade científica da questão, devo sublinhar que o médico está no seu direito de pensar, desde que aja no estrito patamar da tolerância, respeito e aceitação das pessoas.

Por conseguinte, de modo similar vejo a sua postura contra a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, contra barrigas de aluguer e, sobretudo, contra o aborto. Porém, era desnecessário fazer um juízo sobre Cristiano Ronaldo e sua mãe, embora aceite que na mente estivesse apenas o ato da “compra” dos três filhos.

Concluído: Respeito e liberdade são tão difíceis de conciliar? É obrigatório o unanimismo?

2017.07.22 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O “pecado” do candidato do PSD à presidência da Câmara de Loures


O professor universitário André Ventura era o candidato da coligação Loures Primeiro”, do PSD-CDS à Câmara Municipal de Loures. Mas ficou com nome na praça pública por ter desencadeado uma inusitada polémica, ao sustentar, referindo-se à etnia cigana, que “somos muito tolerantes com as minorias”. E insiste nessa tese. Em entrevista ao jornal I, afirmou que “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”. Por isso, tem vindo a ser acusado de xenofobia, o que não o demove de entender e dizer que os ciganos se transformaram em “minorias de privilégio” e que o Estado não consegue impor a lei por “medo da reação”.
O candidato socialdemocrata à Câmara de Loures dá diversos exemplos de ilegalidades que se fazem acompanhar de impunidade:
“Eu tenho imensos relatos em Loures de situações em que são ocupados imóveis ilegalmente e a câmara nada faz para os tirar de lá. Porquê? Porque seria racismo e xenofobia. Mas não é racismo, é fazer cumprir a lei.”.
E acrescenta:
“Há pessoas de etnia cigana que entram nos transportes, usam os transportes e nunca pagam, e ainda geram desacatos. Quem está a pagar isso somos todos nós.”.
Mais tarde, rebatendo as críticas de xenofobia, fala em igualdade e acusa alguma esquerda (mas o CDS que lhe retirou apoio não é esquerda) de se aproveitar destas declarações para retirar dividendos políticos. Disse, a propósito, na predita entrevista ao I:
“Nada tenho contra as pessoas de etnia cigana, isto tem a ver com um grupo que acha que está acima do Estado de Direito. Eu, como candidato, tenho o dever de denunciá-lo, porque corremos o risco de uma guetização e isso é preocupante: são zonas do Estado em que a ideia de autopoder começa a funcionar. São zonas onde são eles que mandam e não entra polícia…”.
A posição de Ventura levou o CDS a romper com a coligação e a construir uma candidatura autónoma ao município de Loures. Francisco Mendes da Silva, dirigente do partido, manifestou repúdio no Facebook, nos termos seguintes:
“Não há praticamente nada que André Ventura diga que eu não considere profundamente errado, ligeiro, fruto da ignorância e de um populismo que tanto pode ser gratuito, telegénico ou eleitoralista. Já o vi falar de tudo e mais alguma coisa, em muitos casos de assuntos que conheço técnica e/ou factualmente. Nunca desilude na impreparação e no gosto em ser o porta-estandarte das mais variadas e assustadoras turbas. Se perder, tudo bem: que nem mais um dia o meu partido fique associado a tão lamentável personagem.”.
***
O PSD apresenta uma dupla posição. Teresa Leal Coelho, vice-presidente do PSD e candidata à Câmara de Lisboa, repudiou claramente, em comunicado, as declarações proferidas por André Ventura em relação à comunidade cigana, explicando:
“Por um lado, por considerarmos que afirmações que generalizam comportamentos só perpetuam os preconceitos e estigmatizam comunidades que fazem parte integrante do tecido demográfico das nossas cidades; por outro lado, porque não nos revemos nem em pensamento, nem em discurso de natureza discriminatória”.
 E, pela positiva, acentua:
“Defendemos uma sociedade inclusiva, solidária e justa no âmbito da qual a diversidade e a multiculturalidade devem ser plenamente respeitadas e celebradas”.
Ao invés, Ricardo Andrade, presidente da concelhia do PSD de Loures, afirma que o PSD reitera a confiança política” no candidato e que “em nenhum momento foi equacionado a retirada de apoio ao candidato”. Ao Observador, este dirigente socialdemocrata frisou:
“Ao mesmo tempo que a candidatura acredita que qualquer cidadão tem os mesmos direitos independentemente da raça ou da religião, também destaca que todos têm de ter os mesmos deveres e obrigações“.
Ricardo Andrade sustenta que “para haver integração as pessoas não podem ser votadas ao abandono” e que o PSD, nessa matéria, não recebe lições de outros partidos, já que “foram muitas as autarquias do PSD que lideraram políticas de inclusão em Lisboa e nos concelhos limítrofes”; e sublinha que “vivemos em democracia”, onde existe “liberdade de expressão” e, uma vez que o “candidato explicou o que queria dizer” e que “o PSD sabe muito bem o que o André Ventura pensa sobre o assunto”, não há motivo para pôr em causa a sua candidatura.
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Enquanto o CDS-PP deixou cair o apoio a Ventura, autor das declarações polémicas sobre a comunidade cigana, que originaram mal-estar, Passos Coelho diz-se “tranquilo” com decisão do PSD de apoiar o candidato. Com efeito, após as declarações polémicas do candidato, que afirmou que existia “uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas” e que “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”, os dois partidos reuniram-se para avaliar o caso. As conclusões, foram, no entanto, em sentido diverso. O CDS-PP avançou primeiro, retirando-se da coligação e retirando assim o seu apoio ao candidato do PSD, e comunicou ter escolhido “seguir um caminho próprio no concelho de Loures nestas eleições autárquicas de 2017”. No comunicado enviado às redações, o CDS argumenta que manifestou “no seio da coligação o seu profundo incómodo com as referidas afirmações”. André Ventura, autor das polémicas declarações sobre a comunidade cigana, encabeçava a coligação que unia PSD e CDS. E foi Mendes da Silva quem pediu que o seu partido não ficasse associado a “tão lamentável personagem” por nem mais um dia.
Já o PSD não só manteve o seu apoio ao candidato Ventura, como lamentou a decisão tomada pelo partido liderado por Assunção Cristas. Fonte da direção do PSD disse, em declarações à Agência Lusa:
“O PSD mantém o apoio ao candidato do partido à Câmara Municipal de Loures. Lamentamos que o CDS não mantenha esse apoio, mas respeitamos a posição agora assumida pelo CDS.”.
E o próprio Presidente do partido, Pedro Passos Coelho veio a terreiro em apoio de Ventura, aduzindo que “foi importante que tivesse oportunidade de clarificar o que é que queria ter dito” e afirmando estar “tranquilo” quanto à posição do PSD, que “é uma posição não racista e não xenófoba”.
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Segundo o semanário “Sol”, a que deu entrevista a 17 de julho, o jurista André Ventura, doutorado em Direito pela Universidade de York, além do trabalho na Academia, é comentador político e desportivo, não escondendo a predileção desportiva pelo Benfica. Está em dúvida se, por exemplo, um sportinguista votará num benfiquista, mas espera que tal aconteça, o que será esclarecido em outubro.
À Academia, que é o mundo onde trabalha e diz que gosta de estar, classifica-a de “mundo algo conservador que nem sempre aprecia o estilo televisivo” como o do tipo de programas em que o académico entra. E destaca os dois tipos de reação com que é recebido: “dos alunos, uma excelente, de questões e de aproximação”; e das instituições diz que não tem “razões de queixa” e que é “muito bem tratado nas duas universidades” onde dá aulas, embora sinta uma certa desconfiança no tipo de perfil de comentador desportivo, que espera vir a ser ultrapassada. 
Confessa que não abdica de si próprio no comentário desportivo e que tal independência passou para a política, explicando:
“Não abdico nem nunca vou abdicar disso. Quando fui eleito [para o conselho nacional], as pessoas sabiam. Nenhum partido, incluindo o meu – que estimo –, vai limitar-me na minha opinião. Uma coisa é a solidariedade que devemos ter com o partido em momentos-chave, outra é a nossa opinião.” .
Como exemplo apresentou “uma coisa nada popular” em que até é contra o que o PSD defende: as penas criminais. Acha que “temos cada vez mais uma sociedade com certos tipos de crimes que devia permitir a prisão perpétua dos delinquentes”, designadamente em casos de terrorismo e de violência com consequências similares (caso de Pedro Dias). E elucida o seu argumento com o caso de Espanha, em que o sistema não bloqueia o prolongamento do cumprimento de pena:
Espanha, há dois anos, fez uma reforma que vai neste sentido. Não introduziu a prisão perpétua, mas, enquanto se mantiverem índices de perigosidade, a pena pode alargar-se. No fundo, é dizer prisão perpétua, mas de uma forma mais pragmática.”.
Ao falar de solidariedade partidária em relação a momentos-chave do PSD, admitiu que o partido está a viver um dos momentos que requerem solidariedade. E, apesar de fazer valer as suas críticas “em relação ao processo autárquico em Lisboa”, tal não o impede de ser solidário e de estar em todos os momentos em que o partido entenda que deva estar.
***
Voltando às suas declarações polémicas em que sublinhava que somos demasiado “tolerantes com algumas minorias”, explicou-se “muito direto” ao Sol;
“Eu acho, e Loures tem sentido esse problema, que estamos aqui a falar particularmente da etnia cigana. É verdade que em Loures há mais, com uma multiculturalidade grande, mas em Portugal temos uma cultura com dois tipos de coisas preocupantes: uma é haver grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado; outra é acharem que estão acima das regras do Estado de direito.”.
Sustenta que é preciso “cumprir com as regras de habitação social”. Critica as situações de Loures “em que são ocupados imóveis ilegalmente e a câmara nada faz para os [os ciganos] tirar de lá”, por alegadamente ser “racismo e xenofobia”; verbera as situações em que, a qualquer hora do dia, se veem pessoas “a ocupar o espaço público no meio da rua”; e compreende as queixas de utentes dos transportes públicos sobre “pessoas de etnia cigana que entram nos transportes, usam os transportes e nunca pagam, e ainda geram desacatos”. E conclui que somos todos nós “quem está a pagar isso”. 
Entende que a solução passa por urgir o cumprimento da lei. Não vale a argumentação de que, se os tiram de casa, “vão acampar para o meio da rua ou para a porta da câmara municipal”.” Acima de tudo, defende que “o Estado de Direito não pode ter medo de grupo nenhum nem de minorias nenhumas, tem de estar acima de tudo”. Se as pessoas ditas “normais” ou da “maioria”, não pagarem a casa ou renda, são despejadas. Ora, isto deve valer para as minorias. Diz o candidato e jurista que “a ideia de maioria e minoria inverteu-se a partir do momento em que as minorias se tornaram minorias de privilégio”. A lei tem de estar acima do preconceito e deve ser ela o fator de igualdade. Assim, diz o candidato a autarca, “temos de ser todos tratados como iguais” e “a etnia cigana tem de interiorizar o Estado de Direito porque, para eles, as regras não são para lhes serem aplicadas”. Tem de acabar o sentimento de enorme impunidade para os que pensam que “nada lhes vai acontecer”.  E isto não se tem feito “por medo da reação”, pelo medo de “dizerem que estamos a ser ‘fascistas’, ‘racistas’, ‘xenófobos’ e pelo aproveitamento político. De facto, “sempre que alguém denuncia isto, acusam-no de racista e começam a falar em políticas de integração”, mas sem dizerem quais.
Para o candidato à autarquia, a verdadeira integração passa pelo cumprimento do estipulado na lei por parte de todos e nos contratos por parte daqueles a quem eles dizem respeito. E a Câmara deve apoiar aqueles que precisam, não aqueles que não querem fazer nada: “famílias que perderam o emprego, famílias que têm mais de três filhos e não os conseguem sustentar, famílias que não conseguem satisfazer necessidades básicas devido à carga fiscal…”.
***
Em que está a falhar o discurso de André Ventura? Será a sua postura tão absurda ou tão ortodoxa a dos seus críticos ou demasiado solidária a dos seus apoiantes?
Do meu ponto de vista, o candidato cometeu o erro de estender generalizadamente os erros de ocupação de casas a todos os ciganos ou o acampamento desordenado e ilegal na via pública, bem como a utilização sem pagar dos transportes públicos e os eventuais desacatos. Por princípio, nem todos os membros da etnia cigana cometem os mesmos erros. É certo que grupos minoritários, porque se sentem mais diminutos e acossados, tendem a tomar atitudes congéneres e em massa. E havemos de admitir que tem faltado aos poderes públicos lucidez, coragem e pedagogia social para integrar e incluir minorias, articulando o cumprimento da lei com as necessidades e peculiaridades das mesmas minorias. Por outro lado, não têm sabido equilibrar o respeito pelas minorias com aquilo que pode parecer – e, às vezes é, tratamento privilegiado das minorias. A tolerância e a aceitação não podem originar a predominância acima dos demais. Porém, há que estar com atenção a que a vontade das maiorias não se exerça de forma absoluta e esmagadora sobre as minorias.
De resto, perguntemo-nos como é que podem os nossos deputados respeitar a vontade das maiorias se muitos, às vezes, não sabem como funciona o Parlamento, não sabem o que estão a votar e são obrigados à disciplina partidária em matérias que não a deviam exigir. Ademais, como é que são escolhidos os membros de uma lista partidária para um círculo eleitoral?
Outro erro que o pretendente ao trono da liderança do município de Loures cometeu foi circunscrever aquelas situações erróneas e as impunidades à etnia cigana. Deixemo-nos de cantigas. Só os ciganos é que são impunes? Não o são, por exemplo, os ex-gestores de topo da CGD, do BCP, do BES, da PT, do BPN, do Banif, da CIMPOR ou os responsáveis por alguns contratos Swap ou pelos vistos Gold e alguns ex-governantes? Há tanta gente que está acima da lei e do Estado! Assalta-se banco, multibanco, bomba de combustível, comunica-se conteúdo de provas de exame nacional, foge-se ao fisco e à segurança social, há corrupção e branqueamento de capitais… E que acontece? E quando?
Quanto à prisão perpétua, tenha lá paciência o jurista, mas discordo, porque significa a morte pessoal e social. Porém, creio que a pena máxima deveria poder ser mais dilatada no tempo. E, se o indivíduo não é imputável, mas é perigoso, a custódia em estabelecimento de saúde deveria manter-se enquanto durasse a periculosidade do indivíduo.     
Estaremos mesmo num Estado de Direito efetivo ou ainda andamos no reino da hipocrisia e do “salve-se quem puder” ou do politicamente correto? Ora, na política não vale tudo: ofender etnias e minorias ou privilegiá-las ou chamar os outros de racistas e xenófobos. Atrair eleitores, sim, mas não a qualquer preço!
2017.07.20 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 19 de julho de 2017

LOST - Versão portuguesa


Pedro e Maria estão num vôo para a Austrália para comemorar seu 40º aniversário de casamento.
De repente, o comandante anuncia pelos alto-falantes:
- Senhoras e senhores, tenho más notícias. Os nossos motores estão a deixar de funcionar e vamos tentar aterrar de emergência.
Por sorte, vejo uma ilha desconhecida abaixo de nós, e, por isso, vamos tentar aterrar na praia.
Ele aterrou com êxito, mas avisou os passageiros:
- Isto aqui é o fim do mundo e é muito provável que nós não sejamos resgatados e tenhamos que viver nesta ilha para o resto das nossas vidas!
Nesse instante, Pedro pergunta à mulher:
- Maria, entregaste  o nosso IRS antes de viajarmos?
- Ai, perdoa-me, Pedro. Eu esqueci-me completamente!
Pedro, eufórico, agarra a mulher e afinfa-lhe o maior beijão de todos os 40 anos de casamento. A Maria não entende e pergunta:
- Pedro! Porque me beijaste desta maneira?

E ele responde:
- Estamos salvos. O governo português vai encontrar-nos !!!..

sábado, 15 de julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

As crianças não são hiperactivas, são mal-educadas


É uma comédia que se acumula no dia-a-dia. Um sujeito vai ao café ler o jornal, e o café está inundado de crianças que não respeitam nada, nem os pardalitos e os pombos, e os pais "ai, desculpe, ele é hiperactivo", que é como quem diz "repare, ele não é mal-educado, ou seja, eu não falhei e não estou a falhar como pai neste preciso momento porque devia levantar o rabo da cadeira para o meter na ordem, mas a questão é que isto é uma questão médica, técnica, sabe?, uma questão que está acima da minha vontade e da vontade do meu menino, olhe, repare como ele aperta o pescoço àquele pombinho, é mais forte do que ele, está a ver?". E o pior é que a comédia já chegou aos jornais. Parece que entre 2007 e 2011 disparou o consumo de medicamentos para a hiperactividade. Parece que os médicos estão preocupados e os pais apreensivos com o efeito dos remédios na personalidade dos filhos. Quem diria?
Como é óbvio, existem crianças realmente hiperactivas (que o Altíssimo dê amor e paciência aos pais), mas não me venham com histórias: este aumento massivo de crianças hiperactivasnão resulta de uma epidemia repentina da doença mas da ausência de regras, da incapacidade que milhares e milhares de pais revelam na hora de impor uma educação moral aos filhos. Aliás, isto é o reflexo da sociedade que criámos. Se um pai der uma palmada na mão de um filho num sítio público (digamos, durante uma birra num café ou supermercado), as pessoas à volta olham para o dito pai como se ele fosse um leproso. Neste ambiente, é mais fácil dar umas gotinhas de medicamento do que dar uma palmada, do que fazer cara feia, do que ralhar a sério, do que pôr de castigo. Não se faz nada disto, não se diz não a uma criança, porque, ora essa, é feio, é do antigamente, é inconstitucional.
Vivendo neste aquário de rosas e pozinhos da Sininho, as crianças acabam por se transformar em estafermos insuportáveis, em Peter Pan amorais sem respeito por ninguém. Levantam a mão aos avós, mas os pais ficam sentados. E, depois, os pais que recusam educá-los querem que umas gotinhas resolvam a ausência de uma educação moral. Sim, moral. Eu sei que palavra moral deixa logo os pedagogos pós-moderninhos de mãos no ar, ai, ai, que não podemos confrontar as crianças com o mal, mas fiquem lá com as gotinhas que eu fico com o mal.
Hoje há, até, filhos a proibirem oa avós de imporem regras de darem uma boa palmada às netos! Absurdo!
Mas há mais: há avós que têm, também, muita culpa!!! Se há! Egoístas, desejam, a todos o custo agradar (e nunca desagradar) aos "preciosos netinhos". Refiro-me aos avós que estão bastante tempo com os netos. Muitos deles são autênticos criminosos! Lá "sacodem o pó" de vez em quando, dão regras que os miúdos infringem facilmente e (chantagem destes), com um abracinho, ou um beijinho aos avós "babados e estúpidos", resolvem tudo. E quando crescerem? Estes avós devem assumir, claramente, a sua função de avós ( e não de bisavós decadentes). Estes avós devem, eles também, educar: com rigor, com seriedade, impondo regras e limites claros, regras e limites a sério. Educar não é fácil: mas é imperioso. Se queremos, mais tarde, ter adultos responsáveis e equilibrados. Educar é contrariar, é frustrar, é ensinar a viver. E a vida não é fácil. Sem educação, sem formação cuidada, estamos a criar seres monstruosos, infelizes, sem referências, sem limites, sem ideais. Estamos, com esta "criação" delico-doce, a construir egoístas, seres caprichosos e mimados, sem capacidade de esforço, para construir o que quer que seja. Estamos a construir seres que não "crescem por dentro": serão sempre infantis - com pesadas consequências para eles, no futuro? Serão, sempre, "meninos hiperactivos", isto é: "meninos malcriados", detestáveis, com personalidades distorcidas! Como conseguirão ultrapassar as dificuldades da vida? Como reagirão às exigências do trabalho, do casamento, da vida social?
Pais e avós: tenham juízo! Eduquem! A bem das vossa crianças!
Henrique Raposo, aqui

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ronaldo: comprar “filhos” é imoral

Será que Ronaldo pagou IVA pelos filhos? Não, não se riam, porque o caso não é para rir. Se Ronaldo pagou uma fortuna à barriga de aluguer e se pagou outra fortuna à clínica, então estas crianças foram de facto adquiridas mediante o pagamento de alguns impostos.
Milionários como Elton John e Cristiano Ronaldo compraram os seus filhos no mercado das barrigas de aluguer. Esta é uma prática imoral, aliás, é um retrocesso civilizacional, porque devolve o ser humano à categoria de bem transacionável, retira ao ser humano o seu carácter sagrado, inviolável e não comercializável, transforma a vida humana em algo equivalente ao carro de luxo. Isto devia ser dito de forma clara por um coro indignado de milhões, mas não se ouve nada, nem um pio, nem uma hashtag, só alguns colunas de opinião dispersas. Não se percebe o silêncio. E não se percebe a forma como o debate tem sido introduzido na sociedade. Fala-se dos "afectos" da pessoa que quer muito ser pai; diz-se que essa pessoa tem "o direito a ser pai". Não, não tem. Ser pai ou mãe não é um direito, muito menos um direito natural. O que é de certeza um direito natural de todos os seres humanos é a garantia de que não podemos ser tratados como produtos submetidos às regras da oferta e da procura. Não pode existir um mercado para seres humanos. E, apesar de estar mascarado pelos "afectos" e pelo Instagram, este é um mercado de bebés humanos. Repare-se que nem sequer falo da separação atroz entre bebé e mãe, ou seja, nem sequer estou a invocar o direito à mãe de todas as crianças. Julgo que já estamos numa fase mais grave e profunda do debate: como é que em 2017, século e meio depois de Lincoln, a sociedade ocidental aceita que seres humanos adultos e vacinados transformem outros seres humanos em bens que podem ser comprados num circuito de fabricação, comercialização e lucro?
E será que Ronaldo pagou IVA pelos filhos? Não, não se riam, porque o caso não é para rir. Se Ronaldo pagou uma fortuna à barriga de aluguer e se pagou outra fortuna à clínica, então estas crianças foram de facto adquiridas mediante o pagamento de alguns impostos. Em 2017, bebés humanos geram lucros e impostos. Não é caso para rir, talvez seja caso para chorar.
Tão ou mais chocante do que o acto em si tem sido o silêncio acrítico da sociedade. Ronaldo ficou à espera de duas crianças da mesma forma que nós ficamos à espera de dois DVD encomendados na Amazon, mas não houve "ondas de choque" nem hashtags de indignação. Ronaldo encomendou crianças da mesma forma que encomenda fatos no alfaiate ou carros no stand, mas não houve "polémica"; as redes sociais não se "incendiaram", como agora se diz. Se as hordas da net não se insurgiram, as figuras da elite também não. Onde é que estão os intelectuais e políticos que ganham a vida a criticar os "ricos"? Aqui está uma situação em que a riqueza é mesmo sinónimo de impunidade, aqui está um caso em que o dinheiro coloca o milionário literalmente acima do bem e do mal; aqui está uma situação em que a riqueza cria de facto uma esfera amoral onde não se fazem perguntas morais ("será legítimo fazer isto?") e onde só se fazem perguntas materiais ("é possível fazer isto? Se sim, quanto é?"). Onde estão os indignados do costume?
E onde é que estão os autoproclamados defensores das crianças e os pediatras famosos? Aqui está uma situação em que o superior interessa da criança é rasgado. Para terminar, onde estão os constitucionalistas, os professores de direito, os intelectuais públicos, os senadores, os comentadores, os teólogos? Como dizia há pouco, aqui está uma clara violação da sacralidade da vida humana.
Este e outros silêncios revelam um deserto amoral. Nós, enquanto sociedade, estamos moralmente desarmados. A sociedade pós-moderna não tem ferramentas mentais e morais para se reconstruir, para reconstruir a decência, para desenvolver um discurso que contemple o certo e o errado, a decência e a indecência. Durante décadas, a linguagem e os raciocínios morais foram atacados e retirados do espaço público. Só se aceitava a argumentação técnica (que é amoral por natureza) ou o discurso cínico e engraçadista (que também é amoral por natureza). O resultado está à vista: a sociedade nem sequer conhece as palavras necessárias para se insurgir moralmente contra a comercialização de seres humanos.
Henrique Raposo, aqui

terça-feira, 4 de julho de 2017

A Congregação para a Doutrina da Fé mudou de Prefeito!

O Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, do passado dia 1 de julho, divulgava a seguinte nota, sob o título “Conclusão do mandato quinquenal do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e nomeação do sucessor”:

O santo Padre Francisco agradeceu os seus serviços ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Gerhard Ludwig Müller na conclusão do seu mandato quinquenal de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e de Presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, e designou pra lhe suceder nos mesmos cargos Sua Excelência Reverendíssima Monsenhor Luis Francisco Ladaria Ferrer, S.J., Arcebispo titular de Tibica, até agora Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé”.

Nada mais natural – dirão – o Papa nomeia quem entender para a chefia dos diversos dicastérios romanos. Alguns dirão que o Cardeal alemão poderia cumprir mais um quinquénio, dado que ainda só fez 69 anos, vindo a perfazer os 70 a 30 de novembro; portanto, encontra-se a mais de cinco anos da idade-limite para prestar serviço eclesiástico no topo dum dicastério. Todavia, o Papa não renovou o mandato do conservador Gerhard Müller enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), cargo que ocupava desde 2 de julho de 2012, juntamente com os demais cargos acima referidos. O Prefeito da mais poderosa Congregação Romana (e não o braço direito do líder da Igreja Católica, como dizem os jornais, pois esse é o Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin) é, partir de agora, o jesuíta espanhol Dom Luis Ladaria, que tem agora 73 anos e era Secretário da Congregação de que Müller era Prefeito.

Jornais italianos, como La Stampa e Il Messaggero, informaram que o Papa se encontrou na véspera com Müller, de 69 anos, para lhe comunicar que “o seu mandato terminará no domingo, justamente quando ele faz cinco anos no posto. Não são oficialmente conhecidas as razões da demissão, mas o purpurado, considerado linha-dura, era tido como contrário às reformas na Igreja Católica e é um crítico da exortação apostólica Amoris Laetitia, de Francisco, publicada em 2016, que sugere que pessoas casadas e divorciadas em segundo casamento poderiam, sob circunstâncias especiais, participar da comunhão.

O Prefeito Müller tinha sido escolhido por Bento XVI para ocupar um cargo que ele próprio desempenhara antes do Cardeal Levada. Tal como Joseph Ratzinger, Gerhard Müller é alemão, teólogo e académico, e são conhecidas as diferenças de opinião entre Francisco e ele.

Antes da vinda do Papa a Fátima, o cardeal disse ao Observador:

“As circunstâncias da vida e formação da razão e as experiências [de Francisco] são muito diferentes das de alguém oriundo da Alemanha, com uma vida académica, virada para o nível académico que existe na teologia alemã há vários séculos. O Papa Francisco tem uma espiritualidade que lhe vem dos Jesuítas, enquanto a do Papa Bento XVI lhe chega mais de Santo Agostinho, São Boaventura e da tradição da teologia existencial. Seguramente que a realidade do Papa Francisco, vindo de um contexto latino-americano, é muito diferente da história e da cultura europeias. No entanto, somos a mesma Igreja e a Fé não divide as pessoas. É a base da unidade.”.

As duas últimas frases da declaração do até agora Prefeito são totalmente verdadeiras, mas menorizar a teologia e a mundivisão do Pontífice argentino por não ter a escola alemã – o que não corresponde exatamente à verdade – ou atrelá-lo inexoravelmente aos jesuítas como se a teologia destes fosse de menor categoria e contrária à alemã, em comparação com a de Ratzinger, próxima de Santo Agostinho sabe a injusto, inexato e até arrogante. Aliás, tornou-se ridícula a afirmação do Prefeito de que tinha a competência de colmatar a necessidade de enquadrar teologicamente o pontificado de Francisco, como se este fosse obrigado a andar a toque de caixa da CDF e não fosse esta a prestar o serviço ao Papa como organismo de apuramento da doutrina e de morigeração dos costumes contrários aos inspirados no Evangelho.

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O Vaticano refere, na nota acima transcrita que o Papa está muito agradecido ao cardeal alemão pelo seu trabalho nos últimos cinco anos, mas que o mandato terminava este fim de semana. Não deixa de ter, apesar de tudo, alguma razão. Com efeito, nestes 5 anos, a CDF, além de vários livros e estudos, produziu dois documentos de bom senso e de excelência: a Carta Iuvenescit Ecclesia, sobre a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos para a vida e a missão da Igreja, de 15 de maio de 2016; a Instrução Ad resurgendum cum Christo, a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas da cremação, de 15 de agosto de 2016.

A CDF é responsável pela difusão da doutrina e pela defesa dos pontos da tradição que possam estar em perigo devido a doutrinas não aceitáveis pela Igreja. E é responsável por investigar os casos de abuso sexual de sacerdotes. Em fins de fevereiro, Müller negou ter sistematicamente ocultado casos de abusos na Igreja, dizendo ao jornal La Repubblica:

“A Igreja não esconde nada. Em alguns casos, pode ter havido desconhecimento, mas não sistemático”.

No entanto, o Müller tem pautado a maior parte das intervenções públicas pelo distanciamento em relação ao Papa, manifestado nos silêncios, quando era seu dever falar, nas afirmações contrárias às do Pontífice e no apoio (ora tácito, ora explícito) ao discurso e postura dos opositores – figurando para a opinião pública como opositor às reformas e crítico posições do Pontífice.

Um dos pontos mais fraturantes entre o Cardeal e Francisco é a questão dos católicos divorciados que querem casar novamente – questão emergente nos dois sínodos sobre a família (outubro de 2014 e outubro de 2015). Para Müller, “o sacramento do matrimónio é indissolúvel por vontade de Deus”, o que ninguém pode mudar. Por isso, “uma possibilidade é voltar para o esposo legítimo ou então desistir das relações que não são válidas”, vivendo more fratris et sororis, ficando para o purpurado a questão “apenas em perceber se as condições para aquele matrimónio estavam reunidas, de acordo com os preceitos da Igreja”. Com efeito, “o casamento civil não é exatamente igual ao sacramento do matrimónio”, o que seguramente “há muitas pessoas que não conseguem entender”.

Ora, é preciso dizê-lo claramente: Francisco não mudou nem pretendeu mudar a doutrina; entende apenas que, no quadro da misericórdia evangélica, há de equacionar-se a forma eficaz de demonstrar pastoralmente que os divorciados recasados pelo civil (tendo refeito a vida com outra pessoa) não estão, por esse facto, fora da Igreja. E, se há outros bens a preservar ou o mister de não incorrer em mais situações injustas, é de equacionar, a juízo dos pastores, a possibilidade de aceder aos sacramentos da Reconciliação da Eucaristia, mediante um esclarecido itinerário penitencial, salvaguardando que a doutrina da Igreja sobre o matrimónio não muda, mas intentando a aproximação pastoral o mais eficaz e correta possível.

A Müller sucede o espanhol Luis Francisco Ladaria Ferrer, de 73 anos, que ocupava até agora o cargo de secretário na CDF. Natural de Maiorca, Ladaria tem sido um dos membros mais ativos da CDF e da Comissão Teológica Internacional. E, além dos cargos exercidos na Cúria, Ladaria é professor de Escatologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Com esta mudança de titulares na CDF, a perspetiva doutrinal e teológica não muda radicalmente, mas apenas muda a postura pastoral, tornando-se mais alinhada com o desígnio de Francisco e talvez se acelere o andamento dos processos judiciais que são da jurisdição da CDF.

O novo Prefeito da CDF (um teólogo europeu) entrou na Companhia de Jesus em 1966, já depois de se ter formado em Direito, em Madrid. Só depois é que se voltou para a vida sacerdotal. O Papa São João Paulo II nomeou-o para a Comissão Teológica Internacional em 1992, e Bento XVI viria a escolhê-lo para Secretário na CDF, em 2008. Por outro lado, Ladaria integra uma outra comissão muito importante da Santa Sé: a Comissão para o Diálogo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a sociedade de vida apostólica que o bispo francês Marcel Lefebvre criou em 1970 para manter a doutrina, os preceitos e a disciplina da Igreja anteriores ao Concílio Vaticano II. Trata-se duma das organizações mais polémicas da Igreja, pugnando pela celebração da Missa Tridentina (prática anterior ao Concílio Vaticano II, celebrada em latim, de costas para o povoe preferencialmente ad Orientem –rejeitando por motivos doutrinais o missal de Paulo VI) – com a qual a Santa Sé tem procurado aproximar o diálogo, sobretudo através desta comissão.

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O Papa, como se disse, não renovou o mandato do responsável pelo gabinete que processa e avalia todos os casos de sacerdotes acusados de violação ou de abuso sexual de menores. A notícia da não renovação do mandato, que era esperada por muitos, surgiu dias depois de Francisco ter autorizado o Prefeito da Secretaria da Economia do Vaticano, que pediu e obteve licença de funções, para se deslocar à Austrália a defender-se em tribunal num caso de alegado abuso sexual. E o que terá a ver um caso com o outro?

Durante a vigência de 5 anos de Müller, o gabinete acumulou dois mil casos e sofreu fortes críticas por parte da irlandesa Marie Collins. De facto, a 1 de março, Collins, uma das vítimas de abuso sexual cometido por sacerdotes, renunciou ao cargo que ocupava na Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores, criada em 2014 para investigar tais crimes. Segundo Collins (que disse à revista jesuíta America que a atitude “vergonhosa” da Congregação a levou a retirar-se da Comissão), havia uma resistência “inaceitável” às propostas da comissão por alguns organismos da Santa Sé. Em maio, Francisco assegurou que nunca assinou um indulto a padres envolvidos em escândalos de abusos sexuais e reconheceu que os processos estão muito atrasados, com “dois mil casos amontoados”. E deu expressamente “alguma razão” à irlandesa, afirmando que “há muitos casos atrasados, porque se amontoavam ali”, e referiu que “há dois mil processos amontoados”, o que era inexplicável, apesar da complexidade processual.

A CDF assumiu a responsabilidade de processar os casos de abuso sexual de crianças em 2001, depois de o cardeal Joseph Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI, determinar que as dioceses não estavam a penalizar os religiosos envolvidos como requeriam as leis eclesiais.

Ora, o cardeal George Pell anunciou que pediu a licença para se defender, já aceite pelo Papa, das funções que desempenha no Vaticano, na sequência das acusações da polícia australiana de abusos sexuais. Na verdade, a polícia do Estado australiano de Victoria acusou o cardeal de 76 anos de crimes de abusos sexuais de menores tendo ele sido intimado a comparecer perante o tribunal de 1.ª instância de Melbourne no dia 18 de julho. Pell disse aos jornalistas que vai comparecer e negou as acusações que classificou de “assassinato de caráter”.

Entretanto, Greg Burke, porta-voz do Vaticano, disse que Francisco autorizou a licença pedida pelo cardeal australiano, mas que ele mantém o cargo de máximo responsável pelas Finanças da Igreja católica. Na verdade, enquanto arcebispo de Melbourne e, depois, de Sidney, Pell enfrentou alegações que o acusavam de encobrir abusos cometidos por clérigos. Mais recentemente, tornou-se alvo de investigações da polícia de Victoria que o interrogou no Vaticano, em 2016.

Porque será que Müller nunca disse uma palavra a propósito do caso Pell? A defendê-lo, não por certo, que a defesa tem de ser ativa e explícita, quando a acusação é pública; encobri-lo, quando o Papa tem sido claro e drástico na punição destes crimes, seria falta de entendimento, dissonância e incurso em abominação. Obviamente, o meu desejo é que Pell esteja inocente e Müller aceite humildemente a destituição do cargo e tente a aproximação ao Pontífice esquecendo mais a questão da escola teológica alemã. 

2017.07.03 – Louro de Carvalho