segunda-feira, 30 de julho de 2018

As crianças devem ir a funerais?

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A morte é um tema sensível. Ninguém gosta de ter de pensar na partida de alguém, e é difícil encontrar as palavras certas para confortar quem se encontra em processo de perda. Talvez por esta gestão ser delicada para nós adultos, raramente sejamos levados a pensar como ajudar as crianças a viver momentos delicados, e preferimos retirá-las deles.
Se olharmos para trás na história, há não muito tempo, a morte era algo que se vivia nas casas das pessoas. O serviço de saúde não existia como hoje, e quando o momento da partida de alguém estava próximo, assumia-se que era tempo de despedida. E se as despedidas são sempre difíceis, as permanentes não seriam menos. Na maior parte das vezes, estar doente e deixar de ter vida envolve sofrimento. Mas a vida era assim vivida, e o corpo era velado na própria casa. As crianças faziam parte destes momentos, e não lhes era escondido o sofrimento como tendemos a fazer hoje.
Não caindo em extremos, até porque acredito que este é um tema – como tantos outros – em que cada família deve encontrar o seu ponto de equilíbrio e bom senso, acho que há algo que podemos aprender com o passado e aplicá-lo à nossa realidade de hoje.
Sendo totalmente honesta em relação a este assunto, os meus filhos vão a funerais. Desde sempre, nunca tivemos uma idade mínima, nem critério de proximidade. Contudo, não dá para ter uma criança presente num funeral sem lhe terem sido explicadas – ao longo do crescimento e na medida da compreensão – uma série de conceitos:
  1. A morte faz parte da vida. Todos os que nascem, um dia vão morrer. Quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado.
  2. Não há idade para morrer. Embora a ordem natural das coisas seja nascer bebê e morrer velhinho, nem sempre assim acontece. Por causa do ponto anterior, não vivemos ansiosas, mas confiamos que Deus fará o que entende ser melhor, mesmo que isso implique ver partir pessoas de outras idades, e que fiquemos muito tristes com isso.
  3. Para os cristãos, a morte é apenas o início. A verdadeira e perfeita vida começa no momento que Deus nos chama à sua presença. Por isso é tão importante aceitar a morte de Jesus no nosso lugar, por causa dela não morreremos para sempre, mas teremos vida completa.
  4. Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.
Estes conceitos não se transmitem assim, mas vão-se vivendo e falando à medida do crescimento de cada um. Creio que não faz sentido proteger uma criança de um funeral, se ela for tendo, na sua experiência de vida, contatos saudáveis com o sofrimento. Existe forma positiva de lidar com o sofrimento? Creio que existe. Ir visitar pessoas hospitalizadas, acompanhar de perto pessoas com dificuldades ou sofrendo, orar por elas no local e depois em casa, é um dos primeiros passos para ir percebendo a própria deterioração do corpo em processo de doença, por exemplo.
Mas há mortes muito violentas e que nos ultrapassam. Pessoas que desaparecem numa tragédia súbita. É importante não esconder esses fatos quando acontecem a desconhecidos, para o caso de um dia essa mesma tragédia nos bata à porta.
Recordo-me que há 3 anos partiu alguém próximo de nós. A morte foi relativamente rápida, e embora eu e o meu marido tenhamos tido a possibilidade de nos despedir ainda no hospital, a entrada das crianças foi vedada pelo próprio hospital. Neste caso em particular, tenho pena, porque creio que foi uma despedida cheia de esperança, porque esta tia sabia bem para onde ia nas horas seguintes, e teria sido um momento de testemunho poderoso para os meus filhos. Não sendo possível, foram ao funeral. Tinham 4, 6, 7 e 10 anos cada um. O caixão estava aberto mas não se quiseram aproximar. Choraram em momentos diferentes, e acompanharam todo o processo.
Creio que esse é outro elemento importante: não esconder a nossa própria dor no processo. Chorar faz parte da vida, e lava a nossa alma. Se estamos tristes porque nos separamos de alguém que amamos, não faz mal chorar à frente de quem vive conosco. Já fui para o quarto chorar, mas também já fiquei chorando acompanhada pela minha família. Chorar é terapêutico e é uma boa forma de expressar a dor e nos ligarmos em empatia também.
Se quando temos momentos bons em família e nos divertimos, expressamos o quanto gostamos da presença uns dos outros, por que evitar fazê-lo quando estamos tristes? Existimos para nos confortar e para transpor estes processos juntos.
Até hoje, os meus filhos só foram a funerais cristãos. E sei, os funerais cristãos estão recheados de esperança no meio da dor. Nunca foram a outro tipo de funerais porque de fato nunca aconteceu, mas esse é outro fator que deve ser levado em conta.
Para mim, a morte de alguém próximo chegou quando eu tinha 8 anos. A minha avó materna ficou doente, e uns dias antes de ela partir, a minha mãe disse-me que provavelmente não a voltaria vê-la. E não voltei. Talvez porque o funeral seria algo marcante na família – os meus pais eram os únicos cristãos ali – eu não fui. Recordo-me de ter pena de não ter ido, mas acredito que o desespero envolvido nos que estariam presentes, não fosse o melhor testemunho para mim.
Há poucos dias, voltamos a um funeral. Desta vez, de uma senhora que não conhecemos, mas que morreu de uma forma trágica, avó de amigos e irmãos nossos. Novamente, um culto cheio de esperança. Os meus rapazes, quiseram aproximar-se de todo o processo no cemitério. Ficaram tocados pela dor dos nossos queridos, comentaram as lápides por onde passamos, fizeram perguntas. Voltamos para casa e à noite recordamos isso mesmo: temos esperança em Jesus, e confiamos que Deus Pai sabe o momento de cada um. Mesmo que seja difícil compreender, nós confiamos. E, se preciso for, choramos.
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” – Salmos 30:5
Ana Rute
Fonte: aqui
 
Comentário de Filipe d'Avillez ao post
Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.
Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”
Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.
Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?
Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.
Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.
E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.
Fonte: aqui

sexta-feira, 20 de julho de 2018

segunda-feira, 2 de julho de 2018