sexta-feira, 29 de março de 2019

Sirvamos a Cristo nos pobres

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Diz a Escritura: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. A misericórdia não é certamente a última bem-aventurança. Lemos também: Bem-aventurado o que pensa no pobre e no indigente. E ainda: Bem-aventurado o homem que se compadece e empresta. E noutro lugar: O justo está sempre pronto a compadecer-se e a emprestar. Tornemo-nos dignos destas bênçãos divinas, de sermos chamados misericordiosos e benignos.
   Nem sequer a noite interrompa as tuas obras de misericórdia. Não digas: Vai e volta, e amanhã te darei o que pedes. Não ponhas intervalo algum entre o teu bom propósito e o seu cumprimento. Só a prática do bem não admite adiamento.
   Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo; e isto com magnanimidade e alegria. Aquele que pratica a misericórdia, diz o Apóstolo, faça-o com alegria; esta prontidão e diligência duplicarão a recompensa da tua dádiva; mas o que se dá com tristeza e constrangimento nem agrada nem é digno.
   Devemos alegrar-nos, e não entristecer-nos, quando prestamos algum benefício. Diz a Escritura: Se quebrares as cadeias da injustiça e da opressão, isto é, a avareza e a discriminação, as suspeitas e as palavras de murmuração, que acontecerá? A tua recompensa será grande e admirável: A tua luz despontará como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a sarar. E quem há que não deseje a luz e a saúde?
   Por isso, se me julgais digno de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, vistamos a Cristo, recebamos a Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-O à nossa mesa como Simão, não só ungindo-O com perfumes como Maria, não só dando-Lhe o sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo ouro, incenso e mirra como os Magos; mas, uma vez que o Senhor do Universo prefere a misericórdia ao sacrifício, uma vez que a compaixão tem muito maior valor do que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos.
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 (São Gregório de Nazianzo, Sec. IV)

domingo, 24 de março de 2019

quarta-feira, 20 de março de 2019

Tarrant não é fruto do Cristianismo, é fruto do seu abandono


Por mais que algumas pessoas, incluindo o presidente da Turquia, Erdogan, insistam em dizer o contrário, o terrorista de Christchurch não era cristão.

No seu manifesto ele fala de Cristianismo, mas quando chega ao ponto de se identificar, ou não, como cristão, responde que “isso é complicado, quando souber, digo”, o que deixa bastante a desejar em termos de profissão de fé. Nisto, segue a tendência de outros famosos terroristas raciais. A excepção é Anders Breivik que, no seu manifesto, diz que foi baptizado, mas deixa esta explicação importante: “Se alguém tem uma relação pessoal com Jesus e com Deus, então é um cristão religioso. Eu, e muitos como eu, não temos necessariamente uma relação pessoal com Jesus Cristo e com Deus. Contudo, acreditamos no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, identitária e moral. Isso faz de nós cristãos”. Lamento desiludir-te Breivik, mas não, não faz.

A questão preocupante, para mim, é que tanto Breivik, que matou dezenas de pessoas inocentes na Noruega, como Tarrant, que matou 49 pessoas inocentes na Nova Zelândia, alegaram estar a agir em defesa da cultura e da civilização ocidentais.

Sempre achei fascinante como alguém pode alegar defender uma cultura e uma civilização rejeitando precisamente o Cristianismo que é o elemento aglutinador. Tirando o Cristianismo, o que é que um português tem em comum com um finlandês? Ou com um russo? Não é de espantar que fiquemos reduzidos à questão racial, aliás, forçadíssima… Basta colocar lado-a-lado um português típico e um finlandês para se ver as diferenças em termos de tonalidade da pele.

E quando nos agarramos a coisas tão básicas como a cor da pele, tão efémeras como especificidades culturais e tão fluidas como a língua, claro que nos sentimos sempre sob ameaça e vemo-nos forçados a adoptar numa mentalidade de trincheira que vê qualquer pessoa de cor, cultura ou língua diferente como um perigo ou, para usar o termo infeliz de Tarrant, invasor.

O abandono do Cristianismo transforma a cultura europeia numa carcaça. Vemos isso tanto na decadência cultural da Europa relativista que abandonou a sua religião voluntariamente, como na retórica nojenta dos racistas atuais. São fenómenos que se alimentam mutuamente, duas faces da mesma moeda. Uma apostada num lento suicídio, outra em morrer matando.

Eu não sei porque é que Tarrant não se assume como cristão. Só Deus sabe o que se passa naquela cabeça. Mas sei que se ele fosse de facto cristão não conseguiria justificar o seu acto em qualquer manifesto, tal como Breivik só podia mesmo ser um “cristão” sem relação com Deus ou com Jesus para achar que a religião que manda amar os inimigos é compatível com a matança de inocentes.

Mentalidades como a de Tarrant e de Breivik não são fruto do Cristianismo, são fruto do seu abandono e devem servir de alerta para os guerreiros culturais que querem extirpar a fé da nossa civilização. O Cristianismo é um travão ao extremismo cultural, racial e étnico. Não é um travão infalível, como bem sabemos, mas é um travão potente. Livramo-nos dele à nossa conta e risco.

Que Deus acolha na sua misericórdia os mortos e que os cristãos sejam firmes e unânimes na sua condenação destes actos e da mentalidade que lhes está subjacentes. O nosso lugar nunca será ao lado destes homens, mas sempre das suas vítimas, independentemente da sua religião.

terça-feira, 19 de março de 2019

Pai. Nunca esquecerei.

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Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.
JOSÉ LUIS PEIXOTO, in MORRESTE-ME (Temas e Debates, 2001)

quarta-feira, 13 de março de 2019

Mais um ataque ao Bispo do Porto. Vindo sempre dos mesmos...

D. Manuel Linda, fã do Papa Francisco a 200%", acaba de publicar um documento com orientações para a pastoral familiar na Diocese do Porto, onde, a determinada altura, diz: "De facto, pode haver casos em que a pessoa após um processo de conversão e discernimento, sem ter que deixar de coabitar maritalmente com o outro, possa aceder aos sacramentos. Como já foi referido, não se trata de diminuir as exigências do Evangelho relativamente ao matrimónio, mas sim de ter em conta tanto os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes como o princípio da misericórdia na pastoral. Efetivamente, a pessoa pode encontrar-se em condições concretas que não lhe permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem nova culpa."
Ui! Isto foi deitar gasolina no fogo integrista! Os ultraconservadores, os fundamentalistas, riparam das suas espadas e atacaram forte e feio o Bispo.
Esta gente não se enxerga! Como os fariseus, só veem leis e tradições humanas. Sempre aptos a julgar e a condenar. Detestam a palavra "MISERICÓRDIA" e adoram o ambiente parado, estático. Tudo o que mexe  lhes merece reação guerreira porque preferem o ambiente insalubre do imobilismo.
A lei e as tradições humanas são o seu oxigénio. Se pudessem, riscariam da Sagrada Escritura frases como:
- "Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados."
- "Prefiro a misericórdia ao sacrifício".
- "Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso".
- "A letra mata, mas o Espírito é que dá a vida".
“Eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo”.
Força, senhor Bispo! Se Jesus temesse a reação dos fariseus, não teria passado pela cruz.
Os olhos estão na cara para olharmos em frente e não na nuca para olharmos para trás!



quinta-feira, 7 de março de 2019

Parabéns, Mulheres!



 
MULHER
A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher
José Carlos Ary dos Santos

Em 2019 já morreram 13 pessoas vítimas de violência doméstica!!!


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Este ano o governo decretou dia de luto nacional contra a violência doméstica, na véspera do Dia Internacional da Mulher. Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa considera que "este será um dia em que não devemos apenas homenagear as vítimas e manifestar a nossa solidariedade com as suas famílias, mas também renovarmos, coletivamente, o nosso propósito de continuar o combate a uma realidade intolerável".

quarta-feira, 6 de março de 2019

Não há motivo para tanta admiração!


Causou espanto na comunicação social a recente nomeação episcopal do P.e Américo Aguiar, por isto: ser muito novo, 45 anos.
Não é preciso gastar muito tempo em consultas biográficas para verificar que tal situação tem sido mais frequente do que possa parecer.
Recordamos que D. António Ribeiro, antigo Patriarca de Lisboa, foi nomeado bispo aos 39 anos. D. Júlio Rebimbas, aos 43.
E se quisermos referir bispos ainda vivos, temos exemplos de nomeações quando os nomeados eram novos:
- D. Augusto César, 40 anos
- D. Maurílio de Gouveia, 41 anos
D. José Manuel Garcia Cordeiro – 44 anos
- D. Jorge Ortiga – 44 anos
Daí que se conclua que a comunicação social podia fazer melhor o "trabalho de casa". Evitaria o sensacionalismo que não é propriamente uma boa qualidade jornalística.

sexta-feira, 1 de março de 2019

A Igreja falhou, falha e falhará

Tenho muito tristeza pela responsabilidade que me cabe. Para quem não é crente explico: a desolação que sinto é como se um filho meu tivesse abusado de menores, feito o que se diz dos padres acusados.
Já tanto se leu sobre este assunto que não ia acrescentar mais nada, mas pensando que ainda não está tudo dito, resolvi escrever estas linhas.
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A Igreja, instituída por Jesus Cristo, é boa porque Ele só faz coisas boas. Tudo o que vem de Deus é bom e por isso também a humanidade é boa. Acontece que o mal não vem de Deus, mas existe e, pela nossa liberdade, que é boa, pode ser praticado.
Dito isto, fica explicado o título: sabemos que a Igreja falhará, como sabemos que falha nos nossos dias e falhou no passado porque somos livres de escolher o bem e o mal. Quando optamos pelo mal destruímos aqueles que atingimos com o mal que fazemos e destruímo-nos a nós mesmos. E tragicamente todos estamos sujeitos à tentação de escolher o mal.
A palavra falha sabe a pouco quando nos referimos ao abuso de menores e não quero aligeirar o problema. O que se tem passado na Igreja é infame, envergonha-nos a todos e somos poucos para ajudar a corrigir, para pedir perdão, para construir um futuro melhor.
Digo nós, porque todos nós católicos somos Igreja, por isso a vergonha e o desejo de reparar e ajudar é meu também, é nosso. Não foi a Igreja que esteve mal, fomos NÓS Igreja que estivemos mal.
Tenho muito tristeza pela responsabilidade que me cabe. Para quem não é crente explico o que digo: a desolação que sinto é como se um filho meu tivesse abusado de menores, feito o que se diz de qualquer dos padres envolvidos. Seria uma sensação de ter falhado profundamente e de me custar olhar de frente para quem quer que visse. Mas, tal como acontece com os filhos, a desolação não contém desespero, mas sim esperança. Esperança porque nascemos com vocação para amar e não para maltratar, esperança porque tantas vezes caímos, mas outras tantas nos levantamos, esperança porque a obra de Deus é boa e vencerá.
O trabalho de investigação do Observador magoa qualquer católico. Mas a principal razão porque nos magoa é porque a verdade dói e neste trabalho ela é-nos atirada à cara de uma forma muito cruel. Não tenho qualquer objecção a este trabalho de investigação. E ainda que ele possa dar a entender que a extensão do problema, em número de casos, é maior do que na realidade é, isso não tem importância porque o que importa é o trabalho que todos nós Igreja estamos a fazer para atacar o problema. Por isso é com grande confiança que vejo muita coisa acontecer e a principal é a iniciativa do Papa de ter chamado todos a uma grande reflexão sobre o tema, sem esconder nem disfarçar a realidade.
Esta é grande diferença entre a instituição Igreja e qualquer outra instituição. Nós temos um desejo de bem, nós somos obra de Deus e por isso nós, com todos os erros que já cometemos, não desistimos de os corrigir e seguir, ajudando os que mais precisam.
Um dia escrevi neste jornal que tinha pena de não ver publicadas boas obras. Se o Observador quisesse criar uma equipa de investigação para saber o bem que a Igreja faz em Portugal, se quisesse ter um canal disponível para os leitores contarem casos em que a Igreja os salvou, recuperou, ajudou, não chegariam três meses nem três anos. Essa é a verdade que nos orgulha mesmo neste momento de grande vergonha.
A Igreja está em perigo porque a pretendem silenciar e denegrir, porque os valores que são os pilares da nossa sociedade estão a ser destruídos através da educação e da cultura, e não por ter errado. A Igreja sairá mais forte deste drama porque tem a coragem de se arrepender, de corrigir e de seguir a sua missão.
Não tememos pelos nossos erros por muito graves que sejam. Queremos que todo o mundo saiba que errámos, mas que vamos enfrentar os nossos erros, reparar o que for possível, prosseguir no que fazemos de bem encontrando forças para seguir na construção de um mundo melhor.
Rita Fontoura, aqui