quarta-feira, 30 de abril de 2014

"La lógica de los medios es loca"

El cardenal de Lyon, Philippe Barbarin, en la universidad de la Santa Croce de la Obra en Roma explico, sin darse importancia, la aventura de la Iglesia francesa en defensa de la familia. Y aseguro que la homosexualidad "es una atracció o un deseo" y no puede explicarse en clave de identidad sexual. 
(Veja  aqui)


O que mais me chamou a atenção foi um comentário que passo a transcrever e com o qual me identifico. Eclesiásticos obsessivamente preocupados com a temática da sexualidade, mas muito despreocupados em relação aos outros 8 mandamentos da Lei de Deus.


"Pero estos de "sexualidad" humana lo saben todo y para todos; pero de pobrezas, exclusiones, causas de la injusticia social, estructuras sociales de pecado, quiebra de la democracia, desarrollo económico perverso, trampas financieras, familias sin ingresos, pérdida radical de derechos humanos en el trabajo, en la asistencia social, en la infancia nacida... degeneración del compromiso evangélico de la iglesia, implicación de sus universidades en esas causas..., de esto no saben, no contestan."

domingo, 27 de abril de 2014

sábado, 26 de abril de 2014

O que significa ser santo para a Igreja?


Nótula prévia

Relativamente à questão colhida na blogosfera, antes de mais, é oportuno distinguir santidade do homem e santidade de Deus e, consequentemente, santidade de Cristo. Depois, quanto à santidade do ser humano, convém diferenciar a santidade a que todos somos chamados e, por assim dizer, obrigados e a santidade reconhecida pela “autoridade eclesiástica” e/ou pela vox populi como se de vox Dei se tratasse – o tal santo subito!, bradado na Praça de S. Pedro em abril de 2005.

Voz do povo, voz de Deus, minha senhora mãe (A. Garrett, Frei Luís de Sousa, I,3). É de ter em conta a voz do povo. Porém, às vezes, é tão injusta: Hossana ao Filho de David! vs Crucifica-O! Solta Barrabás! Não era mesma multidão?

 

A santidade de Deus, a santidade de Cristo

A proclamação triságica do santo, santo, santo encontra-se duas vezes na Bíblia, uma no AT/Antigo Testamento (Is 6,3) e outra no NT/Novo Testamento (Ap 4,8). Nos dois casos, a proclamação é feita por criaturas celestiais invisíveis tornadas visíveis na visão de um homem que foi transportado para o trono de Deus. Esse homem é, no AT, o profeta Isaías e, no NT, o apóstolo João.

A santidade de Deus é o atributo de Deus de mais difícil explicação. Deus tem atributos compartilhados, embora em menor grau, pelos seres humanos, como o amor, a misericórdia, a lealdade, a fidelidade, etc.. Outros não serão em caso algum compartilhados pelas criaturas, como, por exemplo, omnipresença, omnisciência, omnipotência. A santidade é compartilhável, mas apenas por graça divina. A santidade de Deus é o atributo que o separa e distingue de todos os outros seres; é mais do que Sua perfeição ou pureza sem pecado (ágnos, no grego); é a essência de Sua “alteridade”, a Sua transcendência. Ela encarna o mistério da Sua grandiosidade e faz-nos olhar para Ele com assombro quando começamos a entender um pouquito da Sua majestade.

O profeta foi uma testemunha da santidade divina (cf Is 6,5). A sua reação face à visão da santidade de Deus foi estar consciente dos seus próprios pecados. Os próprios anjos na presença de Deus, a proclamar a santidade do Senhor Todo-Poderoso, cobriram rostos e pés com quatro das suas seis asas (cf Is 6,2). A visão de João do trono de Deus é semelhante à de Isaías: havia também criaturas viventes a circundar o trono e a clamar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, Aquele que é, que era e que há de vir” (Ap 4,8), em reverência e temor ao Santo (hágios, no grego). Não há indicação de que João tenha caindo em terror pelo seu eventual estado pecaminoso. O apóstolo já tinha encontrado o Ressuscitado no começo da sua visão (cf Ap 1,17). Cristo tinha colocado a Sua mão sobre ele e ordenado que não tivesse medo.  

A tríplice enunciação, muito comum entre os judeus, aqui a da santidade divina significa a convicção confiante, a sinceridade e a intensidade do ato de adoração (a plenitude latrêutica). Por outro lado, o triságio expressa a natureza trina de Deus, as três Pessoas da Divindade, distintas, mas cada uma igual em santidade e majestade (vd Prefácio da Missa da SS.ma Trindade); e a identidade da proclamação triságica nos dois blocos da Escritura pressupõe a certeza de que o Deus de Jesus e dos apóstolos é o mesmo que o dos profetas. Jesus, orando ao Pai, chama-lhe Pai Santo (cf Jo, 17,11).

Por seu turno, Jesus Cristo é o Santo que não sofreu “decadência” ou degradação no túmulo, mas foi ressuscitado para ser exaltado à direita de Deus (cf At 2,25.33-34; 13,33-35). Jesus é “o Santo e o Justo” (At 3,14) cuja morte na cruz nos garante o acesso ao trono do nosso Deus santo, sem qualquer tipo de vergonha. E que Ele, enquanto imagem visível do Pai, é o único “Santo” na Terra. Nos o proclamamos no Gloria in excelsis, “Tu solus sanctus”.

Tal como no AT Deus quer que os homens sejam santos (“Sede santos porque Eu sou santo” – Lv 11, 44; 19,2), também, no NT, Jesus o determina (“Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está nos Céus” – Mt 5,48) e Pedro, citando o AT (1Pe 1,16 – “Sede santos porque Eu sou santo”), com que argumenta, manda que sejamos “santos em toda a maneira de proceder” (1Pe 1,15). Ora, sendo o homem criado à imagem e semelhança de Deus e redimido por Cristo para recuperar tal estatuto perdido por causa do pecado, este “homem novo” pode e deve aproximar-se do trono da graça, se tiver a mão de Cristo sobre si na forma da justiça de Deus, a qual nos foi outorgada na cruz em troca do nosso pecado (cf 2 Cor 5,21; Hbr 4,16).

E todos somos chamados à santidade. O Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Igreja, exprime claramente a chamada universal à santidade, assegurando que ninguém é dela excluído: “Nos vários géneros de vida e nas várias formas profissionais é praticada uma única santidade por todos os que são movidos pelo Espírito de Deus e (...) seguem Cristo pobre, humilde e carregando a cruz, para merecerem ser partícipes da sua glória (cf LG 41; GS 48).

 

E em que consiste a santidade humana? Ou: resposta a questão da epígrafe

Os termos hebraicos Qadosh, para santo, e Qodesh, para santidade, terão partido do primitivo conceito de separação ou remoção do sagrado do profano (hôl). Os hagiógrafos tomaram as palavras, que usaram para descrever muitas coisas e atividades separadas para adoração. Estes termos empregam-se predominantemente em sentido religioso e habitualmente contêm o significado fundamental de “separado”, ou “fora do uso comum”. O seu uso ficou normalmente adstrito a regras cerimoniais ou limitado a certo povo (Israel, sacerdotes), lugares (tabernáculo), coisas (altares), ou tempos (sábado). O termo oposto a santo é “impuro”, “profano” (vd Lv 10,10).

O termo no AT é usado no AT, por si e variantes, mais de 600 vezes multimodamente: para nomear alguma coisa a ser separada, por exemplo, o santo lugar (Ex 28,43; 29,30) era separado dos lugares comuns para adoração; para descrever uma caraterística, por exemplo, o nome de Deus é, por vezes, expresso por “meu santo nome” (Lv 20,3; 22,2) e Sião é, às vezes, chamado o “santo monte” (Sl 2,6). Por seu turno, o verbo “santificar” significa “consagrar ou separar a pessoa ou objeto do comum (no grego témnos, de témnein, cortar; no latim, sanctus, de sancire, cortar). Assim, Deus “santificou” vítimas, pessoas e altar (Ex 29,25-37), o Templo (cf 1Rs 8,64), pessoas (cf Ex 19,10.14) e lugares (cf Ex 19,23). Raramente a santidade é transmissível a outros objetos (cf Ex 29,37; 30,29; Lv 6,27), mas na maioria dos casos a impureza (como o vício, a idolatria) é transmissível e poluente para o que é santo (cf Ag 2:12-13). Os objetos santos são muito numerosos. No entanto, destacam-se a arca da aliança, o tabernáculo (ou mais tarde o Templo) e todos os artigos envolvidos na adoração, as pessoas que executavam a adoração, a terra em volta do tabernáculo e a nação inteira de Israel.

O termo skinner descreve o significado de santidade, querendo dizer que santidade exprime uma relação que consiste, pela negativa, na separação do uso comum, e pela positiva, na pureza (tãhôr) e dedicação ao serviço de Javé. É, porém, duma santidade marcadamente ritual que se trata.

Para designar a palavra “santo”, o hebraico tem a palavra Qadesh, que também designa, por vezes, o nome do Deus dos judeus e também aparece no NT. Significa também pessoa ou coisa consagrada perante outras pessoas e coisas. Existem variantes de Qadesh. Assim: Qadosh significa sagrado (hiereus, no grego; sacer, no latim); Qidush significa santificação, ou consagração; Yom Qadosh significa dia Santo; Qadish significa santificação ou uma oração litúrgica de origem aramaica feita durante 11 meses, para exaltar e louvar o nome de Deus e rogar pela vinda do reino messiânico. 

Bento XVI, na sua catequese de 13 de abril de 2011, tendo em conta as Escrituras e a doutrina conciliar, explica que, contra o que frequentemente se pensa, “que a santidade é uma meta reservada a poucos eleitos”, Paulo prega o grande desígnio de Deus: “N'Ele, Cristo, (Deus) escolheu-nos antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados diante d'Ele na caridade” (Ef 1,4). E o Papa esclarece:

“Fala de todos nós. No centro do desígnio divino está Cristo, no qual Deus nos mostra o seu rosto: o mistério escondido nos séculos revelou-se em plenitude no Verbo que se fez homem. E Paulo depois diz: De facto, aprouve a Deus que nele habite toda a plenitude (Cl 1,19). Em Cristo o Deus vivente tornou-se próximo, visível, audível, palpável para que todos possam beneficiar da sua plenitude de graça e de verdade (cf. Jo 1,14-16)”.

 

“A santidade, a plenitude da vida cristã” – adverte o Pontífice – não consiste em realizar empreendimentos extraordinários, mas em unir-se a Cristo, em viver os seus mistérios, em fazer nossas as suas atitudes, pensamentos e comportamentos.”

Por outro lado, “a medida da santidade” – garante Bento XVI, citando Paulo e Agostinho – é dada pela estatura que Cristo alcança em nós, desde quando, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida sobre a sua. Consiste na nossa conformação com Jesus, “Aqueles que ele conheceu desde sempre, predestinou-os para serem conformes com a imagem do seu Filho” (Rm 8,29) e em deixarmo-nos preencher totalmente pela vida de Cristo, “Será viva a minha vida toda repleta de Ti” (Confissões, 10,28). É santidade em espírito e verdade (cf Jo 4,24), em contraste com a ritual do AT.

Por sua vez, o Papa Francisco, no dia 1 de novembro de 2013, à recitação do Angelus na Praça de S. Pedro, garante que “ser santo não é um privilégio de poucos, mas uma vocação para todos”. Por isso, a Igreja tem a solenidade anual de todos os santos em que honra “os amigos de Deus, os que no rosto dos mais pequenos e desprezados viram a face do Senhor”.

Acrescentando que

“Os santos não são super-homens nem nasceram perfeitos, antes da glória viveram uma vida normal com alegrias e dores, fadigas e esperanças”, mas depois que “conheceram o amor de Deus, seguiram-no com todo o coração, sem condições ou hipocrisias, passaram a sua vida ao serviço dos outros, suportaram sofrimentos e adversidades sem odiar e respondendo ao mal com o bem, espalhando a alegria e a paz”.

 

Assim, os santos são homens e mulheres que têm a alegria no coração e a transmitem aos outros” – reforçou.

 

Condições para atingir a santidade

Assumindo a excelência e a acessibilidade da santidade, há que reunir um complexo de condições pessoais consentâneas com ela, como:

O desejo habitual de dar graças a Deus e expressar o amor por Ele (cf Jo 14,15); o anseio por andar o mais possível em união com Deus (cf Mt 5,8);  a solicitação da graça santificante atual de Deus para nossa vida e serviço ao próximo e seu incremento através da oração e da vida sacramental; a disponibilidade para ser um instrumento de Deus para Sua honra e glória (cf 2Tm 2,20-21); a ânsia de ver os incrédulos aproximarem-se de Cristo por terem observado o nosso viver (cf 1Pe 3,1-2); o esforço constante de evitar o mal e assumir a disciplina de Deus sobre nós; a procura da vontade de Deus, só porque em Seus mandamentos brilha a justiça e traz alegria à alma; e a relação sadia com a comunidade. –

 

O essencial do ensino eclesial na era apostólica visa a santidade de vida, para o que exige, antes de mais, o arrependimento e a conversão (cf At 3,19). Daí advém a mudança de atitudes, de pensar, de agir, de sentir, gerando uma vida diferente, que busca a santificação no dia a dia. É a Palavra que limpa, purifica e guarda (cf Jo 15,3; Sl 119,11); que é santa e santificadora, porque verdadeira (cf Jo 17,17); poderosa para san­tificar, purificar e tornar a Igreja imaculada, sem ruga, santa e irrepreensível (cf Ef 5,26-27). Ora é precisamente o estado pecaminoso o que separa o homem de Deus. O Senhor ama o pecador, mas aborrece o pecado (cf Rm 3,23-24) e exige que o Seu povo seja santo, tal como Ele é (Lv 11,44; 19,2; 20.7,26 – já citados). Ser santo significa, pois, ser irrepreensível (cf l Ts 3,13); viver segun­do a vontade divina, não se deixando contaminar pelo pecado (cf Ef 1,4); e não se confor­mar com o mundo (cf Rm 12,2), renunciando às obras da carne, mas produzindo os frutos do Espírito (Gl 5,22). 

Porém, é o Espírito Santo que opera na vida do crente para o santificar, tornan­do-o puro para Deus. É Ele quem dá as condições para se ter uma vida espiritual equilibrada. E Jesus é o modelo de santidade do cristão, como escreveu Pedro (1Pe 1,15), o mesmo apóstolo que repetiu o que o próprio Deus havia determinado desde os tempos antigos: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 11,44 – já citado). Na oração feita por Jesus ao Pai, Ele intercedeu pela santificação dos discípulos (Jo 17,6-19). É óbvio que a Igreja ficou abrangida por aquela oração. Quem deixou a mundanidade e passou a pertencer a Jesus já é santificado por Ele.

O apóstolo Paulo escre­veu que “as más conversações cor­rompem os bons costumes” (cf 1Cor 15,33). Porém, acontece o contrário com quem esco­lheu o próprio Jesus para seu amigo, seu companheiro, seu Senhor e Mestre (cf 1Cor 1,30). Foi lá no Calvário que Jesus deu o passo decisivo de redenção da huma­nidade. Derramou o Seu preciosíssimo sangue para redimir o pecador. Resga­tou o homem das trevas para a luz, da mentira para a verdade, da impureza para a santificação (cf Hbr 13,12). 

Mas sendo a santidade um estado de vida que se adquire gradativa e continuamente, é necessária a busca constante dessa qualidade, com a ajuda do Espírito Santo. É necessária a constância da perfeita santidade (cf Ef 4,12-13). O primeiro passo dado em direção a uma vida pura é a conver­são (cf 2Cor 5,17). Depois, o crescer na graça e no conhecimento de Jesus (cf 2Pe 3,18) vai dando ao crente a condição de se ir purificando em todas as di­mensões (cf 1Jo 3,3) em todos os sentidos: no olhar (cf Mt 6,22; 18,9); no falar (cf Mt 5,37; Ef 4,25); no andar (cf Gl 5,16); no porte diante dos des­crentes (cf Rm 14,15.18); em todo o viver (cf Fl 1,21; Gl 2,20).

 A vontade de Jesus é que o crente seja totalmente santo: espírito, alma e corpo (lTs 5,23). 

É verdade que, enquanto o cren­te estiver aqui neste mundo em sua peregrinação, ele não será perfeito em santidade. A perfeição, porém, é o alvo maior a que se propõe (cf Ef 4,13). Mas a santidade deve ser buscada e exercitada em todas as situações de vida. Porém, as grandes coisas iniciam-se como pequenas coisas. Se o crente se acostumar a não dar importância a elas, a sua mente ficará cauterizada e a expressão “não faz mal” pas­sará a ser recorrente no seu vocabulário. Paulo, na 1.ª car­ta aos Coríntios, releva a necessidade de especial preparação para aqueles que vão participar da Ceia do Senhor. Advertiu que quem nela participa indignamente torna-se culpado. E denuncia a existência, na igreja, de muitos fracos, doentes e até mortos espirituais porque não se preparam de modo ade­quado, que agrade ao Senhor. (cf 1Cor 11,27-30).

A bem-aventurança típica dos san­tos, os puros de coração, foi proclamada pelo próprio Jesus: “eles verão a Deus” (Mt 5.8b). No livro dos Atos, descrevem-se os primórdios da Igre­ja na terra, sendo a sua inau­guração e os seus primeiros tempos corroborados com uma sé­rie de abençoados acontecimentos da parte de Deus. Todos os crentes par­ticipavam unânimes, num mesmo espírito de cooperação. Viviam em igreja-comunidade. Era co­mum venderem suas proprieda­des ou parte delas para ajuda aos mais necessitados (cf At 2,44-46; 4,32-37).

 

O reconhecimento público da santidade, a sua apresentação modelar e a prestação de culto

Em muitos casos, a autoridade eclesiástica, sem se pronunciar sobre o mérito de outros, decide distinguir de forma especial alguns cristãos que viveram as virtudes teologais e humanas em termos de heroicidade. Por isso, declara solenemente que eles vivem já na companhia definitiva de Deus e possuem a visão beatífica e, além disso, podem e devem ser apresentados como modelos a seguir em vertentes fundamentais da vida cristã. Não pode é declarar que quem quer que seja não esteja no céu.

Os primeiros santos, neste sentido técnico-eclesiástico, foram “feitos” santos pela piedade do povo cristão e reconhecidos pela competente autoridade eclesial. Tal sucedeu com os apóstolos, os outros mártires e com homens ou mulheres que morreram em inquestionável odor de santidade. Entretanto, para que não restassem dúvidas de que algum ou alguma tivesse sido honrado com os altares sem que esse reconhecimento fosse plausível, começou a exigir-se o conveniente processo e criou-se em Roma um dicastério específico para o efeito – a Congregação para as Causas dos Santos.

 E temos dois tipos de situação: a beatificação e a canonização.

– Beatificação (do latim beatificatio de beatus, feliz, a partir do grego  μακαριος, makários) é o ato de declarar beato ou beata uma pessoa, ou seja, o reconhecimento feito pela autoridade da Igreja  de que a pessoa a quem se confere esse estatuto se encontra no Paraíso, em estado de beatitude, e pode interceder por quem se lhe dirija em oração.

Difere da canonização, sobretudo no seguinte: a beatificação comporta uma permissão local para o culto de dulia ou veneração, ao passo que a canonização, ultrapassando os limites da comunidade territorial ou humana implicada, ganha dimensão universal. Por outro lado, alguns teólogos não consideram a beatificação como uma declaração infalível da Igreja, sendo, no entanto, um passo rumo à canonização. Em termos processuais, as diocese têm autoridade para abrir o processo. A causa de beatificação possui um bispo postulador, que atua como uma espécie de advogado, que investiga a vida do candidato para verificar o seu testemunho de santidade. Aberto o processo, o candidato recebe o título de Servo de Deus. Na fase inicial, investigam-se as virtudes ou o martírio. Neste último caso, investigam-se as circunstâncias e os detalhes da morte. Concluído o processo de investigação com parecer positivo, a pessoa é declarada Venerável. Depois, há que aguardar que surja pelo menos um milagre cuja realização se comprove que resultou da intercessão do(a) Servo(a) de Deus. Não é necessária a verificação desta condição em caso de martírio. Finalizado o processo, é promulgado o decreto de beatificação e costuma proceder-se a celebração solene, preferencialmente com a comunidade implicada no processo, presidida pelo Papa ou por dignitário que o represente.

– Canonização  (de cânone, regra, catálogo) é o termo utilizado pela Igreja para denominar ato de atribuir o estatuto de Santo a alguém que já foi declarado Beato. Trata-se um ato altamente ponderado, resultante de um processo complexo dentro da Igreja, a ponto de só poder ser tratado pela Santa Sé em si, por uma comissão de altos membros e com a aprovação final do Papa.

O Código de Direito Canónico (CDC) estabelece: 

Para fomentar a santificação do povo de Deus, a Igreja recomenda à veneração peculiar e filial dos fiéis a Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, que Jesus Cristo constituiu Mãe de todos os homens, e promove o verdadeiro e autêntico culto dos outros santos, com cujo exemplo os fiéis se edificam e de cuja intercessão se valem. (CDC, cânone 1186).

E

Só é lícito venerar com culto público os Servos de Deus, que foram incluídos pela autoridade da Igreja no álbum dos Santos ou dos Beatos (CDC, cânone 1187).

 

O processo é regulamentado por dois documentos em vigor: a Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister (1983), de João Paulo II, que estabelece as normas para a instrução das causas de canonização e para o trabalho da Congregação para as Causas dos Santos; a instrução Sanctorum Mater, de 17 de maio de 2007, da respetiva Congregação, sobre as normas que regulam as causas de beatificação e canonização; e o “Index ac status causarum” (1999), do mesmo dicastério.

Segundo os preditos documentos, é ao bispo diocesano ou autoridade equivalente que, por iniciativa própria ou a pedido dos fiéis, compete investigar a vida, virtudes ou martírio, fama de santidade e milagres atribuídos; e, se considerar necessário, a antiguidade do culto da pessoa cuja canonização é pedida. Para tanto, designará um postulador que recolherá informações pormenorizadas sobre a vida do Servo de Deus e se informará sobre as razões que pareçam favorecer a promoção da causa da canonização. Depois do exame dos escritos, que tenham sido publicados, por teólogos  censores e nada havendo neles contra a fé e costumes, passa-se ao exame dos escritos inéditos e de todos os documentos que de alguma forma se refiram à causa. Se ainda assim o bispo considerar que se pode ir em frente, providenciará ao interrogatório das testemunhas apresentadas pelo postulador e de outras que achar necessário.

O exame do eventual martírio e o das virtudes, que o servo de Deus terá praticado em grau heroico, e o exame dos milagres a ele atribuídos devem ser feitos em separado. Concluídos os trabalhos, o processo é enviado à Congregação das Causas dos Santos, onde consultores procedentes de diversas nações e peritos em várias áreas científicas farão os necessários estudos. Depois, o decreto papal reconhecerá a prática das virtudes em grau heroico e declarará “Venerável” aquele Servo de Deus.

Havendo apresentação de milagre, este é examinado em reunião de peritos (e se se trata de cura, pelo Conselho de Médicos), sendo depois submetido a um congresso especial de teólogos; e, por fim, à Congregação dos cardeais e bispos. O parecer final desta é comunicado ao Papa, a quem compete decretar o culto público eclesiástico que se há de tributar ao Servo de Deus. Portanto, a beatificação só pode ocorrer após o decreto das virtudes heroicas e da verificação de um milagre atribuído à intercessão do Venerável. O milagre deve configurar uma cura inexplicável à luz da ciência e da medicina, sendo consultados inclusive médicos ou cientistas de outras religiões e ateus. Deve ser uma cura perfeita, duradoura e que ocorra rapidamente, em geral de um a dois dias. Comprovado o milagre, é expedido o decreto, a partir do qual pode ser marcada a cerimónia de beatificação, presidida pelo Papa ou por um cardeal ou bispo, seu delegado para o efeito.

Caso a pessoa já tenha o estatuto de beato e seja comprovado mais um milagre (de que o Papa pode dispensar, bem como de alguns prazos, por motivos relevantes) pela Igreja, o Papa ou um Cardeal, seu delegado para o efeito, em missa solene, declará-la-á “santa”, digna da honra dos altares e de receber a mesma veneração em todo o mundo, concluindo-se assim o processo de canonização.

Em casos excecionais, há o recurso à denominada canonização equipolente, já que equivale (tem valor igual) ao processo normal, para declarar que determinada pessoa falecida se encontra junto de Deus, no céu, intercedendo pelos que ainda vivem na terra. São, porém, necessários três requisitos: prova do culto antigo ao candidato a santo, atestado histórico incontestável da fé católica e das virtudes eminentes do candidato e a fama ininterrupta de milagres intermediados pelo candidato. É um processo instituído no século XVIII por Bento XIV, através do qual o Papa “vincula a Igreja como um todo para que acate a veneração de Servo de Deus ainda não canonizado pela inserção de sua festividade no calendário litúrgico da Igreja universal, com Missa e Ofício Divino”.

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Porque os santos nem sempre foram exemplo em tudo (gostei de ler em tempos um livro sobre dos defeitos dos santos), é que se exige a cura do tempo e se criticam com razão certas “santificações”, na vigência da memória de lacunas e controversas atitudes pouco explicadas e pouco sanadas. Mas Deus é grande e misericordioso!

2014.04.24

Louro de Carvalho

sexta-feira, 25 de abril de 2014

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O piripiri


A pimenta-malagueta, conhecida em Portugal como piripi, tem alta concentração da capsaicina e baixíssimos teores de piperina, o que faz com que seus efeitos no organismo humano sejam predominantemente benéficos.
Um grupo de investigadores do Instituto de Oncologia do Hospital Cedars - Sinai e da Universidade da Califórnia em Los Angeles descobriu que o "piripiri" pode ser uma arma de defesa contra o cancro da próstata.
Segundo o estudo, a substância picante deste vegetal provoca o suicídio das células cancerosas da próstata. Em termos científicos, os investigadores referem que a injecção de capsaicina (o alcalóide existente no piripiri) nas células cancerosas na próstata provoca a sua destruição por fragmentação.
Na experiência, levada a cabo por estes especialistas em ratos, cerca de 80 por cento das células cancerosas da próstata foram destruídas.
Segundo Soeren Lehmann, um dos autores deste estudo, "a capsaicina teve um efeito anti-proliferante profundo nas culturas de células humanas de cancro da próstata". O estudo foi publicado na revista "Cancer Research".
Recorde-se que, anualmente, cerca de 680 mil homens contraem cancro da próstata, em todo o mundo.
Fonte: aqui

A vida e o ministério Petrino de João XXIII

Um pontificado providencial para a Igreja
O estudioso monsenhor Battista Angelo Pansa, pároco da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, falou sobre Papa Roncalli ontem, 24, durante o segundo briefing da canonização.

João XXIII viveu uma abençoada e contente pobreza desde sua infância e foi mestre na arte do diálogo e do encontro. Nasceu em 1881, em uma família patriarcal, quarto filho de treze irmãos. Adquiriu experiência como jovem sacerdote ao lado do bispo Bergamo Raini Tedeschi, com quem aprendeu a dialogar com todos.

Quando era jovem seminarista, Roncalli dizia aos pais que queria se tornar padre “não por comodidade ou para ter dinheiro, mas para fazer o bem às pessoas pobres”, disse monsenhor Battista. Até a morte rezou a oração do Seminário Romano: “Mater mea, Fiducia Mea”.

Dentro da grande história tem também o cotidiano simples de um santo. Guido Gusso, o ajudante de quarto de Angelo Roncalli desde quando era Patriarca de Veneza, testemunhou: “Quando foi eleito Papa, todos me diziam que eu precisava me ajoelhar diante dele. O Papa, naquela tarde e noite suportou isso, mas no dia seguinte me pegou pela mão e disse: ‘Vamos fazer um pacto nós dois, você beija meu anel de manhã e me dá bom dia, beija o anel de noite e me dá boa noite, mas se precisa ajoelhar, se ajoelhe diante do Santíssimo’”.

Quando se tornou Papa escolheu o nome de João porque a Igreja de Sotto il Monte é dedicada a São João e também porque tinha uma forte ligação com a basílica romana São João de Latrão.

O pontificado de Papa Roncalli foi providencial para o tempo em que vivia a Igreja, marcado por muitos gestos particulares. No seu primeiro Natal como Papa, visitou o Hospital Santo Spirito in Sassia e o Hospital Bambino Gesù. No dia seguinte visitou a prisão de Regina Coeli. Também convocou o Concílio Vaticano II, que representou um novo Pentecostes para a Igreja sob a inspiração do Espírito Santo.

Realizou a memorável viagem de trem a Assis e Loreto em 1962. Foi a primeira vez que um Papa, após a quebra de Porta Pia e depois do fim do poder temporal dos papas, saiu em território italiano. Ele se sentia, antes de tudo, bispo e pastor da Igreja Romana.

Monsenhor Battista lembrou o empenho de João XXII com a paz. Desde a mensagem difundida através da Rádio Vaticana em 25 de outubro de 1962, para evitar a terceira guerra mundial, a “Pacem in terris”, até o comovente encontro no Vaticano com Rada Krusciov, filha do líder soviético.

Como surgiu o apelido “Papa Bom”? João XXIII estava visitando uma paróquia da periferia, San Tarcisio al Quarto Miglio, e era um período de campanha eleitoral. Na noite que antecedeu a visita, sumiram todos os cartazes eleitorais e permaneceu apenas um que tinha escrito “Viva o Papa Bom”.
Fonte: aqui

terça-feira, 22 de abril de 2014

David Cameron, acusado de "sectarismo" por decir que Reino Unido "es un país cristiano"

Escritores y científicos creen que "fomenta la división"

El primer ministro británico pidió ser "más proselitistas" para "mejorar la vida de la gente"

El primer ministro británico David Cameron fue acusado este lunes de sectarismo por afirmar en su mensaje de Pascua que el Reino Unido es "un país cristiano". Los escritores Ken Follett, Philip Pullman y Terry Pratchett y los científicos John Sulston y Harold Kroto -ambos ganadores del Nobel- son algunas de las 55 personalidades que firmaron una carta publicada en el Daily Telegraph contra las declaraciones de Cameron.
El primer ministro, anglicano, se ha manifestado sobre religión en varias ocasiones en los últimos tiempos y la semana pasada escribió un artículo en el que pedía a los cristianos que hagan más proselitismo de su fe.
Los analistas creen que está tratando de reconstruir puentes con la Iglesia, que se opuso a su ley permitiendo el matrimonio homosexual y que ha criticado reiteradamente las medidas de austeridad de su gobierno.
"Algunas personas creen que en esta época tan laica no deberíamos hablar de estas cosas. Discrepo totalmente", escribió el primer ministro conservador en el diario Church Times, un periódico anglicano.
"Creo que tendríamos que mostrarnos más seguros de nuestro estatus como país cristiano, más ambiciosos a la hora de aumentar el papel de las organizaciones religiosas, y, francamente, más proselitistas con una fe que nos pide que nos abramos y mejoremos la vida de la gente".
La carta de respuesta publicada en el Daily Telegraph fue una iniciativa de la Asociación Humanista.
El Reino Unido ya "no es un país cristiano". "Repetidos informes, sondeos y estudios nos muestran a la mayoría como individuos no cristianos", afirman los firmantes.
"Reivindicar constantemente" lo contrario "fomenta la enemistad y la división en nuestra sociedad", dice la carta.
En el censo de 2011 el 59,3% de los ingleses y los galeses se identificaron como cristianos, por 71,7% diez años antes.
El 25,1% dijeron no tener religión, por 14,8% en 2001.
Fonte: aqui

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Como fruto da Páscoa…


Ressuscitou como disse, Aleluia!
Se conhecesses o dom de Deus…

 

Na tarde daquele primeiro dia da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam refugiados com medo dos judeus, Jesus veio colocar-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19).

Com efeito, o grão introduzido no ventre da terra inerte aquando da sementeira a que procederam os semeadores desolados e esperançosos – João, o discípulo amado; Maria, mãe de Jesus; as mulheres, discípulas persistentes em volta da mãe de Jesus; e José de Arimateia, o discípulo oculto – rebentou a crosta da mesma terra em frutos típicos da Páscoa. E o primeiro dos frutos é a “paz”, não a paz podre do mundo, que periga a cada hora que passa, nem a paz morta do túmulo para onde Pôncio Pilatos remetera Aquele que se afirmara “Rei”, Filho do Altíssimo e Mártir da Verdade, mas aquela paz com que Jesus saudou os discípulos, agora seus amigos, porque, não obstante o medo inicial de quem fica desolado como o sino sem badalo, farão tudo quanto lhes mandou.

Porém a Páscoa não acontece para sossego ou preguiça dos conformados com a situação de indignidade humana. Se, como clama com toda a razão o Bispo do Porto, “o futuro pertence a quem ama e não a quem apenas pensa em si” (vd homilia da Páscoa 2014, do Bispo do Porto), temos de procurar outro fruto da Páscoa. Ele vem explícito no Evangelho de João: “Assim como o pai me enviou, também eu vos envio a vós” (Jo 20,20). Aqui temos exatamente um dos frutos da Páscoa, o dinamismo apostólico: é preciso ir a todo o lado ensinar o Evangelho, para que o futuro deixe de ser o da indiferença e do egoísmo e passe a ser o do amor, do amor que se doa a quem dele mais necessita.  

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O apostolado não era possível sem a inculcação da consciência certa da Ressurreição no coração dos apóstolos. Mas para isso era necessário erradicar do colégio apostólico o medo e a desolação. E outro fruto da Páscoa se divisa: “Mostrou-lhes as mãos e o lado, e os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor” (Jo 20,20). Já sem a tristeza, já sem o medo, implantou-se-lhes no ânimo um outro fruto da Páscoa: a alegria. E esta alegria não é a pincha-no-crivo do mundo, mas a alegria profética, resultante da Palavra de Deus devidamente explicada, assumida, vivida e que urge partilhar: “Não ardia cá dentro o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? E partiram de imediato de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze” (Lc 24,32-33, episódio dos discípulos de Emaús).

É essa alegria sincera e difusiva, qual semente de apostolado que leva a uma celebração pascal com o ázimo da pureza e da verdade, pondo totalmente no lixo das velharias o fermento velho e da malícia (cf 1Cor 5,8). Cá estão mais dois frutos pascais: a pureza, à semelhança do Cristo inocente levado como ovelha ao matadouro, mas cujo balido doravante se ouvirá em todo o mundo; e a verdade, em testemunho da qual Cristo veio aos seus e os seus não O quiseram receber, mas os que são da verdade escutam voz do Mestre (cf Jo 1,11.17;18,37).

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Entretanto, “Jesus soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Não haja, pois, dúvidas de que o primeiro dom da Páscoa é o próprio Espírito Santo, o Espírito Criador, o mesmo que pairava sobre as águas (cf Gn 1,2), aquele que o Senhor insuflou nas narinas do boneco de terra (cf Gn 2,7) e de que fizera o homem, aquele mesmo que o Filho prometera aos discípulos (“O Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, é que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse” – Jo 14,26). Este Espírito Criador que falou pelos profetas é o Senhor que dá a vida, o que procede do Pai e do Filho, o que é adorado e glorificado (vd símbolo niceno-constantinoplitano). Como na anterior Criação estava o Verbo (“por Ele todas as coisas foram feitas” – id et ib), nesta Nova Criação tinha de estar o Verbo feito Carne (cf Jo 1,3), “soprou sobre eles”.

E veja-se como a lex orandi lex credendi condensou numa pequena formulação a riqueza indizível do Espírito Santo como a fonte e repositório de todos os dons divinos. A Liturgia do Sacramento da Confirmação faz com que o ministro do Sacramento diga pessoalmente a cada confirmando “Recebe por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus”. É então o Espírito Santo Deus, o Deus que efetivamente se doa, o Deus representado no sinal da cruz. Com efeito, “a cruz do Condenado converte-se em árvore florida da Páscoa” (vd homilia da Páscoa 2014, do Bispo do Porto). Mas esta árvore não é de mero adorno; revela a sua fecundidade nos frutos; e pelos seus frutos conheceremos esta árvore (cf Mt 12,33). E o fruto é pleno. Dizemos que os frutos do Espírito Santo, a quem chamamos o Sagrado Septenário, são sete, e discriminamos: sabedoria, entendimento, conselho, ciência, piedade e temor de Deus. Mas não podemos esquecer que “sete” é o número da plenitude ou da totalidade. Nesses sete dons teremos de ver todos os dons de Deus (cuja infinitude e misericórdia não podemos reduzir ao palavreado), ou o próprio Deus que Se nos dá, em forma visível, como Cristo, Verbo Incarnado; ou em forma invisível (episodicamente em forma de pomba ou em línguas de fogo), como Espírito Santo; ou ainda como Origem intangível de quem deriva toda a criatividade e paternidade, como Pai. Tanto assim é que aplicamos o número sete a outras formas de totalidade para mal ou para bem. De Maria Madalena tinham sido expulsos sete demónios (todo o espírito do mal – cf. Lc 8,2; Mc 16,9); os pecados capitais (os que dão azo aos outros) são sete – soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja, preguiça (ou seja, tudo o que atrai o homem para o mal). E aos sete pecados capitais também opomos sete virtudes, respetivamente – humildade, castidade, paciência, temperança, caridade e diligência (que significam tudo o que pode colocar o homem no caminho do bem). E enunciamos os sete sacramentos da Igreja: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Reconciliação ou Penitência, Santa Unção, Ordem e Matrimónio (os canais de comunicação da graça santificante por si mesmos, independentemente da santidade de quem os ministre, ex opere operato e não ex opere operantis). Enumeramos sete dons do Espírito Santo, como foi já referido. Dispõe a doutrina católica de sete obras de misericórdia corporais (dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos e sepultar os mortos) e sete obras de misericórdia espirituais (dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo e rogar a Deus por vivos e defuntos) – sintetizando de algum modo tudo o que somos “obrigados” a fazer em prol do semelhante. E elencamos as virtudes fundamentais em sete: Fé, Esperança e Caridade (virtudes teologais, porque nos fazem girar em torno de Deus e, por Ele, em torno do próximo) e Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança (virtudes cardeais ou humanas, porque as outras boas qualidades humanas giram em torno destas e estas colocam-nos, pelas boas obras, na rota de Deus).

É conveniente não olvidar que os mestres de Teologia Sacramental ensinavam que não só cada uma das virtudes teologais era infundida por Deus no coração (alma) do homem a quando do Batismo, mas também cada uma das virtudes cardeais. Quer dizer, o dom de Deus não pode encurralar-se em qualquer catálogo de virtudes, por mais completo que se ostente. O dom de Deus é dom de Deus e pronto!

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Ora, perante as dimensões de plenitude do mal, para que Deus nos livre dele, e do bem para que sejamos cada vez mais Homens a sério, com vida e vida em abundância, vem-me ao espírito a palavra de Ovídio, poeta latino, que entendia que aquilo que distingue o homem dos outros animais era a capacidade de andar de pé e de olhar para a frente. Porém, a Páscoa far-nos-á levantar da prostração da ignorância, do erro e do pecado (e da morte) para a verticalidade do homem sábio, probo e santo; do imóvel e enterrado no passado para o que olha para a frente e para o futuro; do agarrado ao pó da terra para o que olha para o alto, mesmo que tenha de manter os pés na terra.

Por isso, Paulo recomenda aos Colossenses:

Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo se encontra sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima, e não às que são cá da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória. (Col 3,1-4).

Que pena haver tanta gente, que se diz filha da Páscoa e se detém especada a olhar para trás sempre com o sentido do passado, não do passado que ensina o presente para iluminação do futuro, mas do passado bafiento e imobilista! Que pena tanta gente que se diz discípula da Páscoa e se entretém demasiado a olhar para os pés e não se dá ao cuidado de olhar par o alto e a ele se afeiçoar! Tantos visitantes do túmulo vazio se comprazem, saudosos das cebolas podres do Egito, a inventar fantasmas de um Cristo ainda hoje sepultado algures ou de um Cristo eventualmente casado clandestinamente com Maria Madalena (de quem ela gerara uma filha) ou, ainda, de um Cristo revolucionário utilizável como bandeira de quem nela queira pegar para fins de caráter político ou permanente filantrópico!

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Não obstante a importância do que fica escrito, não posso deixar de mencionar o que se me afigura de interesse central na frutificação pascal. O evangelista quando refere o sopro de Jesus sobre os apóstolos e lhes comunica o Espírito Santo, assinala o mandato especial ao abrigo da força do Espírito: “Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, eles serão retidos” (Jo 20,23). O perdão dos pecados é o fruto final da Páscoa. Foi para isto que Ele veio. É que sem perdão dos pecados não é possível ter vida e vida em abundância (cf Jo 10,10). Era o facto de Ele declaradamente perdoar os pecados que mais irritava os zeladores da Lei. Mas Ele teimava em perdoar “também eu não te condeno, vai em paz e não voltes a pecar” (cf Jo 8,11); “a esta muito se perdoou porque muito amou” (cf Lc 7,47); e “pois, para que saibais que o Filho do Homem tem poder sobre a terra de perdoar os pecados, disse ele então ao paralítico: levanta-te, toma o teu leito, e vai para a tua casa” (Mt 9,6).

Ressoa no dia de Páscoa o pedido lancinante de Cristo na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (cf Lc 23,34), sem o qual não seria possível a Páscoa Plena, e o qual seria inútil se não fora o ato da Ressurreição.

Veja-se qual é o fulcro da resposta de Pedro à multidão que, impressionada pelo discurso intrépido do apóstolo, já cheio da força do Espírito Santo do Pentecostes, que irrompeu no Cenáculo: “Arrependei-vos, e batize-se cada um de vós em nome de Jesus Cristo, em ordem à remissão dos seus pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Act 2,38). E o tema perpassa o discurso do mesmo apóstolo no discurso em casa de Cornélio, que alarga ao mundo não judeu o desígnio da salvação: “Ele mandou-nos pregar ao povo e atestar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É dele que todos os profetas dão este testemunho: quem quer que nele acredite, recebe pelo Seu nome, a remissão dos pecados (Act 10,42-43).

Ora todos aceitam que a Igreja não será Igreja se deixar de ser a comunidade do perdão, já que o pecado impede a comunhão com Deus e prejudica a “comunhão dos santos” (vd símbolo dos apóstolos). Mas não sei ao longo da História se terá entendido bem essa de os pecados “serem retidos”. Poderá efetivamente o perdão dos pecados ser recusado, como uso de poder ou como castigo de estilo de vida? Não deverá, antes, o “mediador” humano (porque o verdadeiro mediador é único, o Cristo) agendar convictamente a não desistência de recuperar o pecador que se mostre impenitente? Em vez de juiz sobre o pecado, deverá preferencialmente fazer-se promotor de arrependimento, mesmo que tenha havido reincidência (“Perdoar não até sete vezes, mas cada um perdoar a cada um setenta vezes sete”). O próprio Cristo no caminho do Calvário terá caído por três vezes. É fraqueza humana e a dinâmica do Evangelho do Reino que o postulam: Se o irmão te ofender, reprende-o a sós; se não te ouvir, repreende-o diante de testemunhas; se não vos ouvir, comunica-o à Igreja; e se ela também não for ouvida, considera-o como um pagão ou um publicano (cf Mt 18,15-17). Aqui está o busílis. Considerar o irmão como publicano ou estrangeiro não pode significar desprezo ou mandá-lo para o inferno, mas colocá-lo como tema prioritário na agenda da recuperação. É este o furor dos santos!

É preciso que os homens e mulheres da Páscoa deixem, de vez, de agitar o lixo dos óbices à Páscoa e os seres apegados à mundanidade deixem de chafurdar na lama do vício e de escavar a exploração do homem pelo homem. E talvez a Igreja dos homens tenha de abandonar o estilo de se entreter com excomunhões, impedimentos e denegação de perdões e encarrilar pelo desígnio de Deus. É preciso que a Páscoa se cumpra pela paz, com alegria, pureza e verdade, pela missão apostólica criadora que, na força do Espírito Santo, consiga o perdão de todos os pecados de todos.

Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo

2014.04.20

Louro de Carvalho

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A DIFERENÇA ENTRE O ORIGINAL E A CÓPIA

Um jovem noviço chegou ao mosteiro e deram-lhe a tarefa de ajudar os outros monges a transcrever os antigos cânones e regras da Igreja. Ele ficou surpreendido ao ver que os monges faziam o seu trabalho a partir de cópias e não dos manuscritos originais.
Foi falar com o abade e explicou que, se alguém cometesse um erro na primeira cópia, esse erro propagar-se-ia em todas as cópias posteriores. O abade respondeu-lhe ...que há séculos copiavam da cópia anterior, mas que achava bem relevante a observação do noviço.
Na manhã seguinte, o abade desceu até as profundezas da caverna na cave do mosteiro, onde eram conservados os manuscritos e pergaminhos originais, que não eram manuseados há muitos séculos.
Passou-se a manhã, a tarde e depois a noite, sem que o abade desse sinais de vida.
Preocupado, o jovem noviço decidiu descer e ver o que tinha acontecido.. Encontrou o abade completamente descontrolado, com as vestes rasgadas, a bater com a cabeça ensanguentada nos veneráveis muros do mosteiro.
Espantado, o jovem monge perguntou:

- Abade, o que aconteceu?
- Aaaaaaaahhhhhhhhhh!!! CARIDADE...CARIDADE!!! Eram votos de "CARIDADE" que tínhamos de fazer. E não de "CASTIDADE"!!!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O que se entende por pessoa humana?


A grande questão antropológica

“Que é o homem”? É a interrogação que o salmista, interpretando o íntimo da alma humana, dirige a Deus na humilde convicção da sua complexidade (vd Sl. 8, 4-5). E, abismado na contemplação do Universo, o mesmo salmista responde: “Fizeste-o pouco menos que um anjo, coroaste-o de glória e esplendor, deste-lhe poder sobre a obra das tuas mãos” (vd Id. 6-7).

Acerca do homem há inúmeras opiniões de quem pensa e sente, todas extremamente importantes pelas suas consideráveis consequências, teóricas e práticas, sintetizadas em duas. Por umas, como observa o Concílio Vaticano II, o homem eleva-se até se considerar norma absoluta de vida; por outras, se abaixa até à angústia e ao desespero.


Para um conceito de homem, de pessoa, de pessoa humana

Etimologicamente “homem” provém do termo latino homo, hominis (o nascido da terra, o terrestre, o habitante da Terra: em oposição a bestia ou fera), relacionado com humus, i (us) – terra fértil, contraposto a siccum (terra árida, que não tem a potencialidade da humidade dada pelo “sopro” do espírito). Atente-se nos vocábulos inumar (enterrar) e exumar (desenterrar).

Da mesma família são humidus, a, um (molhado, parecido com húmus) humiditas, atis (humidade, com água, símbolo da vida e biblicamente do “espírito”), humor, oris (humor, elemento líquido), humanitas, atis (natureza humana, caraterística do homem), humanus, a, um (próprio do homem), humilis, e (humilde, com os pés na terra) e humilitas, atis (caraterística de quem está perto da terra, pouca elevação) e humiliare (humilhar, baixar à terra). São termos que remetem para a narrativa bíblica javista da criação do homem: fez um boneco (no hebraico, ish, ser já existente) de barro (no hebraico, adam, vermelho, cor do barro), soprou-lhe nas narinas e ele surgiu com vida (cf Gn 2,7). E este ish animado (a criatura: homo, humus) contrapõe-se a Deus (o criador) e a ishah, o ser animado tirado do ish; este ser vivo (ish e ishah), diferente da bestia ou da fera, opõe-se a ser não vivo, ser morto.


Percurso análogo do lado do grego poderá fazê-lo quem tiver conhecimento bastante da língua.

No entanto, atente-se na palavra άνθρωπος (ánthropos, “homem”) – segundo alguns, composto de ανθος (anthos, “flor”) + ‘ρωψ (róps, moita). Cá topamos o caráter telúrico do ser humano, como a fina flor (o mais visível) da flora e fauna criadas. E, se lhe associarmos o vocábulo tρoφη (trofê, engrossamento, criação, nutrição), tanto melhor para aferir da robustez deste ser criado como cume ou coroa visível da criação.
Segundo outros, ανθρωπος (anthropos) significa ser humano, isto é, com cara de homem, e provém de ανερ (aner: homem, marido, noivo, adulto, qualquer homem, grupo de homens e/ou mulheres) + οψις (opsis: semblante, rosto, cara).



Entretanto, os homens fixaram-se no que era visível, o vulto. E os atores gregos e, depois, os romanos, para se fazerem notar e ouvir, usavam a máscara e os coturnos. Assim, o nome feminino do português “pessoa” provém etimologicamente da palavra latina “persona” (per + sonare, soar através de), que, tal como o termo grego “prósopon”, significava máscara.

No uso corrente, passou a significar, por sinédoque, o que estava por dentro da máscara: indivíduo, considerado em si mesmo, homem ou mulher, ser humano. Quando se indica a entidade que em drama e narrativa faz de pessoa, diz-se “personagem” (persona + agem); quando se quer afirmar que o indivíduo se comporta como tal, como verdadeiro ser humano, diz-se que tem personalidade; e temos a “personificação” e a “prosopopeia” como recurso estilístico.
Apesar de “pessoa” derivar de “persona”, esta palavra latina não comportava, em seu uso primitivo, tal sentido que atribuímos atualmente à noção de pessoa. Uns afirmam que a palavra “persona” foi originariamente estabelecida em latim, por uma derivação gramatical afixal do prefixo per, proveniente da preposição per e do nome caído em desuso sona ou zona, cintura, círculo, capa, cobertura, armadura (per+sona) – e, depois, som, fala. Outros defendem que derivara do verbo “personare”, da sua forma verbal de gerúndio “personando”. Outros, ainda, a fazem resultar da expressão per se una, enquanto designa res una per se. Tanto num caso como no outro, a palavra “persona” serviu para significar o mesmo que a palavra grega prósopon: máscara e personagem.
Mas,
persona veio a significar máscara e personagem, não por traduzir gramatical e semanticamente para o latim a aceção original da palavra grega “prósopon” (máscara), mas por significar e nomear o ato ou efeito de o ator, mediante uma abertura na máscara em torno da boca, representar, pelo som [per+sona] de sua voz e pela postura ante o espectador, uma personagem.
Remonta o uso e significado da palavra ao poeta grego Homero [850 a.C], em sua célebre epopeia, a Odisseia (18, 192). Há quem aponte uma certa relação entre a palavra etrusca “persu”, que significava máscara, já encontrada escrita num monumento da antiguidade clássica, com a palavra grega “prósopon”.
Segundo outros, προσωπον (prosopon) significa face, fronte da cabeça humana, semblante; e provém de προς (pros: em benefício de, em, perto, por, para, em direção a, com, com respeito a) + οψις (opsis: visão, vista, face, semblante, aparência, expressão, aspeto, rosto com a visão que exprime pensamentos e sentimentos, circunstâncias externas).


***

O conceito de homem mais rico e mais adequado é o de pessoa, um conceito do domínio do pensamento católico e, em especial da doutrina social da Igreja. Na aceção transcendente e grandíloqua em que hoje o tomamos, é conceito que a antiguidade clássica ignorava, não obstante a precisão de certas fórmulas usuais no direito romano. A pessoa era então somente considerada no plano da cidadania (“civis” e “civitas”, em Roma; “politês” e “pólis”, na Grécia) e, se Sófocles e alguns outros, já adotavam valores perpétuos e mesmo eternos que podiam jogar contra o poder político, as suas não passavam de vozes isoladas. Como geralmente se reconhece, a noção atual de pessoa nasce e consolida-se no mundo cristão, difundindo-se pouco a pouco na cultura moderna e contemporânea, precisamente por influência do cristianismo antigo e medieval.

Efetivamente, o aprofundamento metafísico deste conceito deve-se seguramente aos filósofos e teólogos cristãos da Idade Média, na sequência do intenso, penoso e lento labor intelectual provocado pelas controvérsias trinitárias e cristológicas nos primeiros séculos da era cristã. A célebre definição de Boécio (século VI) de “substância individual de natureza racional” (naturae rationalis individua substancia), longamente refletida e examinada nos séculos seguintes até se chegar à de Tomás de Aquino, não menos profunda de “o que subsiste em natureza racional” (subsistens in rationali natura) satisfaz a noção de pessoa.

Ao dizer-se “subsistente”, considera-se que a pessoa existe em si e por si, ou, de outro modo, que existe sob a forma mais densa e elevada da existência sem dependência necessária de outrem; e ao enunciar “em natureza racional”, diz-se que existe sobre a forma de consciência e liberdade interiores, com a capacidade de se refletir a si mesma e de estar aberta ao mundo dos outros seres e dos valores axiológicos. Por isso, São Tomás acrescenta que “a pessoa significa o que há de mais perfeito em toda a natureza” e que a sua “dignidade lhe advém do facto de subsistir numa natureza racional”.

Em conformidade com o exposto, deduz-se que a dignidade da pessoa resulta do “ser” (esse), ou seja, da eminente perfeição em que Deus a constituiu, e não só do existir (exsistere), muito menos apenas do ter (hebere, tenere) ou do operar (operari). Um homem, embora socialmente pequeno, frágil ou mesmo inútil, é sempre imensamente digno por si. Nunca ninguém está a mais ou é supérfluo; nunca nenhuma pessoa pode ser tratada como coisa que se usa e, depois de servir, se deita fora. A pessoa é única, original e irrepetível. Como diz o Papa Francisco na Lumen Fidei, a atenção e o cuidado, o exemplo e a experiência são exigências para os cristãos. “Para Deus não somos números; somos importantes, antes somos o que Ele tem de mais importante; apesar de pecadores, somos aquilo que Lhe está mais a peito”.

A dignidade pessoal é o bem mais precioso que o homem tem, graças ao qual transcende em valor todo o mundo material. A pergunta reflexiva do Mestre: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder a sua alma?” (Mc. 8, 36) postula a afirmação antropológica axiológica tão luminosa como estimulante: o homem vale por aquilo que “é” e não por aquilo que “tem”, ainda que possua o mundo inteiro e seus reinos. Não são os bens do mundo (de que os homens precisam para viver e de que lhes é lícito lançar mão, mas sem abuso nem à custa de tudo e de todos) que contam, mas o bem da pessoa, “o bem que é a própria pessoa”.


Os mundos do homem

A que mundo ou mundos pertence o homem? O salmista assume que o homem é obra de Deus (fizeste-o): é criatura (mundo criado) – menor que um anjo (mundo espiritual); com poder sobre a visível obra (de glória e esplendor) do Criador (mundo material). Situado como ponte (ou pontífice) entre os dois mundos – espiritual e material – o homem é, simultaneamente, espiritual e corporal. Mas o reconhecimento desta dupla realidade não pode lançar-nos na errática antinomia entre a alma e o corpo, cada qual agindo por seu lado, dicotomicamente. O homem não é alma a que se adiciona o corpo; é a unidade de corpo e alma (corpore et anima unus), na precisa expressão da Gaudium et Spes (GS), Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual (n.º 14).

Tal é, desde o início, a posição cristã, assinalada, entre outros, por Justino, cerca do ano 100, segundo o qual a alma, por si só, não é o homem; é apenas a alma do homem (sem o corpo, não temos homem, pessoa, mas antepassado). E o corpo, por si só, não é o homem; é apenas o corpo do homem (sem alma, não temos homem, mas cadáver). Logo, nenhum destes elementos, por si só, é o homem, mas chama-se “homem” ou “pessoa” ao conjunto de ambos. E, se Deus chamou o homem à vida e ressurreição, não chamou uma parte dele, mas o todo, isto é, a alma e o corpo» (vd A Ressurreição, 8). Por isso, alma e corpo permanecem tão indissociavelmente conexos que não existe no homem nada de exclusivamente espiritual ou de exclusivamente corporal, mas uma “interexistência pneumossomática” e uma interação psicossomática. Como o entendiam os hagiógrafos bíblicos, o corpo é a expressão substancial da alma, é a alma vista de fora, o “eu” na sua forma sensível, empírica, manifestada – dir-se-ia hoje, a sua narração “fenoménica”.

Tudo o que vimos afirmando remete-nos para a extrema complexidade e completude do ser humano e o seu vulto quase paradoxal. O homem é criatura, como se afirmou, mas encontra-se na fronteira entre as criaturas espirituais (as coisas invisíveis) e as criaturas corporais (as coisas invisíveis) – vd símbolo (credo) niceno-constantinopolitano. Não sendo anjo nem simples animal, tem algo de um e de outro, constituindo-se em microcosmos. Através do corpo, atravessa o tempo e o espaço, sujeito à natureza material, comum aos reinos animal, vegetal e mineral. Pelo espírito, ultrapassa e transcende o tempo e o espaço, tem a capacidade de emergir da natureza material, de se elevar acima dela, de se lhe impor e até de se lhe opor, contrariando ou negando as suas provocações e os seus determinismos, expressos nas leis físicas, fisiológicas e biológicas. “Tal é o conhecimento profundo que ele alcança quando reentra no seu interior, onde Deus, que perscruta os corações, o espera e onde ele, sob o olhar do Senhor, decide da sua própria sorte” (GS 14).

Conforme se olhe o homem do lado do corpo ou do lado do espírito, sem jamais se contradizer a sua unidade essencial, se percebe a distinção que J. Maritain, na esteira da filosofia escolástica, estabelece entre pessoa e indivíduo. “Enquanto indivíduo – escreve o filósofo – cada um de nós é fragmento de uma espécie, uma parte deste universo, um ponto singular do imenso encadeamento de forças e de influências, cósmicas, étnicas, históricas, cujas leis impendem sobre si; está submetido ao determinismo do mundo físico. Mas cada um de nós é também pessoa, e, como pessoa, não se encontra sob o domínio dos astros, subsiste inteiramente da própria subsistência da alma espiritual, e esta é nele um princípio de unidade criadora, de independência e de liberdade» (in Para una Filosofia de La Persona Humana, 1939, p. 149).

A partir deste princípio de unidade criadora, de independência e de liberdade – capaz da relação com o criador e com as demais criaturas, em especial com os seus semelhantes, ou seja, o ser em relação – o homem é, com a mais singular peculiaridade, imagem e semelhança de Deus (cf Gn 1,26-27). Mas não é somente imagem do Deus-Espírito, mas do próprio Filho de Deus. Segundo São Francisco de Assis, formando o corpo do homem – e o texto não se limita a Adão do Génesis, mas vale para cada pessoa – Deus tinha diante dos olhos a forma humana de seu Unigénito. Daqui a incomparável dignidade do corpo, dom de Deus dado a nós (Rnb 23,8). Somos filhos no Filho e pelo Filho (cf Ef 1,5)

As criaturas não racionais são pegadas ou vestígios de Deus, porque têm n’Ele a sua génese (cf Gn 1,1-25). Porém, o homem é mais: é sinete de Deus, seu reflexo especular, pois, sendo espírito, Deus o exornou com uma alma espiritual. Pelo espírito, o homem apreende-se no seu “eu” e apreende o Universo, que transcende; conhece-se como centro de atribuição e princípio unificador das suas múltiplas experiências e, simultaneamente, como identidade que lhe permite afirmar-se como distinto de um outro e com ele relacionado, mas nunca se reduzindo ao ser de um outro; determina-se por si e torna-se protagonista dos seus sucessos e dos seus fracassos; move-se em função, não de meras necessidades instintivas ou pontuais, mas de valores axiológicos, e, sendo um em si, quebra as raias da sua solidão para se doar a outrem; enfim, pelo espírito, consciencializa-se de que não existe por força do acaso, de que pertence a uma ordem pré-existente e irremovível, de que é dádiva do amor de Deus e de que, enfim, a vida só ganha sentido no diálogo de comunhão com Deus, diálogo a que o homem é chamado desde o começo da sua existência. É assim que o ensina o Concílio Vaticano II:

A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador (GS 19).


E a dimensão social e relacional do homem é acentuada pelo mesmo concílio:

Deus, porém, não criou o homem sozinho: desde o princípio criou-os ‘varão e mulher’ (Gn 1,27); e a sua união constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. Pois o homem, por sua própria natureza, é um ser social, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros. (vd GS 12).


Tal dimensão é assumida claramente por Bento XVI: “nós não vivemos uns ao lado dos outros por acaso; estamos percorrendo, todos, um mesmo caminho como homens e, por isso, como irmãos e irmãs” (vd Mensagem para Dia Mundial da Paz de 2008, 6).


Porque se diz “pessoa humana” e não somente “pessoa”

Estaremos simplesmente ante um pleonasmo como tantos outros? Alguns puristas da linguagem condenam a expressão aparentemente pleonástica contrapondo que pessoas são pessoas, não se dando o caso de haver pessoas asininas caninas ou suínas e assim por diante.

No entanto, atente-se em que o conceito de pessoa que nesta reflexão se desenvolveu é do âmbito filosófico-teológico. Todavia, há que reconhecer que existem as pessoas jurídicas, enquanto sujeitos de direitos e deveres, independentemente da sua índole. Temos as pessoas coletivas territoriais, como o Estado, as regiões autónomas, as autarquias locais, as áreas metropolitanas, as comunidades intermunicipais, os institutos públicos ou privados, as fundações, os estabelecimentos de educação, de saúde e outros (considerados singularmente quer em agrupamento); os entes morais, como cabidos, fábricas de Igreja paroquial, as mitras, seminários, conventos; as sociedades comerciais, como sociedades anónimas, sociedades por quotas, sociedades em comandita, as sociedades unipessoais; as cooperativas; e as associações.

Por outro lado, temos as pessoas físicas, quando consideradas na sua “fisicidade”, como a catedral, a basílica, o homem, etc. E temos as pessoas divinas: o Pai, o filho e o Espírito Santo, a pessoa de Cristo (Deus e Homem). Tínhamos os deuses e deusas e os heróis das mitologias.

Na obra de nossos escritores há dezenas de exemplos em que o adjetivo humano” contrapõe o simples homem a outros tipos de pessoas. No século XVI, por exemplo, na obra de Camões, surgem as pessoas humanas como pessoas deificadas, enquanto os deuses aparecem humanizados. Camilo Castelo Branco, em pleno século XIX, respeita a adoração de um jovem enamorado, para o qual a noiva é uma pessoa divina, prometendo que não vai pô-la em confronto com os lapsos das pessoas humanas. No século XX, Saramago, em A Caverna, afirma “que nem tudo se encontra resolvido na relação entre as pessoas humanas e as pessoas caninas”.

Deve ter sido algum motivo subtil, e não um afrouxamento estilístico, que terá levado alguns escritores, sobretudo brasileiros, a empregarem também  a expressão pessoa humana no sentido genérico. Por exemplo, Machado de Assis escreve: “os romancistas … se presumem grandes analistas da pessoa humana”; “cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana”. Em Lima Barreto, lemos: “estávamos diante da mais terrível associação de males que uma pessoa humana pode reunir”; “há um cristal de pureza inalterável como núcleo eterno da pessoa humana”. Rui Barbosa refere: “Aí não há senão a altitude da pessoa humana, do mérito individual na solitária sublimidade do seu poder”. Drummond de Andrade esclarece: “na pessoa humana vamos redescobrir aquele lugar”. Para Nelson Rodrigues “Stalin e Hitler se juntaram contra a pessoa humana”. É óbvio que estes dois famigerados líderes não deixaram de ser pessoas, mas havia que os distinguir daquelas que merecem o designativo de humanas em contraponto à prática desumana e aviltante de tantos.

Por isso, para que não restem dúvidas, os documentos orientadores das relações humanas e estruturantes das boas práticas, porque estribados na sólida doutrina filosófica, teológica, jurídica e antropológica, adotam o designativo de pessoa humana. Assim, no preâmbulo da Declaração dos Direitos do Homem, onde se lê, em português, “na dignidade e no valor da pessoa humana“, lê-se human person no Inglês, personne humaine no Francês, persona humana no Espanhol e persona umana no Italiano (que infelizmente desfigurou sua herança latina ao eliminar o H inicial…). Porque será que ela aparece também no texto das constituições, no título de milhares de livros filosóficos, jurídicos ou religiosos, nas mensagens do Vaticano, nos documentos da UNESCO e da ONU?

O fator determinante para o acréscimo do adjetivo com valor restritivo é por certo a elasticidade cada vez maior do conceito de pessoa. Os estudos sobre a inteligência e a psicologia de alguns animais como os golfinhos, levaram alguns cientistas e taxinomistas a classificá-los como pessoas não humanas, enquanto grupos coevos de filosofia e de ética tendem a classificar os recém-nascidos, os doentes mentais e os anciãos desvalidos de humanos que não pessoas (e como tais sofrem a eutanásia da negligência ou são corridos dos benefícios da saúde, se mais caros, ou da proteção social) — o que rejeito em absoluto, mas deixam a claro que uma coisa não pressupõe necessariamente a outra.

***

Mas nós falávamos do homem, a pessoa (que também é indivíduo – físico e imaterial). E este é portador de uma vida a que tem direito sagrado, visto que, logo a partir da sua génese, manifesta a intervenção da ação criadora de Deus, exercida, a cada momento em relação a cada nascituro, pela inculcação imediata da alma, como recorda Jerónimo “quotidie Deus fabricat animas” (Contra Ioan. Hieros., 22); peregrino na carne que o próprio Verbo feito Carne dignificou; ontologicamente predestinado à glorificação de Deus; ferido pelo pecado, mas resgatado pelo sangue de Jesus Cristo, de tal modo que, segundo a prece da Liturgia Pascal, se reza “que todos os homens elevados pela fé à dignidade de povo escolhido, se tornem em Cristo nova criação pela graça do vosso Espírito”; solidário com toda a Criação, da qual é como que um resumo (microcosmos), mas encarregado de prosseguir nela, transformando-a, a obra do Criador; filho de Deus e herdeiro com Cristo das riquezas do Pai, de cuja vida se pode e deve tornar participante – o homem, qualquer homem – é de uma grandeza perfeitamente sem paralelo. Efetivamente, se Deus o criou em estado admirável, depois do pecado o recriou em estado ainda mais admirável. (cf Rm 8,18-22; 1Cor 15,45-48; 2Cor 5,17; Tg 1,18; Ap 21,1-5). É o que, segundo o prólogo do 4.º Evangelho, o Verbo veio fazer, quando veio para o que era seu, o mesmo Verbo por quem tudo começou a existir (cf Jo 1,1-18)

Daqui, entre o mais, que os diversos caminhos do mundo, como querem João Paulo II, Bento XVI e Francisco, sejam os caminhos da Igreja, e hajam sempre de ser os do homem. Ou que o homem, sobretudo o das periferias existenciais, seja o caminho da Igreja.

E isto é tão fundamental que todos devemos saudar, com sincero regozijo, o facto de “os homens de hoje se tornarem cada dia mais conscientes da sua dignidade de pessoa humana”. E a palavra de Francisco ao fórum de Davos é clara:

O homem, criado à imagem e semelhança de Deus, deve ser o centro das atenções do mundo político e do mundo económico, que devem estar a serviço desse homem, trabalhando para a sua promoção e propiciando o bem comum.

2014.04.11

Louro de Carvalho