segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Mercedes recebe aval para testes de condução autónoma na Califórnia

 
A Mercedes recebeu licença correspondente ao «Senate Bill n.º 1298» que lhe permite testar veículos, em modo de condução autónoma, nas estradas da Califórnia. As diferenças para a Alemanha (onde já realiza testes) ainda são significativas, como: estradas mais largas, com seis ou oito faixas; os semáforos instalados no lado oposto; existem numerosos cenários de junção de vias e a denominada paragem de quatro vias (em que o primeiro a chegar ao cruzamento pode avançar primeiro.

A Mercedes já «reside» em Silicon Valley há quase 20 anos e, agora, vê as possibilidades de investigação nos EUA expandirem. «Na Alemanha, demonstrámos no circuito Bertha-Benz, em agosto de 2013, que a condução autónoma é tecnicamente possível no tráfego urbano e rural complexo. Com os testes na Califórnia estamos agora a alargar os horizontes dos nossos veículos de investigação programando-os também de acordo com os regulamentos de trânsito americanos», referiu Prof. Dr. Thomas Weber, membro do quadro de gestão da Daimler AG.

In A Bola

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

“No tempo em que não se olhava a despesas para adorar Deus”



É o título de uma local do jornal Público, de 24 de setembro, com a chancela de Catarina Moura, e tem a ver com as “cinco peças mais importantes da ourivesaria religiosa portuguesa do século XVIII” que se reúnem no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, depois de investigações sobre a sua história. E a colunista sublinha que “uma delas saiu pela primeira vez dos Açores entre protestos”. O conteúdo da informação vem naturalmente replicado noutros órgãos da comunicação social.
Com efeito, o MNAA organizou a exposição Splendor et Gloria: Cinco Joias Setecentistas de Exceção, que, inaugurada a 24 de setembro, se manterá até ao próximo dia 4 de janeiro. São cinco peças de ourivesaria, quatro delas de arte sacra e a última também de feição religiosa, que não sacra: a Custódia da Bemposta (MNAA), a Custódia da Sé Patriarcal (Sé de Lisboa), o Resplendor do Senhor dos Passos da Graça (Convento da Graça, Lisboa), o Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres (Convento da Esperança, Ponta Delgada) e o Hábito Grande das Três Ordens Militares (insígnia régia guardada hoje pelo Palácio da Ajuda, em Lisboa).
Apesar de se tratar de uma exposição pequena, o seu interesse, segundo as palavras do comissário da exposição e diretor do MNAA, António Filipe Pimentel, reúne “as mais importantes peças de ourivesaria produzidas em Portugal” na segunda metade do século XVIII. Por outro lado, é a oportunidade inédita de conhecer as conclusões da investigação sobre o modo de funcionamento da produção destas peças e ver peças que nunca tinham sido expostas, mas que agora serão contempladas pelos visitantes numa sala especial em que, ao contrário do aforismo, “tudo o que reluz é ouro, prata dourada, diamantes, rubis, safiras, esmeraldas”.
Ainda, de acordo com a informação do mencionado comissário, estaremos perante uma “exposição zoom” ou “exposição laboratório”, já que esta peças se iluminam-se “entre si e são suficientes para explicar o processo” de conceção de um espécime de ourivesaria deste tipo “e os avanços científicos” que se fizeram até agora.
O comissariado da exposição editou um catálogo que explica toda a investigação desenvolvida em torno destes objetos, como compaginando a história do final do século de setecentos narrada por estas peças. Iniciou-se a investigação com o restauro da Custódia da Bemposta, no ano de 2013, e da Custódia da Patriarcal, já neste ano.
As três peças que pertencem à Igreja, conforme explica Luísa Penalva, que cocomissaria a exposição com Pimentel e Anísio Franco, não tinham estudos científicos laboratoriais e históricos associados.
Com o desenvolvimento deste trabalho, ficou perfeitamente claro que uma coisa é desenhar a peça de ourivesaria e fazê-la é outra. E Pimentel exemplifica com o caso de João Frederico Ludovice, o arquiteto do Convento de Mafra, que também seria ourives, não no sentido de ter uma oficina de ourivesaria, mas no sentido de desenhar as peças. Segundo, o comissário, a mão de Ludovice, que desenhou o Convento de Mafra, está nos desenhos originais do Resplendor do Senhor dos Passos e da Custódia da Patriarcal, a qual tem de facto a estrutura equilibrada e harmoniosa de um edifício em miniatura: “os seus alicerces trabalhados abrem espaço para as pequenas figuras simbólicas que estão no centro, como um pelicano, que bica o seu próprio peito para sangrar e alimentar os filhos”. Mas não é de sua mão o talhe da peça. A produção estava entregue a uma das oficinas que proliferavam por Lisboa. Hoje, diríamos que eram designers sem produção própria, para além de Ludovice, Joaquim Machado de Castro (escultura da Custódia da Patriarcal) e Mateus Vicente de Oliveira (Custódia da Bemposta e resplendor açoriano) – figuras de topo no desenho de ourivesaria. Todo o trabalho de projeto e execução da peça durava um tempo considerável, que podia chegar aos sete anos – o que deu azo a que se disseminassem as oficinas de ourivesaria em Lisboa, para satisfazer todas as encomendas da corte.
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Porém, o diretor do MNAA confessa que fora particularmente difícil reunir estas peças — apesar de serem apenas cinco —, porque três delas servem ainda hoje o culto: a Custódia da Patriarcal e os dois resplendores estão “ligados a imagens de grande devoção”.
De entre as cinco peças que integram a exposição em exclusivo, o ex-líbris desta dificuldade foi o resplendor açoriano. Não que isso tenha afetado as negociações com o MNAA, mas pelo facto de a imprensa regional se ter desdobrado em artigos, textos de opinião, cartas de leitores contra e a favor do empréstimo da mais valiosa peça dos tesouros do Senhor Santo Cristo — movimento liderado pela Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres e pela Congregação de Maria Imaculada, a qual tem a guarda daquele tesouro. Argumentavam com a valia do resplendor e com o facto de sair do Convento da Esperança apenas três vezes por ano e ser “parte integrante de um conjunto de culto, que não se pode sujeitar a critérios e visões estritamente técnicas” (vd Joaquim Machado, cronista do Açoriano Oriental). Também o presidente da Irmandade o classificava como “um peso na nossa fé incalculável” e invocava o facto de não estarem asseguradas as condições de segurança. E a reverenda madre superiora do Convento advogava que “o que guarda o tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres é a fé do povo açoriano” e que, por isso, a viagem até Lisboa equivaleria a deixá-lo desprotegido.
O certo é que, no final do mês de maio, se juntaram 500 pessoas num cordão humano no Santuário da Esperança, em Ponta Delgada, para se afirmarem contra a decisão do bispo de Angra, António Sousa Braga, depois de terem tomado conhecimento do anúncio que a diocese tinha feito de que o Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres ia viajar para Lisboa para uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga. E, só quatro meses depois, este resplendor saiu de facto pela primeira vez dos Açores.
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Podendo não ser este o caso da gente dos Açores, é frequente os residentes de uma localidade – considerados individualmente, em mole popular ou mesmo enquadrados por organizações representativas das instituições religiosas – oferecerem resistência à saída dos seus tesouros artísticos conexos com a religião, independentemente do valor artístico que lhes possa ser atribuído. E há boas razões históricas. Os nossos templos foram em determinadas épocas esventrados dos seus tesouros. Também hoje é recorrente o assalto e consequente danificação, destruição ou roubo de imagens, peças de ourivesaria, objetos em material caro. E as peças de museu nem sempre foram adquiridas por meios lícitos. Assim, teme-se pela segurança das peças em transferência e invoca-se a fé. Porém, muitas das vezes, a segurança é um dado adquirido, como no caso do MNAA, e a fé nem sempre é muita. E os mais aguerridos opositores são tantas vezes os que menos zelam pela segurança dos tesouros e os que menos fé demonstram em suas vidas, configurando suas atitudes mais teimosia que zelo ou fé.
Por outro lado, é esquecida uma das vertentes que levam à produção de muitas obras de arte: além do culto de dulia (veneração), a catequese. Se a fé vem ex auditu (do e pelo ouvido), ou seja, se para suscitar o ato de fé é necessária a pregação, a leitura de texto e a visualização da imagem constituem um alimento não dispensável para a fé. E o culto particular, que resulta do afeto que é concomitante com a fé, e o culto público, que manifesta a fé e a reforça comunitariamente, são facilitados com a contemplação da imagem. E, em tempo de menor alfabetização e de menores recursos disponíveis para todos, a hermenêutica do espaço sagrado, das pinturas e dos vitrais bem funcionavam como a Biblia Pauperum (a Bíblia dos Pobres), assim como compendiam períodos da história das mentalidades e das culturas. E a leitura que estas peças do património artístico e cultural não pode circunscrever-se aos utentes habituais; tem de servir de informação e formação alargada ao maior número possível de cidadãos cultos e/ou devotos.
É óbvio que, por exemplo, o São Pedro que Grão Vasco pintou não representa o rude pescador da Galileia, mas figura um papa do renascimento, majestaticamente sentado no trono renascentista como se o novo Pedro fosse o imperador do mundo ou o representante sumptuoso do Cristo “Pantocrator”. E, no quadro da adoração dos magos, algumas versões apresentam, para um deles, uma figura humana conotada com a negritude; noutras, um índio – o que só testemunha a ideia da revelação de Cristo aos gentios ou a universalidade da Salvação.
Neste contexto, é conveniente atentar naquilo que nos diz José Tolentino Mendonça, padre e poeta, que foi convidado a escrever o texto de abertura do catálogo acima referido, onde explica que estas peças sumptuosas “sussurram-nos uma prece, colocam-nos uma questão inapagável”: a “interrogação de Deus”.
Resta-me criticar o enunciado exarado em epígrafe, transcrito do citado diário. Para adorar a Deus não é preciso fazer despesas. Basta, mas é necessário, que Ele seja adorado em espírito e verdade (cf Jo 4,23.24). Porém, para facilitar o culto a Deus e para promover o ato de fé, para concretizar a evangelização, celebrar comunitariamente Fé e a Vida e para disponibilizar meios para que a Igreja esteja em saída para socorro de quem mais precisa, é bom que não se olhe a despesas. É certo que o Evangelho de Lucas testemunha de forma eloquente a compaixão do Mestre e configura o verdadeiro Evangelho dos pobres, bem como a carta de Tiago. Não obstante, Cristo não deixa de ensinar no Templo (cf Jo 7,14-25; 8,2) e de expulsar de lá os vendilhões, porque o zelo da cada do Pai O devora e a casa do Pai é casa de oração (cf Jo 3,13-17).
Não se devem criticar os reis por terem encomendado tesouros artísticos, erigido templos e promovido solenes atos de culto. Critiquem-se por terem acreditado demasiado tempo que o poder lhes advinha diretamente de Deus, sentindo-se, por isso, legitimados para dele usarem e abusarem, oprimindo os súbditos, escravizando as populações, fazendo demasiadas vezes a guerra e cerrarem os ouvidos ao clamor das gentes.
É óbvio que iniquamente muito do que fazia falta aos pobres foi canalizado para o culto e para os templos e joias religiosas, para exponenciar a imagem da magnanimidade régia. Todavia, não se pode pautar a ação da Igreja maniqueisticamente por dois princípios como se fossem antagónicos: ou o esplendor do culto ou os pobres. Tem de haver equilíbrio na distribuição dos recursos. Não se pode roubar aos pobres, aos doentes, à família, à educação para atribuir perdulariamente os recursos ao culto e aos espaços religiosos, como não se pode esvaziar a terra de sinais religiosos e manifestações de fé pessoal e pública à custa imponderada da existência de necessidades, muitas vezes a encobrir uma funda dimensão hedonística. Há valores do espírito – cultura, memória, solidariedade e transcendência – que também não podem esperar. Há valores do progresso e da civilização, da ciência, da investigação e da inovação que bem podem ajudar na resolução dos problemas da pobreza. E esta é a batalha de todos os dias (Pobres sempre os tereis, mas a Mim não me tendes sempre – cf Jo 12,8) ou, se quisermos, a mãe de todas as batalhas.
Não há, pois, um tempo em que para adorar a Deus não se olhe a despesas. Tem de haver sempre a disponibilidade para a mobilização e distribuição equitativa dos recursos e definição justa das prioridades!
2014.09.24
Louro de Carvalho

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Do sonho à frustação

Miguel Sousa Tavares, in  A Bola
Li aqui: http://portototal.blogspot.pt/

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma lição de democracia

 



Os escoceses são, sem sombra de dúvida, um povo altamente civilizado, educado e culto. As pessoas não votam por paixão, por serem deste ou daquele partido, mas porque se informam, sabem de cor as medidas propostas por cada lado; analisam-nas, pesam-nas e depois decidem. Vi independentistas e unionistas a discutir política serenamente, a saltar em conjunto, a beber na mesma mesa.
Para quem vem de um país com fronteiras estabelecidas há mil anos, que só obedece a uma etnia, a uma língua, a uma bandeira e a uma religião, como é o caso de Portugal, torna-se complicado entender dilemas identitários. A não ser que um movimento separatista cresça na Madeira, algo pouco verosímil, ou que o país inteiro se revolte contra a União Europeia, não veremos em Portugal um debate nacionalista. No entanto, sabemos que em momentos de crise como o que vivemos, são estes impulsos patrióticos que se agigantam e que nenhuma outra ideologia política consegue ser tão persuasiva e incendiária. 
Quando, há dez dias, viajei para a Escócia, estava à espera de encontrar esse tipo de fervor, hostilidade e tensão. Estava enganado.
Primeiro, porque o debate pouco se centrou no nacionalismo. Conto pelos dedos das mãos as pessoas que me disseram que iam votar pela independência por "não serem britânicas" ou "por ódio aos ingleses". Na verdade, o movimento nacionalista escocês, representado pelo Scottish Nationalist Party (SNP), de Alex Salmond, é de ideologia socialista, com algumas medidas muito aproximadas às propostas de partidos como o Bloco e Esquerda, em Portugal, ou o Die Linke, na Alemanha. Defende o Estado Social, o serviço nacional de saúde, a educação gratuita, a abolição do nuclear e tem como camada de apoio a classe operária e a juventude, frustrada com o poder político bipolarizado entre trabalhistas e conservadores, com as medidas de austeridade e a ausência de perspetivas de futuro. 
Nesse sentido, o discurso do SNP, passível de ser acusado de populista, é bastante inspirador. Entre os apoiantes da independência, encontrei muitos jovens comprometidos a defender a educação para todos, agricultores decididos a obter um pedaço de terra dos senhores feudais e desempregados confiantes de que uma Escócia independente lhes podia oferecer trabalho e prosperidade.
Segundo, porque a democracia ocupou sempre um lugar central na discussão. Aliás, uma das maiores reivindicações dos escoceses era democrática - estavam insatisfeitos por terem elegido apenas um deputado conservador e por, não obstante, serem governados pelos tories de David Cameron. A Escócia tem cinco milhões de habitantes, contra 54 milhões de ingleses, fazendo com que a balança penda sempre para os vizinhos do sul. "Quando vais para a cama com um elefante, podes ter a certeza que ele, mesmo sem querer, vai acabar por te esmagar", dizia um deputado do SNP num documentário da BBC. Este referendo era a tentativa desesperada da Escócia para escapar a esse esborrachamento - sem, pois claro, esquecer o tique egoísta que o independentismo escocês partilha com o basco e com o catalão, regiões tão ou mais ricas que as centrais, com meios suficientes para caminharem sozinhas, desdenhando a obrigação de ajudar economicamente as federações a que pertencem. 
 Finalmente, porque os escoceses são, sem sombra de dúvida, um povo altamente civilizado, educado e culto. Muitas vezes julguei que discussões em bares iam acabar ao murro, mas, mesmo sob o efeito de muitos whiskys, os ânimos serenavam. Os debates são civilizados, úteis e sumarentos. As pessoas não votam por paixão, por serem deste ou daquele partido, mas porque se informam, sabem de cor as medidas propostas por cada lado; analisam-nas, pesam-nas e depois decidem. Independentemente do resultado, estão preparadas para abraçar o futuro com o vencedor. E, mesmo na noite de todas as decisões, vi independentistas e unionistas a discutir política serenamente, a saltar em conjunto, a beber na mesma mesa. Houve, claro, quem me falasse do perigo de divisão, que olhando para os resultados vai mesmo existir: dois milhões de escoceses vão viver num regime que não escolheram. No dia decisivo, quem resolveu foram os escoceses silenciosos, os que durante a campanha não se manifestaram nas ruas, mantendo a tradicional discrição britânica. "Os mudos falaram", a frase da noite, cortesia de Alistair Darling, líder da coligação "Better Together" (Melhor Juntos). 
 Houve mais coisas que me surpreenderam: a forma respeituosa como tratam os jornalistas, apesar de todos os media britânicos, exceto o "Herald", se posicionarem contra a independência; a intensidade da campanha, com marchas constantes e acções diárias de conversas porta a porta; a aversão a extremismos e a alta criatividade artística em torno do referendo, como o "Propaganda Blues", uma canção que ouvi em Inverness que denunciava a campanha de medo perpetrada pelo "não" - alarmes de crise económica, ameaça de fuga de bancos e multinacionais para Inglaterra, transferências de depósitos, perda da libra, saída da União Europeia, imposição de fronteiras e passaportes, pagar roaming no telefonema para uma tia em Inglaterra, conduzir do lado contrário, etc. Os independentistas tiveram de lutar contra múltiplos fantasmas. 
Mas o que mais me chocou foi o sistema neofeudal em que se vive na região das Highlandsalgo difícil de conceber numa das maiores potências do mundo. Vi propriedades pertencentes a duques e a condes com áreas várias vezes superiores às de Lisboa, usadas para o recreio de milionários nas suas caçadas e pescarias, ao passo que muitos agricultores são obrigados a ter dois trabalhos para subsistir, uma vez que não conseguem adquirir mais terra. "Se Cameron não cumprir o prometido, a ocupação não está fora de hipótese", confessou-me Angus McCall, um rendeiro na província de Sutherland. 
Não obstante, não há pobreza, ou pelo menos não a pobreza que nós consideramos como tal, porque isto de ter uma casa pequena depende do tamanho da do vizinho do lado. E as desigualdades são um problema na Grã-Bretanha. Entre o posh de Londres e o N.E.D. (non-educated delinquient) dos subúrbios de Glasgow vai uma diferença colossal. As políticas de Thatcher, nos anos 80, cavaram esse fosso. Os glasgwerians não esquecem: deram a vitória ao "sim". Como Dundee, em que uma em cada quatro crianças vive na miséria. 
Para quem tem trabalhou nos últimos dois anos na Primavera Árabe e na Crimeia, para quem assiste, indiferente, à falta de debate e ideias políticas em Portugal, a minha experiência na Escócia foi uma lição democrática. Ganhou o Reino Unido, porque segurou a união do reino, e ganhou o SNP, porque lhe foi prometida muito mais autonomia. Ganhei eu porque percebi que é possível saírem todos a ganhar, não nos discursos, mas em medidas concretas. Sobram as emoções; as imagens que guardo de crianças a pintar a cara como William Wallace, de uma gaita-de-foles a soprar música e chamas e dos olhos húmidos de vários homens ao falarem da independência, homens que talvez nunca antes choraram. "Há uma brisa de utopia no ar", disse-me um deles. 
Atraídos por essa brisa, vários grupos de outras regiões separatistas europeias rumaram a Edimburgo para se inspirarem. A festa de quinta-feira à noite acabou com música basca, bandeiras catalãs, gritos de independência em sardo, corso e curdo. A saga do nacionalismo teve apenas o seu próximo episódio. A sequela está marcada para Barcelona, a 9 de Novembro. Vamos ver se Rajoy e os catalães aprenderam a lição cívica e democrática.

http://expresso.sapo.pt/uma-licao-de-democracia=f890221

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A guerra é uma LOUCURA!



A afirmação é do Papa Francisco. É uma asserção muito simples e muito crua. Lido devagar, o texto da sua homilia no santuário militar de Redipuglia, em Gorizia, no norte de Itália, faz-nos repetir em bom português que a guerra é a loucura total.
O Pontífice presidiu, a 13 de setembro, a um conjunto de cerimónias, no quadro do centenário da I Grande Guerra (que causou a morte a pelo menos nove milhões de pessoas, entre soldados e civis), no cemitério austro-húngaro de Fogliano di Redipuglia, que foi inaugurado em 1938 para servir de última morada a 100 mil italianos que tombaram no decurso daquele conflito.
A celebração começou com a visita ao cemitério (cujo pórtico tem a inscrição “unidos na vida e na morte”) para um momento de oração em frente ao monumento de homenagem aos mortos na I Guerra Mundial e uma homenagem floral e prosseguiu com a Eucaristia no santuário militar. Depois, o Papa entregou aos Ordinários Militares e aos Bispos presentes uma lâmpada da paz, proveniente do Convento de Assis, com a inscrição atribuída a São Francisco, “Onde houver trevas, que eu leve a luz”, que será acesa nas respetivas dioceses nas celebrações alusivas à I Guerra Mundial. O óleo da lâmpada, oferecido pela Associação Livre de D. Luigi Ciotti, foi extraído das oliveiras confiscadas às máfias da Sicília e da Puglia, no sul da Itália, administradas por cooperativas que aderiram ao Projeto ‘Terra Livre’.
Na homilia que proferiu depois da proclamação do Evangelho, começou o Santo Padre por fazer a composição do lugar, enaltecendo a beleza paisagística de toda aquela zona “onde homens e mulheres trabalham para o sustento da família”, “as crianças brincam e os idosos sonham”. E, por contraste, declara: A guerra é uma loucura. E justifica-se: “Enquanto Deus cuida da sua criação” e nos chama a colaborar na Sua obra criadora e providente, “a guerra destrói”.
A guerra é cruel e nefasta pelos efeitos, mas também pelo desígnio e pelo plano. Quanto aos efeitos, ela destrói sobretudo “o que Deus criou de mais belo – o ser humano” – e “transtorna tudo, mesmo os liames fraternos”. Mas a guerra é a loucura total e deliberada, porque “o seu plano de desenvolvimento é a destruição”. Mais: “quer desenvolver-se mediante a destruição”.
Na origem da guerra estão “a ganância, a intolerância e a ambição do poder”. E como capa destes motivos, que se resumem na paixão ou no impulso distorcido, surge como justificação a ideologia.
E Francisco evoca, neste contexto mortífero, o episódio de Caim, o qual, ao ser confrontado com a pergunta condenatória do Senhor, “Onde está o teu irmão?”, reage com outra pergunta, mas evasiva, “A mim que me importa? Acaso sou eu o guarda de meu irmão?” (cf Gn 4,9). É exatamente esta a resposta em forma de pergunta que os decisores da guerra e seus obreiros fazem quando se sentem interpelados pelos saques, pelas violações e, sobretudo, pelos morticínios de “idosos, crianças, mães e pais” – já que a guerra, sobretudo a guerra contemporânea, “não tem contemplação por ninguém”. E aqueles que, podendo fazer esforços por impedir a guerra ou, ao menos, o seu alastramento e não o fazem, têm à mão a mesma resposta-pergunta de Caim: “A mim que me importa? Acaso sou eu o guarda de meu irmão?”.
Sobre a entrada daquele cemitério – entende o Papa – deveria figurar a interpelação sobre a guerra “Que me importa?”, uma vez que é isto que significa a atitude da humanidade que facilmente esquece a memória e as responsabilidades da guerra: “Todas estas pessoas que aqui repousam, tinham os seus projetos, os seus sonhos…,mas as suas vidas são desprezadas”, precisamente “porque a Humanidade disse: “Que me importa?”.
É a atitude mais contrária à preconizada no Evangelho de São Mateus (cf Mt 25,31-46), como condição de entrada no Paraíso, o Reino preparado para nós desde o princípio do mundo (cf Mt 25,34): “tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos” – o faminto, o sedento, o peregrino, o enfermo, o encarcerado – “a Mim o fizestes” (Mt 25,40). Mas “tudo o que deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a Mim o deixastes de fazer” (Mt 25,45). Por isso, aos malditos os espera o fogo eterno, preparado para o demónio e seus anjos (cf Mt 25,41).
Assim, o Papa lembrou-se da obrigação que delineou para todos, na homilia da inauguração do exercício do seu ministério petrino em 19 de março de 2013:
Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.

E integra esta obrigação no complexo de toda a obrigação da igreja e seus membros:
Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!

Agora, o Bispo de Roma recorda o parâmetro evangélico que leva a concluir que “aquele que toma sobre si a guarda do irmão entrará na alegria do Senhor; e quem, ao invés, não o faz e, com as suas omissões, dizQue me importa?”, fica de fora.
Referindo-se às vítimas de todas as guerras, especifica que “aqui e noutros cemitérios estão tantas vítimas, que nós hoje recordamos”, em pranto, em dor e luto. “Também hoje as vítimas são inúmeras” – lamenta. E explica que por detrás de tudo isto estão os interesses, os planos geopolíticos, a avidez do dinheiro e do poder, a indústria das armas, que parece tão importante. E denuncia a inscrição do “Que me importa?” no coração destes “planificadores do terror”, destes “planificadores do desencontro”, destes “empresários das armas”.
***
Porém, o Pontífice frisa com solenidade, naquele santuário, o que formulou de modo informal na sua viagem de regresso da Coreia do Sul: “Também hoje, depois do segundo fracasso de uma outra guerra mundial” (verdadeiro cataclismo e hecatombe!), “talvez se possa falar de uma terceira guerra travada por partes, com crimes, massacres, destruições…”. É a guerra do petróleo, feita em nome das religiões e dos direitos! Alvitra mesmo, em nome da honestidade, a ideia de titular as manchetes dos jornais com a interrogação titulante “Que me importa?”, já que a guerra se faz de muitas maneiras e de forma muito cruel, um pouco por tudo quanto é sítio.
Recordem-se os factos, depois de 1945, a título de exemplo: guerra da Coreia (1950-1953); guerra da independência da Argélia (1954-1962); guerra do Vietname (1955-1975);  guerras da independência em Angola (1961, seguindo-se a guerra civil, desde 1975 a 1992), Moçambique (1964-1974, e guerra civil de 1977 a 1992) e Guiné-Bissau (1983-1974, seguida de vários tempos de conflito e desastre não resolvidos ainda); guerra civil da Nigéria, também conhecida como guerra civil nigeriana, guerra Nigéria-Biafra ou ainda guerra do Biafra, que durou de 6 de julho de 1967 a 13 de janeiro de 1970; guerra dos seis dias ou guerra israelo-árabe (meados de 1967), entre Israel e uma frente composta por Egito, Jordânia e Síria, com apoio de Iraque Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão; guerra do Saará ocidental (1973-1991); guerra cambojana-vietnamita ou invasão do Camboja pelo Vietname (1979-1988 ou 1989), que revelou o conflito sino-soviético; guerra das Malvinas (1982, 2 de abril a 14 de junho); guerra civil na Somália (iniciada em 1991), que envolveu a Etiópia e o leste africano; guerra civil argelina (1991-2002); as guerras do Congo (1.ª, 1996-1997; 2.ª, 1998-2003) considerada, em 2013, como a guerra mais sangrenta do mundo, ao menos em termos proporcionais.
E que dizer da invasão da Hungria e da Checoslováquia pelos tanques soviéticos durante a chamada guerra fria ou da revolução cubana e das ditaduras chilena, argentina, brasileira e grega?
Depois, vieram a guerras que envolveram poderosas forças multinacionais: a guerra Irão-Iraque, a guerra do Kuwait-Iraque, a guerra da Bósnia-Herzegovina, a guerra do Kosovo e a guerra no Afeganistão. Seguiu-se a chamada primavera árabe de efeitos perversos (de um mal surgiu outro mal), a guerra civil na Síria e o recrudescimento do conflito na Terra Santa ou do Médio Oriente. Recentemente, o conflito russo-ucraniano e a investida do Estado Islâmico, para já, no Iraque e no Curdistão. E não podemos esquecer as metodologias do avião-bomba (EUA), do carro-bomba e do homem-bomba (Iraque), o escudo humano (civis e crianças), o terrorismo ferroviário (Madrid e Londres) e a avalanche de refugiados.
Pelos vistos, a terceira guerra mundial registada no diário papal não corresponde ao plano de guerra, com diário detalhado, que o General Sir John Hackett e outros descreviam em agosto de 1985. Tratar-se-ia de uma guerra de não muito longa duração, de neutralidade difícil para algum Estado, mobilizadora de todos os meios e recursos, com o predomínio do nuclear, de consequências incalculáveis, mas que se supõe que os próprios diários de guerra seriam carcomidos pelos materiais da guerra. E o mundo voltaria a um estado de quase primitivismo.
A guerra observada com amargura dramática pelo Papa argentino é de outro cariz: por capítulos e “mina que mina”. Mata, viola, desaloja e destrói! E todos os decisores se enchem de razão. Os laureados com o Nobel da Paz (Obama e Comissão Europeia) fazem uma excelentemente triste figura de pacificadores: bloqueiam e bombardeiam em nome da paz.
“É próprio dos sábios” – clama Francisco – reconhecer os erros, sentir dor, arrepender-se, pedir perdão e chorar”. Porém, Caim, o homicida do irmão, não chorou nem podia chorar porque se lhe embotou o coração e se lhe secaram as lágrimas. A sombra de Caim, nas palavras papais, “cobre-nos hoje neste cemitério”. É a sombra que “se vê aqui” e na História que vem do ano de “1914 até aos nossos dias”. E – verifica dramaticamente o Papa – “vê-se também nos nossos dias”: Com aquele ‘Que me importa?’ que têm no coração, era forçoso que os empreendedores da guerra se contivessem, mas o seu coração empedernido perdeu a capacidade de chorar e de agir em conformidade...
Assim, “com o coração de filho, irmão e pai”, Francisco pede a todos e por todos “a conversão do coração”, passando da indiferença “ao pranto por todos os caídos no desastre inútil, por todas as vítimas da loucura da guerra, em todos os tempos”. E conclui: A Humanidade tem necessidade de chorar. Esta é a hora do pranto!
2014.09.13
Louro de Carvalho

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Aristocratas do socialismo

Há umas semanas correu nos jornais e redes sociais um estudo que notava que as pessoas bonitas ganhavam mais do que as menos agradáveis à vista. Conclui-se agora que ser de esquerda tem o mesmo efeito
A semana passada foi uma grande semana para o país. Ficámos a saber que podemos ganhar dezenas de milhar de euros anualmente sem fazer absolutamente nada. Não tema o leitor: não venho aqui vender nenhum esquema fraudulento daqueles que nos propõem rendimentos estratosféricos trabalhando duas horas a partir de casa. Nem se trata de aconselhar a dar o golpe do baú, que nesses casos pode mesmo ser muito trabalhoso contentar o dono ou a dona do baú. Não, refiro-me ao emprego dos administradores não executivos dos bancos nacionais, que Godinho de Matos tão bem descreveu na entrevista que deu ao jornal i. Como administrador não executivo do BES, entrava mudo, saía calado, não fazia ideia do que se passava no banco, não fazia perguntas (até se podia fazer, mas nunca ninguém fez e já se sabe que não é de bom tom quebrar tradições). E, por essa hercúlea tarefa, foram-lhe pagos em 2013 42.000€.
E quais são as condições de recrutamento para tão relaxante e rentável profissão? Um doutoramento? Um pós-doutoramento? Experiência em cargos de topo em organizações internacionais? Não complique, caro leitor. Para ser selecionado para administrador não executivo de uma grande empresa portuguesa – daquelas, bem entendido, que aumentam a faturação quando empregam quem tenha o ouvido dos decisores políticos – basta: a) ser de esquerda; e b) estar ligado à resistência ao regime de antes de 74.
Poderia argumentar que isto é – tal como a atual Segurança Social – uma discriminação das gerações mais novas (por exemplo eu, que nasci em 1974, não posso apresentar no meu CV a entrada 'resistência anti-fascista'), mas prefiro centrar-me nas vantagens sociais e económicas que, pelos vistos, ser de esquerda dá. Há umas semanas andou a correr nos jornais e redes sociais um estudo que notava que as pessoas bonitas ganhavam mais do que as menos agradáveis à vista. Conclui-se agora que ser de esquerda tem o mesmo efeito.
Enquanto lia a entrevista de Godinho de Matos, lembrei-me de Deborah Mitford, a penúltima Duquesa do Devonshire. Há uns anos, dois ou três, li o seu livro de memórias. Na verdade li só partes, porque esperava encontrar textos deliciosos como os produzidos nas memórias das suas irmãs Jessica (a comunista) e Diana (a amiga de Hitler), mas o talento literário (que culminou, evidentemente, em Nancy) foi desigualmente distribuído na família. Em todo o caso li que a Duquesa foi convidada para (e aceitou) fazer parte da administração de uma grande empresa. Méritos profissionais da senhora? Era mulher (e começava a parecer bem não ter empresas fastidiosamente só masculinas) e era duquesa (donde: sabia estar e conhecia imensa gente of consequence). Se calhar – digo eu – não perceber nada do negócio que ajudava a administrar até era uma mais-valia, não fosse sentir-se à vontade para se fazer saliente e colocar entraves à gestão de quem sabia.
Curioso, não é, que a ideologia igualitarista do socialismo acabe a reproduzir para os seus aficionados os benefícios que costumam estar à disposição da aristocracia de sangue nos países onde esta ainda persiste? Não, em boa verdade não é curioso, é mesmo algo intrínseco ao socialismo e que os socialistas se esforçam por manter, que a vontade de cuidar de si e dos seus não está licenciada apenas para uso da direita.
Temos os exemplos das ditaduras do proletariado – perdão, democracias populares – onde se instala uma monarquia inconstitucional: na Coreia do Norte vamos na terceira geração de boa governação da família Kim, e em Cuba Raúl sucedeu ao irmão Fidel.
Estes pormenores classistas sempre me divertiram em ideologias que pregam a igualdade acima de tudo. Depois da desagregação do URSS, andei viciada nas reportagens da Revista do Expresso onde se contavam os apartamentos espaçosos e luxuosos dos dirigentes de topo do PCUS, mais as dachas de fim de semana. Na China maoísta, as classes de origem de qualquer chinês estavam registadas e determinavam, por exemplo, quem podia frequentar a universidade. A população vivia em generalizada pobreza, mas os altos quadros do PCC viviam em casas amplas, com empregados domésticos e carros modernos. Atualmente os filhos e netos dos tais altos quadros do tempo maoísta (incluindo a neta de Mao) são os felizes possuidores de gigantescas fortunas construídas com base nas influências políticas das famílias.
O socialismo não é o comunismo, dir-me-ão. Não é. Mas está sujeito à mesma tentação: vê o partido como O Bem e recompensa segundo a proximidade ao topo. A partir daí as dinastias aristocráticas proliferam, ao mesmo tempo de sangue e políticas. E quanto à igualdade, usam aquela boa máxima inventada por George Orwell no Animal Farm: 'Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros.'
Maria João Marques, aqui

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Cursos com desemprego continuam a atrair jovens

São quase nove mil candidatos a Jornalismo, Direito e Ciências Sociais e do Comportamento, as três áreas com mais candidatos para o número de vagas.
Apesar de ser conhecido que entrando nalguns cursos a probabilidade de ir parar ao desemprego é maior, milhares de alunos continuam a ser imunes a esses alertas quando chegam ao ensino superior. Quase um quarto do total de candidatos deste ano - cerca de 8.708 jovens - escolheram como primeira opção uma das três áreas que acabaram por ser as que tiveram mais candidatos para o número de vagas, deixando 2.129 jovens de fora da sua primeira opção. O que acontece é que as três são das áreas com mais elevadas taxas de desemprego. São elas Informação e Jornalismo, Direito e Ciências Sociais e do Comportamento, que em conjunto tiveram 6.579 vagas.
Informação e Jornalismo - onde há escassas oportunidades de encontrar trabalho actualmente, com as quedas nas receitas publicitárias e nas vendas dos órgãos de comunicação social - foi a área com o maior número de candidatos para as vagas existente (1,66 candidatos por vaga), o que demonstra uma procura muito superior à oferta. Houve 1.558 candidatos para 938 vagas.
A seguir vem Direito - outra área que há anos se fala envia muitos jovens para o desemprego ou obriga ao exercício da actividade profissional noutras áreas que nada têm a ver com as leis e o mundo jurídico - onde há 1,27 candidatos por vaga, ou seja, 2.430 candidatos para 1.913 vagas. Ex-aequo aparece a área de Ciências Sociais e do Comportamento, onde se incluem cursos como Sociologia, Psicologia, etc. - que têm igualmente altas taxas de desemprego - com 4.720 candidatos para 3.728 lugares.
Há mais três áreas de estudo com uma procura dos estudantes superior à oferta de vagas, mas estas têm mais empregabilidade. Aliás, a saúde, com 7.513 alunos que se candidataram para 6.710 vagas (1,12 de rácio), é mesmo uma das áreas de futuro e com mais emprego, dado o envelhecimento da população, o aumento da esperança de vida e a aposta da medicina na prevenção.
Os restantes dois cursos onde a oferta é ainda superior são Serviços de Transporte (1,07, o que equivale a 89 alunos para 83 lugares) e Ciências Veterinárias (1,06, ou seja, 535 estudantes para 507 vagas).
Informática só preenche 22% das vagas
Em contrapartida, existem cursos que estão entre os que registam taxas de empregabilidade mais elevadas e que continuam a ter muito mais vagas do que candidatos. O caso mais óbvio é Informática, com 201 candidatos para 900 lugares, o que equivale a apenas 22% de vagas preenchidas. Isto acontece quando as empresas tecnológicas têm sido as que se têm mantido activas a contratar, mesmo no período mais negro da crise, em que só se falava em despedimentos e aumento do desemprego. A empregabilidade dos cursos ligados às novas tecnologias tem sido destacado pelas próprias universidades.
Outro caso é o de Engenharia e Técnicas Afins, com 5.503 alunos a candidatarem-se aos cursos desta área para um número de vagas bem superior de 9.022. Neste caso, as áreas mais tecnológicas estão também cotadas com altas taxas de empregabilidade. E apesar de no caso da engenharia civil as oportunidades de emprego serem mais escassas, dada a paragem na actividade de construção que se deu em Portugal com a crise, o bastonário da Ordem dos Engenheiros mostrou-se já preocupado com a redução de candidatos e defendeu que a falta de engenheiros pode comprometer o plano de infraestruturas e a internacionalização das empresas de construção. "É preocupante que uma área, que é promissora para o país e que tem sido responsável por grande parte da internacionalização da nossa economia, tenha sofrido o baque que teve, com taxas de ocupação muitíssimo abaixo do que seria expectável", disse à Lusa Carlos Matias Ramos.
Outro caso é Matemática com 440 vagas e os candidatos a ficarem-se pelos 239 (54%). Também esta é uma área habitualmente apontada como tendo elevada empregabilidade.
Fonte: aqui

El canto de cisne de Hans Küng: "Quiero morir cuando y como yo decida"

 Hans Küng, teólogo
Habrá que estar atentos al ruido y la furia que pueda desatar en el Vaticano y en los "cordones sanitarios" del ultra catolicismo conservador la publicación de lo que podría ser el último libro del teólogo católico Hans Küng (Suiza, 1928), L´Enfant Terrible de los pontificados de Wojtyla y Ratzinger. El libro acaba de aparecer en Alemania lleva por título: Gluecklich sterben? ( A saber cómo lo traducirán en España, en donde aún no he visto noticia alguna sobre su aparición. ¿ Una muerte digna ¿ o ¿ Una muerte dulce ¿ En la traducción se jugará mucho el marketing. Trotta suele editarle sus libros).
Ya en los titulares de promoción aparece el nudo y la importancia del asunto. Es la primera vez que un teólogo católico se pronuncia tan abiertamente en tema tan controvertido en ámbitos tanto creyentes, como no creyentes, como es la Eutanasia.
Hay fragmentos contundentes y, aunque con pocas páginas, el libro está llamado a ser un ariete para las reformas doctrinales que la Iglesia ha de emprender desde las claves de la misericordia y la cercanía al dolor.
"Yo, teólogo católico, quiero decidir cuándo y cómo de he morir".
Para algunos sería la prueba del algodón doctrinal en la nueva era del pontificado de Francisco, que aún no ha removido al prefecto de la Congregación para la Doctrina de la Fe, Müller, quien, por otra parte, va a introducir en la Comisión Teológica Internacional un número considerable de mujeres (podrían ser cinco), algo insólito y positivo.
Pero, según declaraba el octogenario teólogo suizo, confiado en las reformas del nuevo Papa, a la revista digital Carta Capital de Brasil : "El Papa Francisco no debería poner en riesgo algunas reformas importantes rehabilitándome o preocupándose por mi".
El viejo amigo y compañero de Benedicto XVI, habla en este libro desde la propia experiencia del dolor, así como de algunos otros rasgos de su entorno biográfico. Küng padece la enfermedad de párkinson, ya muy avanzada. Y, pese a que el deterioro es cada vez mayor, él sigue luchando. En declaraciones al semanario brasileño confesaba que ya su caligrafía es casi ilegible, y tan pequeña, que casi tiende a desaparecer. Con caminatas, natación y fisioterapia intenta frenar la pérdida de fuerza en las manos y en el resto del organismo.
El libro, una especie de canto de cisne, en un ambiente teológico plano y de pensamiento único, herencia de los últimos pontificados, según él, evoca la experiencia de su propio hermano, fallecido en 1955, tras padecer un tumor cerebral. La prolongación de su vida hizo que muriera ahogado por la saliva que entraba a sus pulmones. Y no olvida el estado de demencia de su amigo e investigador E. Jens tras un proceso de dolor intenso.
Küng introduce propuestas para el debate teológico. Es consciente que la Teología no es Magisterio, pero que ha de proponer nuevos caminos. Suena a un grito desesperado, pero también a una propuesta esperanzada ante la llegada de un nuevo ciclo a la Iglesia. (Me vengo acordando del cardenal Martini dándole vueltas a este libro. Hay profetas que nunca verán lo que propusieron, por lo que lucharon y por lo que fueron denostados)
Dejo algunas ideas expuestas en el libro y que, con certeza, levantarán ampollas, mientras que en la Iglesia se esperará la reacción de Roma. Una prueba de algodón para el Papa Francisco.
-Si la vida es un regalo de Dios, por qué no aceptar la posibilidad de devolvérselo con agradecimiento y generosidad
-Si se cree en la Vida Eterna, tal y como enseña la Iglesia, no hay por qué prorrogar innecesariamente el gozo de vivir esa eternidad, si se dan en circunstancias extremas" ( Para ello pone el ejemplo del martirio de los primeros cristianos ante las torturas . Preferían morir antes que renegar a la fe.
-El principio de la Dignidad Humana incluye la dignidad en la última etapa, la muerte. Del derecho de la vida se no deriva el deber de la vida o el deber de continuar viviendo en circunstancias extremas. Ayudar a morir es como ayudar vivir.
-No es algo que deba hacerse de forma heterónoma, sino desde la propia autonomía personal.
Küng no espera rehabilitación alguna por parte de la Conferencia Episcopal Alemana, pero sí recomienda que, al mismo tiempo que la Iglesia no debería hacer oídos sordos a este tema moral tan hondo y preocupante. Una Iglesia de misericordia no puede desatender a quienes sufren estas situaciones. Y lo hace desde la experiencia, como un canto de cisne, pero, lo más grande es que lo hace, desde la fe de la Iglesia, desde su amor a ella y en esos últimos momentos, los de las verdades supremas.
Fonte: aqui