sexta-feira, 26 de junho de 2015

Contracrítica à encíclica Laudato Si’


À pergunta d’ O Diabo, de 23 de junho, “Como comenta a encíclica papal sobre o Ambiente?”, João Tito de Morais, professor de Direito na Universidade Lusófona, responde, entre outras, com palavras como as seguintes: “… é com enorme desconforto que afirmo que este [o Papa Francisco] comete mais um trágico erro político e comunicacional”. E aduz três argumentos que parecem sensatos: não é para tratar destes assuntos que existe a Igreja (e muito menos o Papa); além de não ter autoridade em matéria científica e política, “não possui competência para se pronunciar sobre o assunto”; ainda que a tivesse, “este não é um tema que nós, católicos, sentimos urgência em ouvi-lo pronunciar”; e “porque acaba por comprometer política e mediaticamente a Igreja numa posição para a qual não há nenhuma evidência científica que a suporte”.

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Ora, apesar da aparente sensatez, a posição deste homem que ensina Direito e presumivelmente católico (nós, católicos) revela distração em relação ao ser, missão e história da Igreja.

Primeiro, a Igreja é sinal e fator da comunhão dos homens entre si, com Deus e com o mundo; testemunha da comunhão misteriosa entre Pai, Filho e Espírito Santo; instrumento da salvação oferecida a todos e a cada um; corpo de Cristo e povo de Deus. Por isso, marcada pela unidade na diversidade. Ora, se quer ser portadora de uma mensagem espiritual para os homens – e esta constitui a sua missão fundamental – tem de os conhecer e a acompanhar nos seus dramas e sofrimentos, anseios e preocupações, tal como nas alegrias e satisfações, progresso e bem-estar. Sendo assim, permito-me perguntar que temas e assuntos possam ficar fora do tratamento discursivo da Igreja e do Papa. A atitude e o discurso humanista de Terêncio “homo sum ac nil humani alienum a me puto” (sou homem: e nada do que é humano julgo estranho a mim) assumidos pela Igreja fazem-lhe dizer:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história. (GS,1).

 

Por outro lado, a gestão dos recursos da Terra, a condução política dos povos, a práxis económica e social, os fenómenos bélicos, as atitudes e comportamentos das pessoas, a não observância do preceito fundamental do destino universal dos bens, a gestão da propriedade (negligente ou avara, egoísta e despida da sua função social) e o ataque indiscriminado e injustificado à sua privacidade – tudo isto levanta problemas éticos e atropelos tanto ao código sinaítico como ao código das bem-aventuranças. Sendo assim, embora a Igreja não tenha um projeto próprio de governo, de organização social, de sistema económico ou não seja uma academia nem mesmo uma ONG, não pode deixar de intervir e pronunciar-se sobre as diversas matérias que preocupam e afligem os homens ou em que eles se põem a morderem-se e a matarem-se uns aos outros (cf Gl 5,15) – tenha ou não a sua intervenção ou pronunciamento conotação política, social ou económica, científica ou ética.

Se efetivamente a Igreja, através dos seus servidores, se coloca a pregar o Evangelho junto de populações que não dispõem de condições de vida condigna, ela não pode deixar de socorrer os doentes, de dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, de vestir os nus, de dar pousada aos peregrinos, de assistir aos enfermos e presos (vd Mt 25,34-36.37-40.42-45). Se não há água potável, deve promover a abertura de poços; se não há estruturas de saúde e de educação, deve erigir hospitais e postos sanitários e fundar escolas; e analogamente rasgar caminhos, construir pontes, construir habitações, etc. Isto, porque não se prega a estômagos vazios, não se evangeliza sem zelar pela promoção humana e social. Ademais, não basta prestar assistência pontual na falta de recursos ou em situação de catástrofe natural ou provocada pelas mãos do homem (terramoto, tufão, guerra, má experiência técnica e/ou científica, peste, epidemia, incêndio, etc.), mas, na lógica de que mais vale ensinar a pescar que dar o peixe, deve ajudar a criar estruturas e acompanhar a sua organização e seu funcionamento enquanto necessário. Tudo isto implica a mobilização de conhecimentos científicos e tecnológicos, recursos económicos e sociais, meios artesanais e técnicos, atitudes amadoras e profissionais. E, se os meios e recursos não existem ou não existem em suficiência, cabe à Igreja ajudar a inventá-los e a disponibilizá-los. Faça-se a modos de parêntesis a clarificação de que a Igreja não são exclusivamente os padres, bispos e o Papa (estes são-no em menor número); o grande número dos membros da Igreja são os leigos, os religiosos e religiosas (estes só por serem religiosos não são clérigos). Ora, admitindo que só os leigos se empenhariam nas atividades de promoção humana e social, económica e científica, cultural e artística, antropológica e política, não seria decente que o seu bispo e o seu Papa se revelassem indiferentes à sua ação e não fizessem o discurso de animação e até de orientação. Depois, política não pode confundir-se restritivamente com a política partidária enquanto projeto de conquista e manutenção do poder ou oposição sistemática a ele.

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Seria lamentável que os católicos não sentissem necessário, conveniente ou oportuno que o Papa ou os bispos falassem de temas atinentes à falta de ética da parte daqueles poucos que, mercê da ambição desmedida, se apoderam avara e hedonisticamente dos recursos da Terra, espezinhando, escravizando e explorando a seu bel-prazer os pobres, as mulheres, as crianças (a economia que mata), fazem do jogo financeiro imoral e destruidor o eixo em torno do qual gravita o poder político e o poder económico. Não creio que a maior parte dos católicos se sinta não incomodada com as situações que o Papa denuncia com clareza e firmeza. E aqui, entra o problema da ecologia, integrado no sistema da ecoeconomia. É preciso que os homens não perturbem desnecessariamente o equilíbrio dos elementos existentes na Terra, seja a nível do ar, da terra e do mar, seja a nível da água, do fogo e dos resíduos, seja ao nível das energias fósseis, das florestas, dos prados e das reservas naturais, dos minérios, rochas, espécies vegetais e animais, distribuição da população. Não digam que a dizimação de populações, as ondas de refugiados, a exploração de migrantes, as guerras, os atentados às condições climatéricas não merecem uma palavra nítida, firme e solidária da autoridade da Igreja. Ora, tal palavra só fica robustecida se vier fundada na ciência disponível.

Também é preciso anotar que a ciência não contém a explicação de tudo; precisamos de outros modos de conhecimento, designadamente a filosofia e a teologia. Também a ciência no estado atual não está chegada a soluções científicas últimas e definitivas, mas é temerário não reconhecer os esforços científicos e tecnológicos e não utilizar a ciência disponível e os recursos técnicos e tecnológicos disponibilizados ao serviço do homem e da comunidade.

Também a comunicação tem de ter em linha de conta a dimensão tipicamente humana e, nesse sentido, sem cair em automatismos e servidões psicológicas e socais, colocar ao seu serviço todos os instrumentos e meios que a inteligência humana colocou ao dispor do homem e da sociedade. Neste sentido, a Igreja e os Pontífices não deixaram nem deixam os créditos comunicacionais por mãos alheias. E o estilo do Papa Francisco tem-se revelado peculiar, quer nos momentos mais formais quer nas realizações mais coloquiais. Pena é que, por vezes, alguns dos ouvintes se fixem apalermadamente em pormenores de que possam não gostar. Mas a preocupação do Pontífice tem sido a profundidade, a clareza, a eficácia. E estas, por vezes, requerem a solenidade; outras vezes, postulam a informalidade.

Não podemos outrossim esquecer que o Papa, enquanto Chefe de Estado, tem ele, com seus serviços (e a bem da Humanidade), responsabilidades protocolares e diplomáticas (e porque não políticas?) junto dos outros Estados.

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Quanto à encíclica Laudato Si’, diga-se que o Papa parte da atitude franciscana de contemplação da Natureza enquanto criatura de Deus e espelho da glória e ternura do Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor e induz a postura de comunhão fraterna com a Natureza. Mergulha na missão que o Criador confiou ao homem de dominar sobre a terra, ar e mar, com as suas pedras, plantas e animais (e não sobre o outro homem), não como dono, mas como administrador e guarda. E esta missão de guarda estende-se à guarda sadia e solidária do irmão (cf Gn 1,28-29; 4,9-10).

E a encíclica trata expressamente da ecologia, mas na sua perspetiva totalizante, integral e integradora. Tem em conta as diversas reflexões teológicas e/ou filosóficas e mobiliza os conhecimentos científicos disponíveis (que nem todos aceitam por ferirem os seus interesses). Depois, o documento põe em paralelo os atropelos económicos e os atropelos ecológicos (quais deles os mais graves!), propondo a proporcional responsabilização humana, sobretudo para com os gravemente lesados pela ganância de outrem. E a perspetiva de fundo é a decorrente da sadia visão teológica da realidade e do olhar que Deus tem do mundo e da posição responsável do homem sobre a Terra.

Finalmente, o Papa lança o apelo à mudança de paradigma em relação à Casa Comum, uma nova atitude, uma outra perspetiva educacional e enuncia a sugestão de algumas medidas, terminando com duas propostas de oração. Não digam que fica mal ao Papa rezar e fazer rezar!

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No atinente à História da Igreja (de luzes e sombras) e à intervenção da Igreja na História, sugiro, sem mais delongas:

. A consulta do site do Vaticano. A Santa Sé tem seis academias – a Academia das Ciências Sociais; a Academia para a Vida; a Academia S. Tomás de Aquino; a Academia de Teologia; a Academia Mariana Internacional; a Academia de Belas Artes; a Academia Romana de Arqueologia; a Academia Cultorum Matyrum; a Academia Eclesiástica; e a Pontifícia Academia da Latinidade. Tem dois comités: o das Ciências Históricas; e o dos Congressos Eucarísticos Internacionais. Dos Pontifícios Conselhos, destaco o da Cultura e o das Comunicações Sociais. Não se esqueçam: a Biblioteca, a Tipografia Poliglota, os museus, os arquivos, o Osservatore Romano, a Sala de Imprensa, a Rádio Vaticano, o Centro Televisivo, o Centro Internet e as diversas Universidades (pontifícias e católicas) por todo o mundo.

. A leitura ou a releitura do livro O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica, de Thomas E. Woods, Jr (2009, Aletheia Editores, trad. Maria José Figueiredo).

. A Leitura ou a releitura de uma obra atualizada de História da Igreja, vg História da Igreja, 3 vol, de Carlos Verdete (2009, Lisboa: Paulus).

2015.06.25 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 25 de junho de 2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Encíclica Laudato Si (Louvado Sejas)

Aqui está a Encíclica Laudato Si (Louvado Sejas), que acaba de ser apresentada aos jornalistas no Vaticano.

Há quem ponha em causa que um líder religioso se debruce sobre assuntos científicos e técnicos
A Renascença falou com o superior dos franciscanos em Portugal, o padre Vítor Melícias, para melhor compreender a razão pela qual um líder religioso se dedica a assuntos de ecologia e conhecer algumas das bases teológicas próprias da tradição franciscana neste aspecto.

Tendemos a pensar na ecologia como um problema científico, de sustentabilidade, mas é também uma questão moral e religiosa?
A ecologia é um problema humano e portanto atinge todas as dimensões do ser humano. Exige da parte do ser humano uma atitude emocional, de inteligência, do coração, económica e até uma atitude política. Enquanto cuidado geral da casa, podemos dizer que a ecologia é uma ciência ou uma arte, uma forma de comportamento, uma atitude do ser humano e como tal pode ter, e seguramente tem, uma dimensão religiosa, uma dimensão ética e moral, uma dimensão de economia e política. Há dois tipos fundamentalmente de ecologia. O relacionamento do ser humano com a natureza toda pode ser por interesse ou pode ser por respeito, por amor, uma ecologia de fraternidade, do tipo franciscano e cristão. Normalmente confunde-se a primeira com científica, mas científicas podem ser as duas. Segundo a perspectiva franciscana o homem deve respeitar todos os seres como seus irmãos. Tudo tem a mesma origem, o mesmo pai, a mesma fonte. Portanto, sendo tudo irmão, todos os seres humanos devem não só respeitar os outros seres mas toda a criação, em função da dignidade própria de cada coisa. Isto é uma ecologia de fraternidade, podemos mesmo dizer de respeito pela dignidade das coisas e do seu criador, daquele que é o Pai.

E a visão do interesse?

É a ideia de que é preciso preservar todas as coisas da natureza, porque podem fazer falta ao homem. Não se deve desperdiçar os recursos porque depois vem a fazer falta para as gerações seguintes. Às vezes até se dá um argumento equívoco de solidariedade com as gerações que vêm depois de nós. Isto é, atende-se a tudo o que é criado, não como respeito pela dignidade própria do nosso irmão, mas como um recurso que o ser humano desperdiça ou não. É preciso ultrapassar esta visão, que aliás tem alguma fundamentação bíblica do Génesis, a ideia de que o homem recebeu de Deus todas as coisas, é o dono, pode dominar sobre todas as coisas e portanto pode usá-las, tudo foi criado para o homem. É uma visão completamente errada, completamente contrária. Cuidar da natureza não é um acto de egoísmo humano em defesa de bens que possam vir a faltar, é uma atitude de respeito por quem merece esse mesmo respeito em função da sua dignidade. Quando o Papa escolheu o nome Francisco, e se tornou claro que era em referência a São Francisco, estava já a dar sinais de que esta ia ser uma das suas prioridades? Ele mesmo referiu mais tarde que era São Francisco de Assis, no respeito por tudo aquilo que é excluído, que é menor, aquilo que é pobre, pobreza económica, material, espiritual, até pobreza relacional. A atitude que o Papa Francisco assumiu como motor da sua opção de nome é uma atitude exactamente de respeito pela natureza, não deixar estragar, não poluir, tratar bem aqueles que são marginalizados, postos de parte, descartados, e muitas vezes – o próprio Papa tem dito isso – o homem descarta a natureza, usa e abusa dela, e parece que agora nesta encíclica dirá mesmo: “Tenham cuidado, porque Deus perdoa sempre, o homem perdoa às vezes, mas a natureza não perdoa nunca”. O homem não pode descartar e utilizar os bens da natureza como se fossem coisas secundárias e que são apenas criadas para seu uso, para seu proveito, para seu prazer. O Papa Francisco, mais uma vez, manifesta o seu cuidado pelos pobres, não apenas os pobres materiais mas pelos pobres espirituais, os marginalizados, pelos excluídos, incluindo a natureza que o outro São Francisco chamava “nossa mãe e nossa irmã”.

Diz que o modelo do Génesis é errado, mas é um modelo bíblico. Há outro modelo bíblico que sustenta a sua posição?

A ideia bíblica do próprio Cristo que apresenta Deus como Pai. Aliás São Francisco assume essa mesma teologia, a teologia franciscana não é uma teologia de Deus Criador, é uma teologia de Deus Pai e todo o Novo Testamento é pelo menos uma mensagem de respeito pelo outro, por tudo aquilo que é criado. Não aparece Jesus Cristo nem os apóstolos nem os cristãos a dizerem à maneira bíblica usem tudo, estraguem tudo, façam tudo porque tudo está à vossa disposição. Não, tudo é para Deus, tudo é de Deus e tudo através do homem é para louvor ao próprio Deus, senhor e Pai. E mais, esta encíclica, esta mensagem tão urgente para a humanidade, do respeito ecológico, vem agora contextualizada em mensagem de misericórdia, extremamente urgente. O relacionamento do ser humano com os outros seres humanos todos, apesar das crenças, religiões, etnias e situações, é também uma relação para todas as criaturas, com misericórdia, isto é, com coração bondoso. Aquilo que deve ser o motor do relacionamento do ser humano é a misericórdia. Há um sínodo da família, cuja segunda parte se realiza em Outubro. A família actual, moderna, tem problemas tremendos que têm de ser enfrentados com grande coragem, mas sobretudo com grande coragem assente na misericórdia, no amor, na compreensão para a diversidade das situações tão complexas que os seres humanos têm e que as famílias têm e que as opções culturais na evolução vão tendo. Portanto juntar isso mesmo, o sentido da fraternidade universal, da ecologia e o motor da misericórdia é uma mensagem extraordinariamente humana, cristã, franciscana, diria mesmo, à Papa Francisco.

Sabemos que há igrejas e instituições que já dão o exemplo em termos de responsabilidade ecológica. O que é que a Igreja pode fazer mais?

A Igreja pode fazer mais, e aliás as diversas confissões cristãs, podem fazer mais sendo exactamente profetas da fraternidade que ligam o ser humano a todas as criaturas e do respeito que todos merecem pela sua dignidade congénita, pela sua dignidade de natureza, dignidade natural. A Igreja o que pode fazer é, aos seus fiéis, aos membros das diversas comunidades, mentalizá-las para isto, o amor a Deus realiza-se não apenas no amor aos seres humanos mas no amor a todas as criaturas e é o primeiro de todos os mandamentos, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E o próximo não são só os seres humanos, são todas as criaturas, os animais as plantas, o ar, o sol, a luz, tudo aquilo que Deus criou, que constitui a grande casa cósmica.
Fonte: aqui

terça-feira, 16 de junho de 2015

Novos olhares sobre o casamento

Jesus de Nazaré rejeita apenas a família como um mundo fechado, esquecida do nosso parentesco universal.

F


1. Quem decide casar, seja pelo civil seja pela Igreja, é obrigado a marcar uma data. É por isso que existe um antes de casados e um depois de casados. Banalidade das banalidades. As instituições têm normas. Mas esta evidência jurídica não deve esconder as misteriosas dimensões humanas e cristãs de laços que se desenvolvem no tempo e que nenhum tempo explica.
O casamento é um processo infinitamente mais complexo do que o processo civil e religioso. Para não morrer, tem de ir crescendo sempre nos noivos e no casal. Aquilo a que normalmente se chama o casamento é apenas a Festa de uma realidade que só pode ser bem conjugada no gerúndio. As pessoas que se acolhem como casal serão lúcidas se perceberem que ganham em ir casando cada vez mais, nas diferentes etapas da vida, preparando-se, nos dias calmos, para o imprevisível.
Se for verdade, como diz A. Bessa Luís, que as famílias são férteis em tensões e desajustes e que, sem conflitos, a família não subsistiria, então o casal, para ter futuro, precisa da conversão permanente à escuta recíproca, ao diálogo e ao perdão, sabendo que seremos sempre um mistério para nós próprios e para os outros. A ambição da transparência total é o engano de almas lisas.
Era ainda criança, mas lembro-me, como se fosse hoje, das conversas que provocou na minha aldeia uma pregação do padre Domingos, que depois foi Bispo da diocese da Guarda. Pregava contando histórias exemplares e parábolas semeadas de aforismos que tinham tanto de rústico como de prático. Num dos sermões, conhecendo a realidade local, resolveu falar, com muitos pormenores hilariantes, sobre três modelos de gestão familiar: a do varão – manda ele e ela não; o da varunca - manda ela e ele nunca; o da varela – manda ele e ela!
A questão mais difícil não é saber quem manda, mas o que comanda, em profundidade, as reacções de um casal que sonhou com um paraíso.
2. Nos debates em torno do Sínodo dos Bispos sobre a Família, alguns parecem obcecados pela indissolubilidade e pela impossibilidade de uma segunda celebração cristã do casamento. Nota-se pouca atenção aos seus modelos culturais e religiosos, no passado e no presente. Mesmo no âmbito da tradição cristã, podem observar-se diversos paradigmas.
 Nem o Antigo nem o Novo Testamento impõem uma estrutura determinada e fixa. A partir da experiência cristã, em confronto com outras culturas, numa época de globalização, é normal que se pense, dentro do próprio cristianismo, em instituições mais aptas para a família e para o casal europeu, latino-americano, africano e asiático.
Embora de forma muito esquemática e rápida, importa passar os olhos pelos traços essenciais da sua história como convite para leituras especializadas [1].
 Nos séculos I-III, o casamento era uma questão terrena que se procurava viver em espírito cristão: casava-se no “Senhor”, sem cerimónias próprias. Os cristãos casavam-se como os não cristãos: uns, segundo os ditames do Direito Romano, outros conforme os costumes locais (o direito consuetudinário). O grande cuidado a ter era com os ritos e sacrifícios pagãos que estivessem em contradição com a mensagem cristã.
Nos séculos IV-XI foi-se elaborando uma liturgia cristã, em duas fases: os esponsais e o casamento. As formas não eram obrigatórias. Obrigatória era a Bênção. Entretanto, foram-se introduzindo as formas civis no direito eclesiástico.
Pelo ano mil, todas as questões relativas ao casamento passaram para a jurisdição eclesiástica. Em suma: antes do ano mil, os cristãos casam-se de modos diversos: uns, segundo um rito cristão (direito eclesiástico); outros, segundo o direito civil; outros, segundo os costumes locais; outros ainda, clandestinamente.
Nos séculos XI-XV, produziu-se uma teologização e uma eclesiologização do casamento. O debate teológico sobre a sua essência agudizou-se. Toda a jurisdição do casamento passou para a Igreja, que ficou a regulamentar até os seus efeitos civis. Acabou assim por subsistir apenas o casamento religioso e o clandestino.
No Concílio de Trento (1545-1563), o casamento tornou-se numa instituição da fé. Todas as causas são transferidas para os tribunais eclesiásticos. É invalidado o casamento clandestino, dada a dificuldade dos tribunais em determinar qual era a esposa legítima de determinado varão comprometido, ao mesmo tempo, com várias mulheres.
3. F. Xavier de la Torre, da U. Pontifícia de Comillas, recorda que essa razoável proibição não pode fazer esquecer que, durante 15 séculos, a cerimónia não era uma exigência e, em termos teológicos, não tem de lhe estar associada. Isto permite-lhe destacar o valor luminoso do casamento e entender a crise de uma certa institucionalização. A trilogia sempre unida de casal, casamento e família, fragmentou-se. O adeus à Família é, no entanto, precipitado. De modos diversos, todos a procuram.
Jesus de Nazaré rejeita apenas a família como um mundo fechado, um egoísmo mais ou menos alargado, esquecida do nosso parentesco universal.
Fonte: aqui

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Sobre a conquista de Ceuta


A tomada da cidade marroquina de Ceuta, em 1415, por expedição comandada pelo rei Dom João I é considerada o momento fundador da nossa expansão ultramarina. Devido à importância primordial desta conquista, o debate em torno do tema (motivação, causas e consequências) tem sido intenso na historiografia portuguesa ao longo dos séculos.

Os antecedentes

É, no entanto, ponto assente a possível integração da conquista de Ceuta numa genealogia de incursões cristãs no Norte de África ao longo dos séculos anteriores. Essas expedições, de que são exemplo as incursões dos Normandos da Sicília, no século XII, ou a expedição Castelhana contra Tetuão, em 1399, baseavam-se no sistema do saque, destruição de ameaças corsárias e ocupações temporárias de portos, e não propriamente em ocupações permanentes como a que viria a ocorrer em Ceuta, da parte dos portugueses.

Para os Reinos Ibéricos a legitimidade destas incursões militares contra os muçulmanos do Norte de África advinha não só do mecanismo conflitual multissecular de reconquista da Península, como do facto de aquela região ter sido ancestral património da Monarquia Visigótica, de que os reinos cristãos peninsulares se consideravam herdeiros. Nestes termos, pelo acordo de Sória, em 1291, Castela e Aragão dividiram entre si o território que lhes caberia conquistar em Marrocos.

Em Portugal, o primeiro sinal e esboço de efetivo interesse por investidas militares no Norte de África surgiu ainda no reinado de D. Afonso IV a quem, em 1341, foi concedida a bula papal de cruzada Gaudemus et exultamus. Todavia, a concretização do projeto foi sendo adiada mercê da predominante orientação dos esforços do Reino para os conflitos com Castela – situação que apenas se alterou em 1411 com o tratado de paz, em Ayllón, entre Portugal e Castela.

Contudo, a paz alcançada em Ayllón motivou novos desafios para a Coroa Portuguesa. Por um lado, a dinastia de Avis precisava de encontrar formas de consagração da sua legitimidade e de assegurar a sua afirmação política perante a Cristandade. Por outro, a nobreza, sobretudo a constituída pelos filhos secundogénitos, via a sua possibilidade de alcançar honras, mercês e proveitos bloqueada pela conjuntura de paz; e, tornando-se um grupo social inquieto, sentiu a necessidade de encontrar novos campos de intervenção militar, que não a guerra com Castela. Perante estas circunstâncias a recuperação dos projetos de cruzada, com base em conflito contra os muçulmanos, que nunca havia cessado, tornou-se premente, sobretudo para a nobreza militar. Duas hipóteses de conquista se apresentavam: o Reino Nasrida de Granada ou o Reino Merínida de Fez, onde se situava Ceuta. Porém, a conquista de Granada apresentava o problema de constituir uma intrusão na área de reconquista castelhana, ao passo que o ataque a Ceuta beneficiava das dificuldades internas que os Merínidas vinham sofrendo ao longo de décadas. Por outro lado, a cidade tinha a dupla virtualidade de poder servir de testa-de-ponte para uma eventual conquista do Reino de Fez e/ou de posto avançado na estratégia de cerco ao Reino de Granada e do seu isolamento. Ademais, a conquista de Ceuta apresentava a vantagem de poder vir a ser um local estratégico para o domínio do estreito de Gibraltar, visando o controlo das rotas comerciais que ligavam o Mediterrâneo à Europa Ocidental.

Todavia, apesar de Ceuta ser igualmente um porto recetor do comércio saariano – comércio que deixou largamente de frequentar a cidade após a conquista portuguesa – o principal interesse económico da conquista da cidade seria a defesa das rotas marítimas que cruzavam o estreito e a das pescas junto à costa atlântica de Marrocos. Assim, os grupos mercantis portugueses e estrangeiros tinham como vantajosa a conquista da cidade, que poderia servir de ponto de apoio aos mercadores cristãos e base de combate às atividades dos corsários muçulmanos.

Por fim, o saque a obter da conquista de cidade portuária tão rica como Ceuta surgia como um factor fortemente apelativo, a acrescentar ao reforço da posição política e diplomática de Portugal face à Santa Sé e ao conjunto da Cristandade (a Res Publica Christiana), que adviria do sucesso da guerra aos “infiéis”. O projeto de conquista de Ceuta constituía, deste modo, não só o prolongamento natural da reconquista do Algarve, como o resultado da conjugação de interesses na sociedade portuguesa, ao nível político, religioso e económico-social, germinada no seio da Coroa ao longo de alguns anos, com o apoio dos Infantes.

A expedição

Seguiram-se anos de debate e de preparação. Depois, foi necessário financiar a expedição, reunir embarcações e mantimentos e recrutar os efetivos militares. O reconhecimento do objetivo terá sido levado a cabo por uma missão diplomática enviada à Sicília, que passou por Ceuta avaliando as suas defesas. Apesar de tudo, o objetivo da expedição militar foi mantido em segredo até aos últimos momentos.

No verão de 1415, a partida da armada, que se encontrava prestes para zarpar do porto de Lisboa, passou por um ligeiro atraso devido à morte, a 19 de julho, da Rainha D. Filipa de Lencastre, acabando por levantar âncora no dia 25 de julho. Embora se desconheça o número exato de navios e de homens que a compunham, tudo indica que os valores se cifrariam em dezenas de embarcações e alguns milhares de soldados. Segundo alguns, seriam entre de 19 000 a 20 000 cavaleiros e soldados portugueses, ingleses, galegos e biscainhos, embarcados em 212 navios de transporte e vasos de guerra (59 galés, 33 naus e 120 embarcações pequenas). Na expedição seguia o Rei e a fina flor da aristocracia portuguesa do século XV, incluindo os príncipes Dom Duarte, o Príncipe herdeiro, Dom Pedro, Duque de Coimbra, e Dom Henrique, Duque de Viseu, além do condestável Dom Nuno Álvares Pereira.

A armada rumou ao Algarve, tendo sido apenas em Lagos, no dia 28 de julho, que o objetivo do empreendimento foi divulgado. As calmarias ocorridas levaram a que o abandono do Algarve fosse protelado para os primeiros dias de agosto, a partir de Faro.

Algumas embarcações, dispersas por forte tempestade, avistaram Ceuta no dia 13 de agosto, ainda antes de a armada se ter reagrupado em Algeciras, onde se reuniu o conselho para deliberar sobre a forma de investida contra a cidade. Porém, avisada do ataque iminente, passou a ter a defesa reforçada por efetivos militares das vizinhanças, que ainda conseguiram fechar as portas da cidade. Entretanto, com o desembarque decorrido no dia 21 de agosto, o assalto à praia de Almina levou facilmente de vencida os defensores. Perante a debandada das forças inimigas, a vanguarda do exército português, liderada pelos infantes Dom Duarte, Príncipe herdeiro, e Dom Henrique, Duque de Viseu, prosseguiu na ofensiva, conseguindo penetrar as defesas da cidade, antes de ser apoiada e reforçada pelo corpo principal da expedição. Após algumas horas de combate nas ruas, a cidade foi controlada pelos atacantes e o castelo abandonado sem luta pelos defensores. No final do dia 21 de agosto de 1415, Ceuta encontrava-se efetivamente ocupada pelas forças portuguesas. E, segundo Azurara, na manhã de 22, consolidada que estava a conquista, foi pedido a Dom João Vasques de Almada que hasteasse a bandeira de Ceuta, idêntica à bandeira de Lisboa, mas a que foi acrescentado o brasão de armas do Reino de Portugal ao centro, símbolo que perdura até hoje.

Na semana seguinte, a 25 de agosto, Dom João I assistiu à sagração da grande Mesquita, convertida em igreja, e no ritual solene da primeira missa ali celebrada, armou cavaleiros os infantes da Ínclita Geração e muitos dos fidalgos que haviam participado na batalha.  

No entanto, a conquista originou o debate sobre se a cidade deveria ser permanentemente ocupada ou abandonada após o saque, tendo prevalecido a vontade régia, favorável à primeira opção, visto que, na ótica joanina, a conquista duma cidade em território muçulmano era uma forma de consagração da nova dinastia, pelo que que passou a intitular-se Senhor de Ceuta.

Decidida a manutenção da praça, a capitania foi entregue, após a recusa de altas figuras como o condestável Nuno Álvares Pereira, o marechal Gonçalo Vasques Coutinho e Martim Afonso de Melo, a Dom Pedro de Meneses, conde de Viana, comandando uma guarnição de 2700 homens, com um grupo de 40 nobres que se voluntariaram para ficar, a fim de exercitarem a militança. Além destes, ficaram os degredados para cumprimento da Justiça sem terem de se homiziar no estrangeiro. E os restantes regressaram a 1 de setembro.

A notícia da conquista pelo rei de Portugal foi rapidamente divulgada cumprindo, neste sentido, o seu objetivo de elevação do peso do Reino perante a Santa Sé e os demais Reinos da Cristandade.

Ceuta seria a primeira possessão portuguesa em África, ponto estratégico para a exploração Atlântica que começava a ser efetuada.

Motivos e causas

As causas e origens da conquista de Ceuta são múltiplas e não é hoje suficientemente claro qual seja ou quais sejam as causas que se tornaram determinantes para aquela expedição.

A Causa Religiosa, defendida por historiadores como Joaquim Bensaúde (1859-1951), faz ver na figura do infante Dom Henrique o símbolo antonomástico do espírito de cruzada, o que leva a defender que houve na génese da expansão um zelo religioso. Em vida do Infante, foram concedidos privilégios de cruzada por três bulas papais: Dum diversas (18 de julho de 1452); Romanus Pontifex (8 de janeiro de 1455); e Inter caetera (13 de março de 1456).

A Causa Bélica teria sido a oportunidade de os infantes Dom Duarte, Dom Pedro e Dom Henrique serem armados cavaleiros por um feito de guerra. 

A Causa Política, consubstanciada, segundo alguns, como Jaime Cortesão (1884-1960), na ameaça castelhana constante sobre a cidade, realçava o desejo da antecipação a Castela na expansão para o norte de África.

E a Causa Económica, com que não são incompatíveis as anteriores, foi a  defendida por António Sérgio (1883-1969) e, mais recentemente, por Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011). Pode explicitar-se nos termos seguintes: Ceuta era uma cidade rica e teria atraído a burguesia comercial, que queria canalizar para Lisboa o tráfego do Mediterrâneo ocidental feito por aquela cidade. Para se informar dos pormenores da cidade e das rotas comerciais, Dom João I, quando enviou à Sicília dois embaixadores com o pretexto de pedirem a mão da rainha para o infante Dom Pedro, induziu a que estes na passagem colhessem todas as informações possíveis sobre Ceuta.

Assim, podem sintetizar-se como principais – e não exclusivas – razões da tomada de Ceuta e sua ocupação durante anos e séculos as seguintes:

Políticas: o reino de Portugal procurava aumentar sua importância no quadro das monarquias ibéricas através do estabelecimento de Ceuta (antecipando-se a Castela) como o ponto mais oriental da reconquista cristã feita por Portugal no Norte da África.

Religiosas: havia um desejo de expansão da fé cristã através do incremento de territórios onde o cristianismo poderia ser implantado, com o aval da Santa Sé.

Sociais: as classes mais abastadas tinham vários interesses nesta conquista: a nobreza buscava novas terras, honras e rendas; o clero, na alinhamento da opção régia, desejava expandir a fé cristã; e a burguesia estava à procura de novos produtos e mercados.

Geoeconómicas: a posição geográfica de Ceuta permitiria controlar a entrada e saída dos navios vindos do Atlântico para o Mediterrâneo e vice-versa através do estreito de Gibraltar, de modo que a costa algarvia parasse de ser atacada por piratas oriundos daquela cidade muçulmana ou nela ou baseados.

Económicas: Portugal sofria com a falta de diversos produtos como trigo, ouro, prata, e especiarias e a cidade estava situada numa zona fértil, apropriada para a produção de cereais. Por outro lado, a conquista de Ceuta significaria para o Reino o controlo sobre uma cidade a que afluíam os produtos orientais vindos da Índia pelas rotas caravaneiras que traziam as especiarias, bem como o ouro da zona a sul do deserto do Sara.  

Consequências e efeitos

As expectativas conexas com os benefícios da conquista de Ceuta não se confirmaram a longo prazo. Na ótica económica, o domínio português na cidade revelou-se um completo fracasso. As rotas comerciais que chegavam a Ceuta ou por ali passavam foram desviadas para outras localidades. Além disso, o permanente estado de guerra comprometia o cultivo dos campos e a produção de cereais no continente português. Os muçulmanos sequestraram o Infante Dom Fernando (considerado santo a partir da concretização daí) e outras pessoas, para exigir Ceuta de volta, mas Portugal não cedeu e os prisioneiros acabaram por ser torturados e morrer.

A situação agravou-se em razão das elevadas despesas necessárias à manutenção desta praça africana. Os membros da Corte chegaram a cogitar o abandono da cidade. O Infante Dom Pedro, em carta ao irmão, afirmaria mais tarde: Ceuta é um grande sorvedouro de gente e dinheiro.

***

Ante o fracasso da tomada de Ceuta, os portugueses tomaram outra via: as das viagens marítimas, pelas quais procuraram atingir diretamente as zonas produtoras de ouro e, depois, as das especiarias. Ficou suspensa a política de conquista com que se iniciou a expansão (que era mais do agrado da nobreza para fazer sentir o seu valor militar), passando-se à política de descoberta, mais de cariz comercial. A iniciativa das primeiras viagens coube ao Infante Dom Henrique, mestre da Ordem de Cristo, e foi uma fase fundamental das grandes descobertas que se fizeram após a sua morte.

Estas primeiras viagens foram realizadas navegando junto à costa (navegação com terra à vista), não postulando grandes recurso se conhecimentos. Mas, à medida que se navegava mais para sul, os portugueses tiveram de aprofundar os conhecimentos científicos e técnicos, passando a fazer a navegação astronómica.

Assim, o malogro económico de Ceuta deu lugar a um novo rumo da expansão portuguesa pela sua direção à costa africana pela via atlântica, uma exploração lenta, mas metódica sob a orientação henriquina. Embora as primeiras viagens não tivessem logrado espetaculares resultados, levaram ao reconhecimento dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. E, dado que estes arquipélagos se encontravam desabitados, tornou-se necessário proceder à sua efetiva colonização, povoando e promovendo o seu aproveitamento económico, sobretudo através da agricultura. O rei entregou a maior parte das ilhas ao Infante, que, por sua vez, confiou a sua colonização a capitães-donatários, normalmente membros da pequena nobreza que detinham sobre a sua parcela territorial poderes administrativos, judiciais e militares. Desta forma muitos portugueses e alguns estrangeiros fixaram-se naqueles arquipélagos fomentando o seu desenvolvimento económico.

Os marroquinos não se conformaram e atacaram, embora sem sucesso, a cidade duas vezes, em 1418 e em 1419. Porém, a sua manutenção constituía um problema logístico: era necessário enviar suprimentos, armas e munições; a maior parte dos soldados era recrutada à força, recorrendo-se a criminosos e condenados a quem o rei comutava a pena caso fossem para Ceuta e ainda à recompensa generosa dos nobres que ocupavam postos de comando e chefia.

Julgaram conseguir o êxito da recuperação de Ceuta, quando do desastre português de Tânger, pedindo como resgate do infante Dom Fernando a cidade de Ceuta, a que se opôs o Infante Dom Henrique. Mas Dom Fernando faleceu no cativeiro e a cidade continuou portuguesa (1443). Todavia, Ceuta teve de se aguentar sozinha, durante 43 anos, até a sua posição chegar à consolidação com a tomada de Alcácer Seguer (1458), Arzila e Tânger (1471). Foi reconhecida como possessão portuguesa pelos tratados de Alcáçovas (1479) e de Tordesilhas (1494).

Quando da Dinastia Filipina, Ceuta manteve a administração portuguesa, bem como Tânger e Marzagão. Todavia, quando da Restauração, não aclamou o Duque de Bragança, como rei de Portugal, mantendo-se espanhola. A situação foi oficializada em 1668 com a assinatura do Tratado de Lisboa entre os dois países, que pôs fim à guerra da Restauração.

E, se não foi um êxito económico a sua conquista, pretextou a expansão em maior escala.

Referências

Braga, Isabel e Braga, Paulo (1998). Ceuta Portuguesa. Ceuta: Instituto de Estúdios Ceutíes.

Coelho, Maria Helena (2005). D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores.

Costa, João Paulo (2009). Henrique, o Infante. Lisboa: Esfera dos Livros.

Duarte, Luís (2003). “África” in Nova História Militar de Portugal, vol. 1 dir. de Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira. Lisboa: Círculo de Leitores, pgs. 392-441.

Farinha, António (1990). Portugal e Marrocos no século XV, 3 volumes. Lisboa: [S.n],

Labourdette, Jean-François (2001). História de Portugal. Trad. Magda Figueiredo. Lisboa: Dom Quixote.

Marques, A. H. (2015). Breve História de Portugal. 9.ª ed. Lisboa: Editorial Presença.

Ribeiro, Orlando (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 5.ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.

Serrão, Joaquim (1980). História de Portugal. Vol II – a Formação do estado Moderno [1415-1495]. Lisboa: Editorial Verbo.

Thomaz, Luís (1994). “Expansão Portuguesa e Expansão Europeia – reflexões em torno da génese dos Descobrimentos”, in De Ceuta a Timor. Lisboa: Difel, pgs. 1-43.

Thomaz, Luís (1994). “A evolução da política expansionista portuguesa na primeira metade de Quatrocentos” in De Ceuta a Timor. Lisboa: Difel, pgs. 43-147.

2015.06.12 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Combater a azia


O consumo excessivo de fritos, gorduras e bebidas alcoólicas, cigarro e maus hábitos alimentares são alguns dos principais factores que causam azia. Há entretanto produtos naturais que a  combatem:
1.  Comer uma torrada ou uma banana pode ser a resolução do problema.
2. Ou então  chupar um limão puro no momento da azia porque o limão, apesar de ser ácido, diminui a acidez do estômago, ou comer uma fatia de batata crua porque a batata também é capaz de neutralizar a acidez do estômago, combatendo a azia em poucos instantes.
3. Pode também beber um copo de água com uma colher de chá de bicarbonato de sódio.
4. O aloé vera, que se encontra à venda em sumo ou comprimidos, também é muito eficaz contra a azia.
5. A maçã, o melão, a papaia e a melancia também combatem esta doença.
6. Alguns cuidados importantes para vencer a azia é não beber água, nem outro líquido qualquer, na tentativa de a combater, pois ela tenderá a aumentar. Evitar comer muito antes de dormir e colocar um calço de 10 cm na cabeceira da cama, também são boas dicas para facilitar a digestão. Mas a alimentação também é importante e, por isso, quem sofre com azia coma verduras e produtos naturais.
Fonte: aqui

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Maçonaria, Igreja e segredo

1. Foi um convite generoso e insistentemente amável da venerável mestra da Loja África, da Grande Loja Feminina de Portugal, que me levou recentemente a uma daquelas sessões brancas da maçonaria nas quais podem participar "profanos". O tema era reflectir sobre a percepção pública da maçonaria.
Comecei por dizer que não sou membro da maçonaria. Tive contactos com maçons. Os primeiros foram com Raul Rêgo, com quem participei em debates. Falei várias vezes com o cardeal Costa Nunes, mas nunca sobre a maçonaria. A convite do então grão-mestre, António Reis, participei num grande encontro sobre as religiões, o diálogo e a paz. Estive uma segunda vez com ele, numa sessão branca, tendo discutido a distinção, que ele aceitou, entre laicidade - o Estado laico, aconfessional, é decisivo para a defesa e salvaguarda da liberdade religiosa de todos - e laicismo, que pretenderia retirar a religião do espaço público, confinando-a ao espaço privado.
Encontro muitas vezes um estimado amigo, António Arnaut, que já foi grão-mestre, que se confessa "agnóstico cristão", a quem se deve esse milagre chamado Serviço Nacional de Saúde e que cita amavelmente "um filósofo - Anselmo Borges", que diz que o problema dos católicos é nem sempre serem cristãos, e frei Bento Domingues, que escreveu que "liberdade, igualdade, fraternidade são filhos laicos do Evangelho". Foi António Arnaut que disse que, infelizmente, a maçonaria precisa de uma limpeza, como o Papa Francisco está a fazer na Igreja, pois muitos entraram, não por causa dos seus ideais autênticos - aperfeiçoamento espiritual e promoção da tricolor: liberdade, igualdade e fraternidade -, mas por interesses outros: pessoais, partidários, de lóbis.
Realmente, é essa a percepção frequente: a maçonaria como plataforma de interesses outros, cumplicidades entre política e negócios, tráfico de influências. Também chega à opinião pública a luta, por vezes violenta, entre obediências. Perguntei por esses conflitos e pelo secretismo, citando o famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que não entendia como é que numa sociedade democrática e aberta ainda há sociedades e grupos que se refugiam no segredo, e citava a maçonaria e o Opus Dei.
No quadro dos autênticos ideais maçónicos - liberdade, democracia, companheirismo, fraternidade, humanismo, espiritualidade, aperfeiçoamento interior -, não vejo porque é que há-de haver conflito entre ser católico e maçon.

2. As relações entre maçonaria e Igreja oficial não têm sido pacíficas. Pelo contrário, e vou seguir Henri Tincq (Le Monde des Religions, Nov.-Dez., 2010). A maçonaria foi, desde a sua origem, condenada pelo papado, acusada de imoralidade, heresia, segredo. Logo no século XVIII, Bento XIV (1751) escreve: "Se estes homens não praticassem o mal, teriam um tão grande horror à luz?" Todos os papas do século XIX consagraram um documento à denúncia das sociedades secretas, associando a maçonaria ao liberalismo, cientismo, positivismo, modernismo. O anticlericalismo desencadeou uma "literatura delirante" à volta do "complot judeo-maçónico". Neste clima, mesmo Leão XIII, considerado liberal, escreveu a encíclica Humanum Genus, que descreve dois campos inimigos: a Igreja, "reino de Deus sobre a Terra", e a maçonaria, "sinagoga de Satã", atribuindo-lhe a pretensão de secularizar a sociedade, através do divórcio e da escola. No princípio do século XX, o Código de Direito Canónico pune com a excomunhão todos os que pertencem à "seita" maçónica ou a associações que "maquinam" contra a Igreja.
Foi com o Concílio Vaticano II (1962-1965) que se passou a alguma vontade de diálogo. O novo código, de 1983, já não cita expressamente a maçonaria. Mas o cardeal Ratzinger, futuro papa Bento XVI, escreveu, nesse mesmo ano, que a posição da Igreja permanece inalterada, que a inscrição numa loja continua proibida e que quem o fizer fica num estado de "pecado grave", sem poder aceder aos sacramentos.
Continuam as diferenças entre católicos e maçons, nomeadamente quanto ao aborto, o reconhecimento da eutanásia, o casamento homossexual, a homoparentalidade. Mas "a tolerância vai vencendo": já se não nega o funeral religioso a maçons, há "sessões brancas fechadas", com a presença de bispos e até de cardeais, e católicos que "vivem serenamente a dupla pertença": homens de "boa vontade" podem reunir-se à volta de valores de progresso, humanismo, liberdade.

3.Todos os cidadãos têm, no quadro da lei, direito ao segredo. Mas ainda se justifica hoje o segredo maçónico? De qualquer modo, gostei de ler um bem conhecido maçon, Ricardo Sá Fernandes, quando recentemente disse ao i: "Não tenho a mais pequena dúvida: se eu detectasse situações de corrupção na maçonaria, obviamente que a denunciaria à justiça profana. Sou, primeiro, cidadão, e só depois maçon. E se tivesse uma varinha mágica, convenceria todos os meus irmãos a assumir que são maçons quando estão em cargos públicos e políticos."
Anselmo Borges, aqui