quinta-feira, 31 de março de 2016

A ressurreição de Cristo – e a morte do ateísmo

Nenhuma discussão sobre a existência de Deus pode ignorar as evidências da ressurreição de Cristo
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Você pode muito bem apresentar os seus cinco argumentos filosóficos para defender a existência de Deus. Se eles funcionam para você, ótimo. Mas eu sempre achei que os cinco argumentos filosóficos para a existência de Deus envolvem um jogo mental de abstração que não é exatamente o que satisfaria aqueles que pedem “provas” da existência divina.
Você sabe, afinal, que os ateus gostam de perguntar: “Cadê as provas da existência de Deus?” – e, de fato, argumentos filosóficos não são “provas” propriamente ditas. Eles ajudam bastante a fazer as perguntas e reflexões mais pertinentes e intrigantes, é claro, mas ainda permanecem mais no domínio do abstrato.
Por isso, quando os ateus me pedem provas, eu também peço que eles sejam mais concretos:
“Que tipo de prova ou evidência você quer?”
Estranhamente, eles parecem ficar perplexos com a minha pergunta.
Então eu prossigo, esmiuçando a pergunta para eles:
“Você quer provas forenses? Provas documentais? Evidências arqueológicas? Evidências botânicas e biológicas? Evidências fotográficas? Evidências lógicas? Provas históricas? Testemunhos oculares? Provas legais?”
Todas essas evidências da existência de Deus existem, mas, antes de ir a elas diretamente, é necessário jogar um pouco daquele “jogo mental de abstração”. Vamos lá.
Se Deus não existe, então a ordem natural tem que ser um sistema fechado – ou seja, a ordem natural tem que funcionar de acordo com as regras da própria natureza. Não pode haver milagres nela, porque milagre significa uma força de fora da natureza e, portanto, independente e maior que a natureza. Por isso mesmo, se acontecesse apenas um milagre, um único milagre, então já significaria que a natureza não é um sistema fechado e que existe uma força maior que ela e fora dela. Se esse milagre fosse inteligível, isto é, se fizesse sentido a sua ocorrência, então essa força que é maior que a natureza seria também inteligente, e, se é inteligente, então é mais que uma “força”: é um “Alguém”. É mais que um “quê”: é um “Quem”. A “força” teria rosto.
Pois bem: há um milagre que os cristãos afirmam acima de qualquer outro – a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Toda a argumentação sobre a existência de Deus fica muito mais interessante quando parte das evidências da ressurreição. As conversas com os ateus, portanto, deveriam começar por este milagre.
Ao considerarmos a afirmação de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, temos apenas três possibilidades de encará-la.
  • Primeira: Jesus não morreu de verdade – portanto, a “ressurreição” foi apenas uma forma de “reanimação”.
  • Segunda: Ele morreu, sim, mas o seu corpo desapareceu de alguma forma.
  • Terceira: as testemunhas da ressurreição foram iludidas ou elas próprias mentiram.
Se Jesus não morreu de verdade, então temos de supor que os executores romanos profissionais – que faziam o seu trabalho em público – se enganaram. Temos de acreditar, ainda, que os inimigos de Jesus, que estavam lá justamente para se certificar de que Ele tinha morrido, também se enganaram. Temos de acreditar, além disso, que, depois de ser açoitado com chicotes que rasgaram a sua carne e de ser pregado a uma cruz, Jesus ainda sobreviveu a um golpe de lança, desferido por um executor treinado, que trespassou o seu corpo. Mesmo que Ele tenha sobrevivido, ainda temos de acreditar que, um ou dois dias depois de ser sepultado como supostamente morto, Ele já estava forte o suficiente para rolar uma pedra de várias toneladas, que fora posta à entrada do sepulcro exigindo todo um grupo de homens fortes para movê-la, e saiu cambaleando, nu, jardim afora. Então os discípulos, ao verem aquele pobre ser humano, gritaram: “Isso é uma ressurreição! Vamos começar uma nova religião!”.
Agora, se Jesus morreu de fato, precisamos então explicar o que aconteceu com o seu corpo. Será que os discípulos roubaram o corpo? Por que eles fariam isso? Para fingir que tinha acontecido um milagre no qual ninguém de juízo perfeito acreditaria? Meros dois dias antes, eles estavam se escondendo como coelhos assustados e, de repente, teriam se reunido e planejado a Missão Impossível? Ou não será que animais devoraram o corpo de Jesus jogado ao lixo? Isto não confere com o que se sabe dos costumes judaicos de sepultamento nem com os relatos históricos de que os amigos de Jesus pediram o seu corpo e as autoridades o entregaram a eles. Será que os discípulos foram ao túmulo errado? Neste caso, não seria mais fácil eles apenas dizerem “Opa, túmulo errado” em vez de “Ressuscitou!”? Ou será que o homem que tinha sido crucificado não era mesmo Jesus? Ora, mas todos os seus inimigos estavam lá para vê-lo carregar a cruz, ser crucificado, ficar exposto na cruz durante horas, morrer e ser deposto da cruz. Ninguém teria notado que não era Ele?
A única possibilidade que resta é a de que os discípulos tenham sido enganados ou iludidos para acreditar na ressurreição, ou que eles tenham inventado uma mentira. Todos eles e mais todas as centenas de outras pessoas que declararam ter visto Jesus vivo depois da crucificação e do sepultamento. Teriam todos eles se encontrado às escondidas para alinhar uma história forjada? Nesse caso, eles teriam que manter a sua mentira a ponto de ser torturados e mortos por causa dela. Você faria isso? Todos eles fariam isso, sem que nenhum afrouxasse? Por quê? Para ganhar o quê?
Quando confrontados com estes questionamentos, os ateus, em sua maioria, simplesmente dão de ombros: “Ah, mas tem muitas coisas estranhas no mundo e não temos resposta para tudo”. Opa! Esperem aí: o peso da história e das evidências reunidas exige um veredito. Se os ateus exigiram evidências e as evidências foram fornecidas, então eles devem dar uma resposta diante delas.
E mais uma coisa: você se lembra de que eu falei de evidências botânicas, biológicas, históricas, forenses, fotográficas, científicas, físicas e arqueológicas da ressurreição?
Pois é: o Santo Sudário de Turim – não, não há nenhuma prova científica real e taxativa contra a autenticidade do Santo Sudário. Muito pelo contrário… Mas isso pede um artigo bem mais longo do que este.
Fonte: aqui

domingo, 27 de março de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

Em 24 de março de 2016, morreu Johan Cruijff (68 anos)

A 24 de março de 2016 Johan Cruijff (68 anos) morreu pacificamente em Barcelona, rodeado pela família depois de uma dura batalha com um cancro.
Johan Cruijff (Lusa)
Ninguém como ele: as etapas que definiram o génio
Dos relvados para os bancos, daí para os gabinetes


Veja aqui facetas de Johan Cruijff. O jogador fabuloso, o técnico renovador, o analista que mexia com o fenómeno futebolista.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Votos de Santa Páscoa para todos e cada um!


Alinho com todo o gosto e prazer no comum desejo de boas festas de Páscoa para todas as amigas e amigos. E confesso que, a par deste gosto e prazer, está o dever que me incumbe de desejar o bem, a felicidade e a virtude a toda a gente. É a Páscoa que rebenta na primavera da floração para, a seu tempo, se robustecer em frutos estivais e na colheita outonal, seguida da sementeira das espécies resistentes aos rigores hiemais.

Mas o crente tem o dever e a alegria de propor que a Páscoa, além de boa e feliz, seja santa para todos os demais crentes e portadora da mensagem de paz e de justiça para todas as pessoas de boa vontade. E isso acontecerá se alicerçarmos a nossa vivência na respiração do Evangelho da vida, da dignidade, da liberdade e da atenção ao próximo – o de perto e o de mais longe.

Neste primeiro dia do tríduo pascal, não posso deixar de me recordar da exigência de fraternidade que o discipulado de Jesus Cristo nos incute oportuna e importunamente. Se estamos mesmo persuadidos da filiação comum do mesmo Paterfamilias, temos de estabelecer, manter e reforçar todas as pontes de fraternidade solidária entre todos, sem excluir ninguém.

Esta estruturação da vida no sistema de pontes de solidariedade implica a renúncia a qualquer tipo de inveja e, ao invés, partilharmos com os demais as alegrias e as tristezas e aproximarmo-nos dos outros nas suas diversas situações de angústias e tristezas, alegrias e exultações.

A mensagem de quinta-feira desta Semana Maior é múltipla. Desde logo, a fortaleza que o Céu garante aos que peregrinam neste mundo em busca do mais e do melhor para os outros e para si, materializada na bênção dos óleos dos catecúmenos e dos enfermos e na consagração do crisma. A vida cristã é estrada de luta contra as adversidades, temperada pela fortaleza e pela prudência, de que se revestiam os participantes na luta greco-romana, ungidos para não aderirem ao contendor ou ao solo e prosseguirem o espetáculo da luta para gáudio do imperador e do público. Os cristãos, por sua vez – não sendo do mundo, mas nele permanecendo em busca do Além – não estão para gáudio do profanum vulgus nem de qualquer imperador do século, mas para garantia do gáudio do seu Deus, da preservação e salvação das suas próprias pessoas e do bem-estar de todos estribado na justiça social, que se tornará mais real, intensa e abrangente se emoldurada pelo mandamento novo do Mestre, Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

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E estamos já mergulhados na segunda mensagem do primeiro dia do tríduo pascal: a do amor fraterno, que se quer afetivo e efetivo. Para tanto, há que ter em boa conta, meditar e assumir:

“Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo” (Jo 13,1).

No gesto simbólico do lava-pés aos discípulos, o Mestre dá a lição do serviço a prestar e a aceitar, como sinal e fruto do amor fraterno:

“Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. Em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.” (Jo 13, 13-17).

Depois, enunciou o mandamento novo, que é a marca do discípulo de Cristo:

“Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” (Jo 13,34-35).

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É ao serviço deste mandamento do amor fraterno que advém o sacerdócio ministerial, ora instituído, bem como a militância decorrente do sacramento do batismo, que nos inicia na economia eclesial de povo de Deus, e da confirmação, que nos confere a adultez da militância no apostolado. Para a robustez que esta militância postula, bem como para o desempenho do múnus do sacerdócio ministerial, advém a consagração do óleo do crisma. Os cristãos são investidos nas significativas funções proféticas, sacerdotais e reais aquando da incorporação em Cristo morto (mistério de sexta-feira santa), sepultado e descido à mansão dos mortos (mistério de sábado santo) e ressuscitado (mistério do domingo de Páscoa). E cumpre-se a Escritura: “Farás um unguento de óleo e aos filhos de Israel dirás: Unção sagrada será este óleo de geração em geração” (cf Ex 30,25.31). E seremos: Povo de reis, Assembleia santa, Povo sacerdotal, Povo de Deus.

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Quanto ao sacerdócio ministerial, que gravita em torno da Eucaristia, da responsabilidade pela Palavra e da superorientação da caminhada, Jesus diz aos apóstolos, “Quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10,16); e, “Em verdade, em verdade vos digo: quem receber aquele que Eu enviar é a mim que recebe, e quem me recebe a mim recebe aquele que me enviou” (Jo 13,20).

No contexto da instituição da Eucaristia, a referência ao sacerdócio ministerial costuma entender-se nos segmentos, “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19; 1Cor 11,24), e, falando do cálice, “Fazei isto, sempre que o beberdes, em memória de mim” (1Cor 11,25).

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Outra mensagem deste dia de sacerdócio, unção e fraternidade, é exatamente a Eucaristia, hoje instituída na última Ceia. Um dos relatos mais sintéticos é o de Paulo na 1.ª carta aos Coríntios:

“Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que era entregue, tomou pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim’. Porque, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.” (1Cor 11, 23-26; cf Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20).

Como se vê, a Eucaristia é instituída como banquete – reunião e festa: é no contexto da ceia, a ceia pascal, festa familiar que evoca a libertação do povo da escravidão do Egito por força da aliança de Deus com o Seu povo selada pelo sangue do cordeiro (agora, o cordeiro é Cristo; e o sangue da aliança é o sangue de Cristo). E é o sacrifício de Cristo, o mesmo da Cruz: “na noite em que era entregue”; “anunciais a morte do Senhor”. E Marcos refere: “Após o canto dos salmos, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mc 14,26). Aí, Jesus foi manietado para ir ao tribunal do sinédrio e ao tribunal dos romanos, de cujo julgamento intempestivo resultou a sua morte de cruz.

Mas é Eucaristia, que antecipa os tempos escatológicos (“anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha”), é Paixão, Morte, Ressurreição e banquete dos filhos – sacramento da caridade de Cristo e da fraternidade dos discípulos. A melhor síntese continua na antífona litúrgica:

Ó sagrado banquete, em que se recebe Cristo e se comemora a sua Paixão, em que a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória.

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Pela grandeza deste mistério e com a sua alegre exigência, Santa Páscoa para todos!

2016.03.24 – Louro de Carvalho

COSTUMA COMER SUSHI?



AMIGOS: Isto é sério, foi enviado por dos maiores especialistas da alimentação, em Portugal

Um chinês apaixonado por sashimi, o famoso peixe cru japonês (também servido em alguns pratos de sushi) ficou com o corpo absolutamente tomado por larvas depois de tanto ingerir a sua comida preferida.
Com dores no estômago e comichão na pele, o homem resolveu procurar atendimento médico, e as radiografias revelaram por que ele se sentia tão mal.
  Segundo a equipa médica, o homem sofreu essa enorme infestação de larvas porque consumiu muito peixe cru contaminado com vermes da espécie Diphyllobothrium latum, pertencentes à classe Cestoda.
Esse grupo também engloba a ténia (ou “solitária”), que causa a cisticercose.O peixe contamina-se ao ingerir os ovos do D. latum, que depois vai libertar as larvas no seu intestino.
Os vermes conseguem perfurar a parede do órgão e hospedam-se na carne do peixe.
Como o sashimi não é cozido, as larvas são transmitidas à pessoa que consumir o alimento.
 Quando um ser humano é infectado, a larva vai dar origem a um verme adulto de até 15 metros de comprimento, o qual se instala no intestino da pessoa e passa a libertar os seus próprios ovos. Novamente, os ovos vão dar origem a larvas, que podem infectar e comer outras partes do organismo, como fígado, olhos, coração e cérebro..
Tem muito cuidado e partilha com o máximo de pessoas, pois infelizmente é um alimento que está na moda!!

Estudem a situação e decidam...
(Recebido por email)​

quarta-feira, 23 de março de 2016

Je suis já nem sei o quê


Enquanto diligentemente não afirmarmos com contundência que os valores europeus são incompatíveis com o estatuto das mulheres no islão, estaremos a apimentar o caldo onde se desenvolve o terrorismo.
Em 2009 fui a Bruxelas numa viagem de bloggers. Num dos dias almoçamos com Maria da Graça Carvalho, então conselheira de Durão Barroso. Perguntei-lhe que respostas, se algumas, tinha a Comissão Europeia para os abusos dos direitos humanos que as mulheres muçulmanas residentes na União Europeia sofriam nas suas comunidades. (Sim, já nessa altura estes assuntos me agitavam.)
Os casamentos forçados enquanto adolescente com homens desconhecidos dos países de origem dos pais. A violência doméstica sobre mulheres (que quantas vezes nem sabem falar e escrever na língua do país de acolhimento) e filhas e irmãs caso estas não se cubram como deviam e não fujam dos hábitos namoradeiros das devassas raparigas ocidentais. Os crimes ditos de honra sobre as mulheres – que não estão só nas zonas tribais do Paquistão. A adoção de quadros legais como a sharia no meio dos supostamente igualitários países europeus. A proibição de mulheres e filhas e irmãs de estudarem e trabalharem, privando-as assim da possibilidade de obter um trabalho que lhes garanta uma alternativa de sobrevivência – e de escape à opressão familiar. E… e… e…
A nossa interlocutora deixou a questão para o fim, reputou-a de muito difícil e muito importante, mas reconheceu a impotência. Recebi dias depois umas informações da Comissão sobre ajudas a vítimas de violência doméstica, nada sobre o que eu havia inquirido. De resto percebeu-se que não havia resposta nem, sequer, um esboço de tentativa. O que havia era a esperança que este caldo periclitante não explodisse depressa, que a UE nunca tivesse de confrontar a realidade feia que as comunidades islâmicas cá residentes criaram – com a conivência dos fracos políticos europeus que morrem de medo de usar um discurso a que os excitadinhos irresponsáveis possam dar o epíteto de xenófobo e islamofóbico.
Mas o caldo explodiu e agora de poucos meses em poucos meses temos de regressar ao assunto. Por mim, confesso que estou muito saturada do mantra que, paradoxalmente, se instalou depois de 2011 e que reza que o islão é uma religião de paz, nada a ver com atentados terroristas (apesar do número considerável de clérigos islâmicos que na Europa e no resto do mundo usam a sua influência e poder para radicalizarem os jovens muçulmanos e os encaminharem para os meandros terroristas), enfim, que o islão é só flores e bombons de gente que nunca pensaria usar a violência para com outros. O atroz tratamento que os islâmicos oferecem às mulheres é invenção de mal intencionados e xenófobos (comigo aos saltinhos na primeira fila), mas felizmente as provocações desta má rés são ignoradas pela gente de bem e esclarecida que dedica ao assunto o que ele merece: silêncio.
Confesso que tenho saudades de poder falar destes assuntos quando as mentes tolerantes não dedicavam maior ferocidade a quem aponta as evidentes falhas do islão, e o seu apoio oficial ou oficioso ao terrorismo, do que aos que festejam cada atentado terrorista. Ou, como nos últimos meses, aos que protegem o cérebro dos atentados de Paris no meio de um bairro de Bruxelas e nada de o denunciar à polícia ou aos serviços de informações. São escolhas e eu não respeito essa escolha.
Há muitos anos o filme Not Without My Daughter, com Sally Field, contava a história real de uma mulher americana que casou com um iraniano. O marido era atencioso e normal enquanto viveram nos Estados Unidos, mas quando se mudaram para o Irão tornou-se violento e despótico. A mulher fugiu com a filha, abandonando o marido brutal no Irão. Ora este filme, de 1991, atualmente já não seria realizado. Lembremos a chuva de escândalo que caiu em cima de Dom José Policarpo quando afirmou que muitas mulheres que casavam com muçulmanos se viam de seguida com graves problemas conjugais. Já não se faz criticar o islão. Não se aceita nos salões cosmopolitas. É de mau tom.
Dizer que o desrespeito pelas mulheres é norma para o muçulmano médio é um desvario a raiar o racismo do KKK. Chamar a atenção que para os muçulmanos uma mulher que não use lenço na cabeça é, no mínimo, invisível e, no máximo, merece ser violada porque não se deu ao respeito é uma heresia. Afirmar que é um tremendo risco ter uma parte crescente da população europeia com estas ideias encantadoras sobre a condição feminina é ousadia que deve ser recompensada com insultos sonoros.
Mas esta desculpabilização do islão vem com um preço: damos rédea livre para que o pior do islão decorra no meio das cidades europeias. Há uns tempos li um texto muito curioso da Vogue sobre as raparigas britânicas que fogem da família para casarem com combatentes do ISIS. Geralmente vêm de famílias muçulmanas conservadoras, com todos os passos controlados, sem contacto com rapazes e com interação limitada com amigas, sem experiência de vida que não a vida familiar, cobertas desde antes da adolescência. A fuga para o ISIS é uma libertação e a possibilidade de aventura que lhes é negada pela draconiana moral familiar.
Os rapazes, como é sabido, vêem com enlevo tornarem-se terroristas. Mesmo aqueles perfeitamente integrados nas comunidades (como em Londres) ou bons alunos de escolas católicas (como em Paris, versão de novembro). Ou que usaram dos benefícios dos generosos estados sociais europeus mas continuam a reclamar.
Não tenho soluções para o terrorismo. Mas sei que enquanto diligentemente fizermos por ignorar este mal sob o sol que cresce nas comunidades muçulmanas residentes na Europa, enquanto não afirmarmos com contundência (inclusive judicial e penal) que os valores europeus são incompatíveis com o estatuto das mulheres no islão (um exemplo), estaremos a apimentar o caldo periclitante. O primeiro passo para resolver um problema costuma ser perceber onde está e qual é.
Maria João Marques, Observador 2016.03.23, aqui

sábado, 19 de março de 2016

O beijo de Marcelo ao Papa


Como todos os observadores anotaram, a primeira viagem oficial do novel Presidente da República foi à Santa Sé, tendo-se avistado com o Papa Francisco, com quem entabulou conversa privada durante uns 30 minutos sobre a situação portuguesa e os problemas que afligem o mundo. Encontrou-se também com o cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin e com o Secretário para as Relações com os Estados Monsenhor Paul Richard Gallagher.

Marcelo Rebelo de Sousa recebeu como presentes do Papa a sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, um documento programático do pontificado, e a encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado com o planeta, uma responsabilidade de todos, bem como um medalhão do seu pontificado, que tem dois ramos de oliveira entrelaçados (a oliveira é símbolo da paz e compete aos políticos construir a paz – terá dito o Papa).

Por sua vez, o Presidente deixou a Sua Santidade dois tipos de presentes: um de Estado, constituído por seis casulas de paramento litúrgico, desenhadas pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira (de cores branca, vermelha, verde, roxa, azul e cor-de-rosa – para a celebração da missa em conformidade com os diversos contextos litúrgicos de celebração); e um de cunho pessoal, um registo de Santo António de Lisboa, da coleção de Marcelo.

Como é óbvio, o Chefe de Estado Português posou para fotografia oficial com o Chefe de Estado da Santa Sé ou da cidade do Vaticano.

Porém, o que alguns criticam em Marcelo foi o ter beijado o anel papal – gesto que merece alguma análise a contrapor àquela que os mais críticos fizeram já.

***

Dou de barato o comentário da rubrica “Gente”, do último número do Expresso, que raciocina:

“Ou o Presidente da República se deixou levar pela emoção ou não aprendeu bem as regras do beija-mão ao Papa. É que, em vez de se curvar bem para beijar o anel de Francisco, Marcelo levantou a mão do Papa como faz às senhoras.”

Se Marcelo, para beijar a mão de senhoras, lhes levanta a mão, não faz bem; deve curvar-se ao nível da mão quando a senhora lha estende e não ser ele a levantar-lhe a mão. Porém, o redator do Expresso também parece não saber a regra do beija-anel do Papa ou dum bispo. Em bom rigor, o que saúda o Papa deve fletir o joelho direito até ao solo, tomar a mão do Papa com a mão direita e beijar-lhe o anel ao nível da mão quando o Pontífice lha estende, sem lha prender com a sua mão esquerda. Isto, nos tempos atuais, que antigamente era preciso ajoelhar com dos dois joelhos por três vezes durante a aproximação ao Romano Pontífice e beijar-lhe os pés (ritual definitivamente abolido pelo Papa Pio XII).

Sobre a obrigação ou não de beijar o anel ao Papa, é óbvio que Marcelo não tinha essa obrigação. Por outro lado, também a crítica que a AAP (Associação Ateísta Portuguesa) faz do beija-mão de Marcelo ao Papa Francisco me parece descabida, não pela crítica em si, mas pelas razões que a suportam. O beijo na mão papal não tem que agradar aos ateus nem que os irritar.

Dou de barato o chiste brejeiro de quem diga que Marcelo tinha de beijar o anel para rimar. O nome do Presidente é Marcelo e em italiano anel diz-se anello.

Mas vejamos o que aduz a AAT, segundo JN de hoje, dia 19 de março. Classifica esse gesto como “um ato de subserviência”. Carlos Esperança, presidente da associação diz, a este respeito, que “o católico Marcelo Rebelo de Sousa pode beijar a mão de quem quiser, mas o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não pode”.

Não é possível distinguir assim as coisas. O Presidente Marcelo não deixa de ser o cidadão e, pelos vistos, o católico. Nem o cidadão e católico Marcelo deixa de ser o Presidente, pelo menos durante os próximos cinco anos.

Depois, não creio que “o presidente de todos os portugueses” tivesse na ideia qualquer laivo de subserviência do Estado Português ao Vaticano nem entenda que Portugal sirva de protetorado do Vaticano ou se preste a sacristão pontifício.

É certo que a associação ateísta tem o direito de apresentar um protesto formal em Belém, como diz estar a ponderar. Apesar de tudo, eu preferiria que não se perdesse tempo com este género de protestos.

Por outro lado, argumentar com a aconfessionalidade do Estado ou com a índole laica da República parece-me excessivo. A laicidade da República configura o reforço da componente popular do Estado, componente inclusiva de todos como são ou querem ser. E é por isso que o Estado se quer aconfessional, não professando oficialmente uma religião. Daqui não se pode concluir que não deva admitir a liberdade de religiões ao nível do pensamento, da expressão e do culto (a nível privado e público) e mesmo o diálogo e colaboração de e com as religiões existentes. Dificilmente se encontrará uma Constituição tão aconfessional e mesmo laica como a americana. Não obstante, os presidentes americanos não têm qualquer pejo em se apresentarem com a sua religião e recorrentemente, mesmo em cerimónias oficiais, lá vem o voto, “Deus abençoe a América”.

Em Portugal, mesmo em tempos mais difíceis, ninguém teve a veleidade de hostilizar Maria de Lourdes Pintasilgo como Primeira-Ministra (1979) por se identificar publicamente como católica nem Freitas do Amaral por ter beijado o anel ao Papa João Paulo II quando este chegou a Portugal em 12 de maio de 1982. Ou será que a reverência ao Papa Francisco incomoda mais os ateus portugueses que a anterior reverência ao Papa polaco? Será o argentino mais perigoso para a eficiente desmontagem do indiferentismo?

Ora bem. Devo afirmar a minha convicção de que não se deve castrar qualquer candidato antes da eleição presidencial (e depois também não) nem do ponto de vista político nem religioso nem filosófico. Nem sempre apoiei o perfil de Marcelo, mas deixá-lo ser católico! Não gostei de que Soares tivesse depositado o cartão socialista nas mãos do partido, mas apreciei o facto de não ter renunciado ao seu agnosticismo confesso (Será que teria de o calar ou reforçar em nome da laicidade constitucional?). Não gostei de que Sampaio se tivesse proclamado ateu no período eleitoral, mas apreciei o não ter abdicado do cartão socialista. Já Cavaco Silva não renunciou a nada, não proclamou nada e, afirmando-se acima de tudo e de todos, acabou por ficar colado à sua família política sem agrado entusiasta da mesma. Marcelo parece-me ter tentado o princípio sensato, “Em Roma, sê romano”, mas ter-se-á excedido.

***

Porém, eu também não acho justo que Marcelo tenha beijado o anel a Sua Santidade. Não contrario o princípio, “Em Roma, sê romano”, não invoco a subserviência do Estado ao Vaticano, não desprezo o facto de a Santa Sé ter sido a primeira entidade a reconhecer a independência do Reino (eram outros tempos…) e não invoco a laicidade da República ou a aconfessionalidade do Estado. Mas há um princípio fundamental: os Estados relacionam-se em pé de igualdade e é neste estatuto que dialogam e cooperam. Depois, o diálogo entre Estados não desnuda os seus representantes das roupagens pessoais. No entanto, estas submetem-se à supremacia, mesmo que meramente simbólica, do Estado.

Marcelo beijou. Não o devia ter feito, só porque representa o Estado Português e, como tal, tem responsabilidades internacionais, que deve gerir em pé de igualdade.

Não obstante, fez bem em juntar aos presentes oficiais o seu presente pessoal. Não faria sentido uma visita oficial para as dádivas oficiais e outra de caráter pessoal para as dádivas pessoais.

Finalmente, deixo uma advertência contra a hipocrisia de tantos. Consideram um ato de subserviência o beijo do anel papal. Mas não reagem àqueles cumprimentos de igualdade – beijos, abraços e pancadas nas costas – na UE e no Euro, enquanto deixam que o diretório financeiro, politicamente representado pela Alemanha, nomeadamente o seu Ministro das Finanças, e outros Estados ricos, esmague os países periféricos e dite deliberadamente normas – e vigie apertadamente a sua observância – que pretendem reduzir à miséria os países pobres da mesma UNIÃO EUROPEIA tão solidária nas palavras, mas criadora, na prática, de tão aviltantes solitariíssimas situações económicas e de luta por vida digna.

Onde estão os protestos?

2016.03.19 – Louro de Carvalho  

sexta-feira, 18 de março de 2016

19 de março, DIA DO PAI


Homenageamos:

- " os homens vítimas da violência doméstica ou social, deixando filhos  órfãos";
- os homens vítimas de discriminação na família, na sociedade, no trabalho, no salário, na vida...
- os homens que têm "duplo emprego", pois só assim conseguem o mínimo de dignidade para as suas famílias;
- os  homens que não se desligam da missão educativa;
- os homens com "filhos diferentes" ou prostrados sob o peso de vícios e dependências;
-  os homens usados como 'carne para canhão' em guerras que outros provocam;
- os homens no desemprego e os que se movimentam num grave clima de necessidade económica;
- os homens que não têm vergonha de assumir e praticar a sua fé;
- os homens atraiçoados na sua vida sentimental;
- os homens que, caindo na valeta da vida, não encontram braços que os levantem e os acolham,  porque sobraram pés para os calcarem;
- os homens maltratados, ofendidos na sua dignidade, denegridos;
- os homens abandonados, vítimas de ingratidão, entregues à sua sorte;
- os homens felizes, amados e respeitados e os  que lutam pela esperança de um mundo novo que vai chegar;
- os homens  que teimam em fazer do amor, da justiça e da paz o motor de uma nova humanidade;
- os homens que se orientam por valores e os transmitem;
- os homens persistentes, que não cedem a desistências e conservam a coragem como forma de estar na vida;
- os homens que fazem da palavra uma ponte que une e não uma parede que divide;
- os homens que descobriram que a felicidade está mais em dar do que em receber;
- os homens que vivem o serviço como nobre expressão de amor;
- os homens que tudo fazem em prol da unidade e da felicidade familiares;
- os homens crentes, atentos à voz de Deus, que ajudam os outros a descobri-l'O;
 os homens que nunca neguem o seu contributo nem o seu trabalho em prol do bem-comum;
- os homens fiéis à palavra dada, ao compromisso assumido, ao propósito feito;

terça-feira, 15 de março de 2016

As aventuras e desventuras do Jovem EMANUEL


Conto

O Emanuel não deixava ninguém indiferente. Ousava ser tudo aquilo que a consciência lhe dizia e o coração lhe segredava. Por isso, era amado e odiado. Detestava o egoísmo e a hipocrisia e isso causava-lhe sérios problemas pois o que pensava e dizia incomodava as ideias feitas das pessoas, as tradições e hábitos sociais e os costumes religiosos e políticos.
 Nascera quase por acaso numa cidadezinha do interior numa família humilde. Viveu quase toda a sua vida numa outra cidade para onde fora depois de os pais terem sido refugiados num país estrangeiro. O pai tinha uma fábrica de móveis e a mãe, que estava desempregada, dedicava-se às lides da casa e ainda cuidava do quintal e das galinhas e coelhos.
 Apesar de toda a vizinhança o considerar um bom menino, o pai e a mãe sentiam que era uma criança especial e consideravam a sua vida um dom de Deus. Andava na escola e na catequese como toda a miudagem e as suas brincadeiras e traquinices eram as normais e habituais para a sua tenra idade.
 Pelos doze anos, por ocasião das férias da Páscoa, fora com os pais numa excursão à capital e, no meio de tantos turistas, perderam-se uns dos outros. Depois de o terem procurado por todo o lado, foram encontrá-lo na catedral a falar com uns sacerdotes. Com a maior serenidade e convicção do mundo, o Emanuel disse-lhes que não tinham por que se preocupar pois já era crescidinho para saber desenrascar-se e eles sabiam muito bem que ele adorava aprender, conhecer e descobrir para ser uma pessoa culta, sendo que as questões da religião interessavam-lhe de forma especial.
O Emanuel cresceu com qualquer outra criança, adolescente ou jovem. Era muito fácil ser seu amigo pois, além de inteligente, era simpático e tinha um coração do tamanho do mundo e, tanto os pais como os amigos, sabiam que era capaz de dar a vida por eles se preciso fosse. Além de ajudar a mãe a aspirar, a limpar o pó e a tratar da bicharada, e o pai, sobretudo quando era preciso transportar e montar mobília nas casas das pessoas, gostava muito de estudar, ler, jogar no computador e no tablet e ainda tinha tempo para o grupo de jovens da catequese, para o escutismo e para o voluntariado, no qual gastava muito do seu tempo.
 Apesar de apreciar divertir-se com os amigos num bar, numa esplanada ou nas festas populares das povoações vizinhas, viam-no muitas vezes sozinho a contemplar a natureza e a rezar. Nunca namorou mas todos o viam entusiasticamente apaixonado pela vida, pelas pessoas, pelo conhecimento e pelo seu Deus.
 Todos o admiravam pela sua forte personalidade. Fazia sempre e unicamente aquilo que queria e não se deixava influenciar facilmente. Sabia pensar e dialogar com toda a gente e fazia-o com um respeito sagrado pelas opiniões e maneiras de ser e estar dos demais.
Um dia, o pai morreu de doença prolongada e o Emanuel sentiu-se sem chão. Aquele que o educara e criara com a mãe partira e parecia que a vida deixara de ter sentido. Sofreu muito nessa ocasião e partilhou intimamente com a mãe essa fase delicada e dolorosa.
Após ter concluído o seu curso superior, não lhe apetecia mesmo nada encaixar-se numa sociedade que considerava ser muitas vezes materialista e desumana. Não queria sentir-se uma peça mais de uma engrenagem mecânica sem alma. Não desejava ser mais um numa estrutura anónima e sem rosto, onde imperava o egocentrismo, a maldade e a injustiça e a vida sem esperança e sem futuro.

O sonho do Emanuel era ter um papel ativo na renovação e transformação da sociedade. Não podia cruzar os braços e assobiar para o lado como se a construção de um mundo melhor fosse uma utopia ou estivesse apenas nas mãos dos políticos ou nas leis e promessas das religiões.
A mãe do Emanuel sentia que o filho ganhara asas mas via-o como um pássaro preso numa gaiola. Um dia, chamou-o e disse-lhe:
- Filho, vai! Acredito que Deus tem para ti grandes planos pois nasceste para coisas grandes. Já nada te prende aqui pois és um cidadão do mundo. A sociedade será melhor e ficará diferente contigo. Tu não és meu. Tu és de Deus que te deu a vida e te chama a libertar a humanidade das trevas em que caminha sem sentido. Anuncia boas novas, denuncia o mal e, sobretudo, ama a todos sem exceção e sem medida até à morte.
O Emanuel ficou comovido e sem palavras e, depois de um longo abraço à mãe, pegou numa mochila com meia dúzia de coisas e saiu de casa. Teria uns trinta anos e chegara o momento de fazer alguma coisa mais interessante e radical pelos outros.
 O Emanuel adorava a natureza e gostava muito de caminhar por entre montanhas e vales em vez de utilizar os transportes públicos. Gostava muito de acampar junto ao mar, rios e lagos. Não dispensava surfar umas ondas e pescar longas horas enquanto meditava e orava. O que ele queria era conhecer pessoas e descobrir novas terras. Não acreditava que Deus só gostasse da sua família ou das pessoas da sua terra. Por todo o lado, encontrava gente, culturas e tradições lindas que muito admirava.
 Foi conhecendo muita gente e de algumas pessoas se fez amigo. Tinha a virtude de não dar importância ao exterior das pessoas e privilegiava o que eram no seu coração. A verdade é que, passadas algumas semanas, eram já doze os amigos que tinham deixado tudo para estarem com ele e viverem o mesmo estilo de vida e a mesma filosofia existencial.
O Emanuel gostava de contar histórias cheias de sumo que a todos interpelava e desafiava. Mais que dar lições de moral ou dar respostas às perguntas que lhe faziam, preferia provocar a reflexão, fazer pensar, questionar, desafiar, propor. A sua maneira de ser tornava-o cativante e a sua fama crescia a olhos vistos. Muitos ouviam falar dele e iam ao seu encontro, julgando tratar-se de um reputado político, professor, psicólogo ou médico. A todos recebia com afeto e dava a entender que o essencial era invisível aos olhos e que só se conseguia ver bem com o coração e afirmava que a racionalidade e a Ciência eram incapazes de perceber toda a realidade, dar sentido à existência humana e garantir a felicidade. A todos convidava a olhar para o céu mas com os pés bem assentes na terra.
Àqueles que conheciam a família do Emanuel custava-lhes acreditar que daquela cidadezinha da montanha pudesse ter saído alguém como ele e havia quem achasse que ele devia estar louco. A verdade é que o Emanuel não se limitava a fazer desportos radicais com os seus amigos mas a sua vida mesma era radical na forma de ser e estar diante dos outros e de Deus. A sua existência era um verdadeiro milagre sobretudo para aqueles que mais sofriam e eram marginalizados pela sociedade.
A polícia começou a preocupar-se com a confusão que se gerava por onde quer que o Emanuel andasse. Ele percorria todas as aldeias, vilas e cidades e não havia shopping, estádio de futebol, igreja, biblioteca ou praça que não recebesse a sua visita. Todos o queriam ver e ouvir. Como estava frequentemente com pessoas moralmente condenáveis pela sociedade, diversas vezes era chamado à esquadra da polícia para prestar depoimento. Era acusado de cumplicidade com vários criminosos pelo facto de ser visto nas suas casas e porque no seu grupo de amigos existiam também algumas pessoas com um passado duvidoso.
 As autoridades políticas andavam também muito perplexas com o que se dizia do Emanuel. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro reuniram-se de urgência e até os deputados da Assembleia da República discutiam o assunto com especial vigor. Se as coisas continuassem daquela maneira, seria como uma bola de neve com consequências imprevisíveis. Dado o carisma e o poder de liderança que o Emanuel evidenciava, facilmente poderia organizar uma rebelião, um ataque terrorista, um golpe de estado. O Emanuel era um perigo público e havia que andar de olho em cima dele e das movimentações dos seus discípulos.
Como o Emanuel falava com regularidade de Deus, os líderes religiosos também andavam em pulgas. A verdade é que a forma como falava e, sobretudo, como agia, seduzia muita gente e muitos viam os seus dogmas e as suas instituições ameaçadas. Começaram a considerá-lo um blasfemo e um herege porque ousava pôr em questão hábitos, costumes e tradições.
O Emanuel atrevia-se a invocar Deus, que era o Senhor da Terra e dos Céus, o Omnipotente, Omnisciente e Omnipotente, como Pai e defendia que toda a humanidade era chamada à salvação e não só alguns eleitos. Além disso, questionava o aparente exibicionismo e a superficialidade de certos cultos religiosos, defendendo que mais importante que cumprir regras e leis institucionalizadas, aquilo que era essencial era amar a Deus acima de toda a realidade e aos outros como a nós mesmos.
 Muitos viam-no como um infiel que traíra os valores em que se alicerçava a fé da maior parte das pessoas e acusavam-no de ter fundado uma seita e de se julgar um profeta, um filósofo ou um revolucionário que falava em nome de Deus. E diziam-lhe que o melhor que tinha a fazer era desaparecer do mapa. Se não fosse a bem, teria que ser a mal.
 O que era incrível era que o Emanuel parecia não temer nada nem recear ninguém. Falava com um desassombro impressionante do Reino de Deus e da necessidade e importância de as pessoas se purificarem, serem melhores e mudarem de vida. Somente assim poderiam ser felizes e salvar-se.
Depois de ter saído de casa havia uns três anos sensivelmente, o Emanuel desafiou os amigos a visitar a capital pois podia ser uma forma interessante de viver as celebrações pascais. Acharam a ideia espetacular, apesar de considerarem que as reações da população poderiam ser imprevisíveis. Lá foram e ficaram surpreendidos com o acolhimento festivo de muita gente que incluiu bandeirinhas, cartazes e foguetes.
 A notícia da presença do Emanuel na cidade era o assunto do momento e a discussão generalizada estava instalada, não havendo ninguém que não tomasse partido a favor ou contra. A imprensa explorou o tema até à exaustão e o sensacionalismo, a contrainformação e os lobbies faziam-se sentir mais que nunca. Multiplicaram-se os programas de televisão e de rádio com acesas conversas sobre o que o Emanuel pensava, dizia e fazia. Ele procurava manter-se afastado de toda aquele pandemónio mas ele e os seus amigos sentiam o aumento das vozes daqueles que lhe desejavam fazer mal.
Numa noite em que jantava com os amigos, o Emanuel disse-lhes que temia pela sua vida. Nunca tinha feito mal a ninguém mas a verdade era que havia muitos que não gostavam dele. Disse-lhes que jamais esquecessem aquela noite e aquela refeição, falou-lhes na importância do Amor e insinuou que, ao contrário de Deus que nunca nos abandona, os homens e até aqueles que consideramos amigos, podem abandonar-nos e trair-nos. Todos olhavam uns para os outros com um ar enigmático.
No final do jantar, o Emanuel convidou os amigos a ir dar uma volta até um jardim das redondezas e a tomar um café. Depois de lá estarem sentados e deitados na relva havia algum tempo e quando alguns já revelavam sono, um dos amigos do Emanuel chegou com vários polícias. Prenderam-no de forma rude e levaram-no para a esquadra. De consciência tranquila, o Emanuel não ofereceu resistência nem gritou por socorro.
 Havia denúncias de participação em roubos, tráfico de droga e armas e conspiração com pessoas de má reputação. Algumas autoridades religiosas censuravam-no por estar a destruir o edifício dogmático vigente e defendiam a ideia de que o que merecia era a morte.
Levaram-no a tribunal e o juiz também o questionou sobre o que dizia e fazia. O Emanuel sorria com serenidade e em silêncio e, após insistência, dizia que nada tinha feito de mal e que apenas acreditava num reino diferente dos reinos deste mundo.
Apesar de ser um assunto de justiça, o representante do governo metia a sua colherada e queria inteirar-se de toda a situação e também interrogava o Emanuel. Nem o poder político nem o poder judicial descortinavam propriamente maldade alguma nele nem havia provas evidentes de que estivesse culpado. Mas, diante das enormes pressões populares e institucionais, preferiram lavar as mãos daquela situação e o Emanuel foi condenado e enviado para a prisão.
 À saída do tribunal, muitos começaram a vociferar contra ele e a esbofeteá-lo, com a indiferença da polícia e diante de inúmeros jornalistas e câmaras de televisão.
Nas instalações prisionais, era maltratado frequentemente pelos guardas e até os outros prisioneiros se metiam e gozavam com ele. Havia uns poucos que simpatizavam com o Emanuel mas a maior parte cuspia-lhe, pontapeava-o, dava-lhe murros e ofendia-o. Não respondia com a mesma moeda pois queria ser fiel aos seus valores e aos princípios em que acreditava e alguns prisioneiros ouviam-no dizer baixinho, de vez em quando:
- Perdoa-lhes Pai, porque não sabem o que estão a fazer!
 Por volta das três da tarde, depois de uma valente tareia no pátio da prisão, olhou para o céu e caiu para o chão, ficando ali estendido morto de braços abertos.
 Quando os amigos e familiares do Emanuel souberam do sucedido, ficaram incrédulos, consternados e desesperados e foram buscá-lo. A sua mãe estranhou ao ver a sua mão direita fechada e, abrindo-a, viu dois pequenos paus unidos com um baraço em forma de cruz. Lembrou-se imediatamente que fora o seu marido que lhe oferecera em criança.
 Após as formalidades legais, a agência funerária levou o corpo do Emanuel e fez-se o funeral. A mãe do Emanuel estava desolada e não tinha nem lágrimas nem palavras. Aparentava uma serenidade que parecia querer dizer e acreditar que aquilo não era o fim da vida do filho.
 A notícia da morte trágica do jovem Emanuel abriu os telejornais e foi capa de jornais em todo o mundo. Durante muito tempo não se falou de outra coisa e havia a convicção generalizada de que o mundo não voltaria a ser o mesmo. Mais do que matarem o Emanuel, o que acontecera mesmo fora ele próprio ter querido dar a sua vida.
 O Emanuel tinha concluído a sua existência como a tinha vivido. A fé, as convicções e a coerência de uma vida pautada pelo amor e pelo altruísmo jamais seriam esquecidas e muitos quiseram seguir e imitar a sua maneira de pensar e viver a vida e sentiam-no mais vivo e presente que nunca. Uma pessoa tão singular como o Emanuel viveria para sempre nos corações daqueles que tiveram o privilégio de conhecer a sua mensagem e o consideraram um verdadeiro filho de Deus.