terça-feira, 31 de maio de 2016

A beleza da vida faz-se de pequenos gestos

Contratos de Associação – A batalha errada?

Dois pontos prévios… 1) Toda a vida andei em colégios particulares, nenhum dos quais com contrato de associação, mas tirei o curso numa universidade pública. Não é que isso seja particularmente importante, mas é para não me virem acusar de nada.
2) Os meus filhos andam num colégio privado, sem contrato de associação, pela simples razão de que a minha mulher trabalha na instituição e por isso é-nos simultaneamente mais prático e ao mesmo tempo economicamente viável por causa do desconto de que beneficiamos.

Dito isto, quero deixar claro que sou simultaneamente um ignorante em matéria de política educativa e também o maior especialista do país em política educativa. Não percebo nada da legislação nem dos programas escolares, ignoro as guerras dos professores e da Fenprof bem como o que se passa no Ministério. Mas enquanto pai de quatro alunos, com um quinto a caminho, sou o maior especialista que existe sobre aquilo que quero da sua educação e aquilo que espero para eles na escola.

Com estes preliminares esclarecidos, vamos á questão do momento… Os contratos de associação.

Pelas redes sociais e também pelas caixas de comentários das notícias da Renascença, que por vezes preciso de moderar, vejo que reina uma ideia muito simplista sobre esta disputa.

A ideia que se espalhou é que o Governo anda a sugar o tutano das escolas públicas para ajudar os donos dos privados a construir piscinas olímpicas para meninos ricos. Mas não… Na verdade o que está em causa, tanto quanto consigo perceber, é o entendimento que privados e Ministério fazem de um contrato assinado há um ano sobre o financiamento de turmas. É uma disputa jurídica e que provavelmente será decidida em tribunal.

Pelo meio há várias coisas que me parecem evidentes:
1)      Que os mais directamente afectados pelo corte do financiamento nos colégios serão os alunos com menos recursos.
2)      Que provavelmente existem mesmo casos de abusos, tendo sido assinados contratos de associação com colégios que não deveriam ter direito a isso.
3)      Que isto não pode ser uma simples guerra esquerda-direita, porque se fosse os autarcas do PS não estariam do lado dos colégios dos seus concelhos.
4)      Que em muitos casos os colégios que estão a ser ameaçados, longe de serem ninhos para as classes privilegiadas são espaços onde se aceitam os alunos mais difíceis, ou com necessidades especiais, e com jovens de todos os extractos sociais, onde o ensino é excelente.
5)      Que me cheira muito a esturro o facto de o Governo (os sucessivos governos) se recusarem a dizer exactamente quanto dinheiro custa ao Estado um aluno no público, já que sabemos já quanto custa nos colégios privados.

Mas claro que esta questão jurídica dos contratos de associação entronca numa disputa muito maior e é essa que me parece grave. Que visão é que temos do ensino em Portugal?

Nem isto...
A extrema-direita e a esquerda mais radical (que tem vários ganchos no PS) encara a educação como um instrumento para promover a igualdade. Para eles haveria apenas um programa, um sistema escolar, um pensamento. E o responsável por tudo isto deve ser, claro está, o Estado, todo-poderoso e omnisciente. Espanta-me como as mesmas pessoas que se queixam do Estado por tudo e por nada aceitam sem pestanejar que os burocratas que pelos vistos não pensam em mais nada se não roubá-los diariamente são os que se encontram mais bem colocados para educar os seus filhos.

Quer isto dizer que sou contra o ensino público? Claro que não! O ensino público e tendencialmente gratuito tem sido uma enorme benesse social. O que contesto é a monopolização do ensino por parte do Estado e a ideia de que devemos confiar cegamente não só neste Governo mas em todos os Governos, para toda a eternidade, como se fosse impossível voltar a ver um Estado totalitário e mau, no sentido mais puro da palavra.

Contra esta posição está a minha (que não me parece especialmente de esquerda ou de direita) que considera que o primeiro e último responsável pela educação dos meus filhos sou eu e a minha mulher. E que o Estado faz muito bem em querer educar as crianças do país, mas deve fazê-lo sempre em conjunto com os pais, e nunca contra eles.

É por isso que a Igreja, para espanto de muitos, está nesta luta. Porque esta é a visão da doutrina social da Igreja sobre a educação, como o Papa deixou muito claro na sua última exortação apostólica. Não se trata apenas de defender privilégios (até porque a maioria das escolas com contrato de associação não são católicas e a maioria das escolas católicas não tem contrato de associação), trata-se de combater aquilo que na sua perspectiva – e na minha – está na verdade por detrás desta tomada de posição do Governo, um ataque à subsidiariedade na educação.

Dito isto, o que acho em particular desta batalha dos contratos de associação? Acho, acima de tudo, que esta é a batalha errada…

Compreendo a luta dos colégios, estão em muitos casos a lutar pela sua sobrevivência, mas para mim isto resolvia-se de forma mais justa com a implementação simples do cheque escolar.

...nem aquilo.
Para quem não sabe, já vários países usam este método e este, sim, dá verdadeira liberdade de escolha às famílias, e não apenas às que vivem perto de uma escola com contrato de associação.

A ideia é simples. Eu pago (números inventados, obviamente) 400 euros por ano de impostos para a educação. Cada aluno custa ao Estado, no ensino público, 300 euros por ano. O Estado dá a cada família um cheque ensino por filho, no valor de 200 euros por ano. Se eu quiser inscrever os meus filhos num colégio, o cheque ensino serve para abater no custo das propinas. Se quiser mantê-los no ensino público, o cheque fica na gaveta, uma vez que unicamente pode ser usado para ensino. Mesmo que use o cheque, continuo a contribuir para o sistema público, e bem.

Se eu quiser colocar os meus filhos num colégio católico, posso. Se os quiser mandar para o colégio islâmico de Palmela, posso. Se os quiser meter na Escola Karl Marx Lenin, força! Desde que aprendam um conjunto de matéria básica essencial e moralmente neutra, o resto é comigo e com os pais de cada criança.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Aonde nos leva o discurso dos erros capitais da governação?


Parece que não temos mais alternativa que não seja oscilar entre o “otimismo crónico por vezes irritante” de António Costa (assim o caraterizou Marcelo Rebelo de Sousa) – alegadamente fruto de aposta de Costa no professor sobre classificação académica no tempo em que o ora Primeiro-Ministro era estudante e aluno de Rebelo de Sousa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa – e o inefável “realismo irritante” de Passos Coelho, o pretenso modo como os outros o caraterizam, segundo o que próprio enunciou.  

A este respeito, será redundante anotar que o “otimismo agudo” que Passos Coelho revelou ao tomar conta da governação do país, em 2011, que lhe permitia estar à vontade governando com o FMI ou ir além da troika, não por esta, mas “por nós”, fundava-se no “realismo irritante” com que o então novel Primeiro-Ministro encarava o exercício governativo do antecessor. Terá sido um realismo tão eloquente que o levou a provocar eleições antecipadas para, segundo as más-línguas, não ter de as sofrer dentro do seu partido. Poderíamos, de outro modo, entender que o líder do PSD, que secundou a viabilização de um PEC do XVIII Governo, com aumento de impostos, em maio de 2010, servindo metaforicamente de par na dança do tango com José Sócrates (atitude de que veio a pedir desculpa aos portugueses por ter rompido a promessa de não viabilizar nenhum aumento de impostos), se limitou a corresponder ao repto do então Presidente Cavaco, que no seu discurso de posse para o exercício do segundo mandato presidencial apelou ao sobressalto democrático. Tal resposta consistiu na não aprovação do PEC 4, facto político que levou à demissão do XVIII Governo e, consequentemente, à dissolução da Assembleia da República e marcação de eleições legislativas antecipadas.

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Conversados que ficamos sobre o otimismo dos governantes, para eleitor português consumir, mas mascarando o pessimismo que a governação traz ao quotidiano dos órgãos de soberania e dos analistas (e não vale a pena o professor Marcelo lamentar-se, que a especulação é uma tentação recorrente, a que ele próprio não escapou tantas vezes), é tempo de passar a comentar “os 17 erros capitais de António Costa”, segundo Passos Coelho.

Não sei se aquelas pessoas que trazem para a apreciação política elementos da religião e da moral sabem, de facto, do que estão a falar no atinente a esses campos de que pretendem importar categorias classificativas.

A propósito da governança de Guterres, um bispo bem conhecido na praça pública declarara que o Governo tinha apenas cometido uns pecados veniais, obviamente em comparação com os governos de Cavaco Silva. Mas esse mesmo bispo, entrevistado no programa televisivo “Parabéns”, de Herman José também se referiu de forma deselegante ao conteúdo dum almoço que o então Primeiro-Ministro e líder do PSD lhe oferecera (arroz de tomate com jaquinzinhos – achando disparatado o facto de o anfitrião lhe perguntar se queria um digestivo); e, quando o apresentador do programa insinuava que também os bispos tinham pecados, limitou-se a perguntar “quem os não tem”, podendo ter aproveitado para distinguir entre tentação (a que todos estamos sujeitos, incluindo Cristo) e pecado, em que incorre quem quer, por maldade ou por fraqueza. Ora, Cristo foi tentado, mas não pecou.

Passos Coelho importou os 17 erros capitais da governação de Costa do elenco dos sete pecados ou vícios capitais enunciados pelo cristianismo: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Estes são considerados “capitais” ou “mortais”, porque vêm à cabeça e são origem de todos os outros, ou seja, comandam o aparecimento dos demais e eram a morte “espiritual”. São sete e não menos nem mais, apenas por uma razão simbólica: sete é o número da perfeição, somando os quatro atributos típicos do homem e os três referentes a Deus. Assim é que se enumeram quatro virtudes humanas, típicas do homem de caráter (prudência, justiça, fortaleza, temperança) – também chamadas “cardeais”, porque as demais gravitam em torno destas, e depois as três virtudes teologais (fé, esperança e caridade) com origem em Deus e com referência a Deus, mas com repercussão na relação com o próximo e com a comunidade. E Cristo manda que se perdoe não até 7 vezes, mas 70 vezes sete (isto é, sempre). Ora, se o número sete é simbolicamente perfeito no caso da virtude, também o há de ser no caso da falta de virtude, no vício. No entanto, contra os sete vícios ou inclinações para o mal, que podem levar ao pecado (que é sempre obra da vontade, porque, a não o ser, não é pecado, embora possa ser mal ou erro), enunciam-se sete virtudes: humildade, liberalidade, castidade, paciência, caridade e diligência.

Só peço que não se confunda nunca liberalidade (generosidade) com liberalismo, castidade (autorregulação, moderação) com aniquilação de sentimos e energias, paciência (capacidade de sintonizar com o outro e entregar-se por ele) com resignação, e caridade (solidariedade à semelhança da de Deus, espontânea e estruturante) com caridadezinha a substituir a justiça, autossatisfazendo o prestador e criando dependências no próximo, a quem se devem 7 obras de misericórdia corporais e 7 obras de misericórdia espirituais (aliás tudo o que se possa fazer por ele)!

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Passos Coelho pode ter as suas razões e fundamentos para traçar um cenário nigérrimo dos primeiros 6 meses de governação socialista, questionar os números do Governo e criticar as políticas e falar em declínio da nossa democracia. Tem esse direito, se é isso o que efetivamente pensa e sente, mas não apenas se o faz para regressar à direção executiva do poder soberano. Além disso, deve enunciar as consequências de forma clara e, sobretudo, contrapor aos preditos 17 erros capitais as 17 virtudes correspondentes. É que o problema não se resolve apenas com a crítica ou com a injeção ou não de mais Estado na sociedade e na economia, com o emagrecimento das gorduras do Estado ou com a entrega de serviços públicos aos privados e com as parcerias. Será que o cenário traçado por Passos configura erros capitais, ou seja, estarão na origem dos demais erros? E, a ser verdade, quanto e quais são os erros derivados? 

O ex-Primeiro-Ministro denuncia como seis erros capitais: o parco crescimento económico do país; a queda do investimento privado; a redução das exportações; a deterioração do saldo externo do país; a destruição de 62 mil postos de trabalho entre o final de 2015 e o 1.º trimestre de 2016; e o aumento das taxas de juro das obrigações portuguesas, que deixaram o país “mais perto daqueles de quem se pretendia distanciar, como é o caso da Grécia”. E isto sintetiza-se na “deterioração dos principais indicadores económicos”, que Passos diz que vem logo à cabeça.

Quero dizer que não se trata de erros capitais, mas de elementos negativos de caraterização da situação do país. Era preciso que ex-governante e agora analista dissesse qual a causa inequívoca disto – interna e/ou externa – e as consequências desta situação a curto, a médio e a longo prazo. Caso contrário, estamos perante o fenómeno e retórica política adequada a quem incumbe o esforço de oposição, já que detém o respetivo estatuto.

Vem, a seguir, mais uma “tranche” de cinco erros capitais, com a indicação do vício original e com as consequências: as reversões feitas nos transportes urbanos de Lisboa e do Porto, com a consequente permanência da instabilidade gerada pelo abuso no exercício do direito à greve e regresso “às necessidades de dispêndio público exagerado”; a reversão a 50% da privatização da TAP, com o Governo a atirar “pela janela” os esforços de “20 anos” para resolver o problema da companhia (Queriam mesmo resolver o problema a sério?); as alterações à Lei do Arrendamento; a reestruturação do setor das águas; e a reposição dos feriados.

Como causas desta situação, que Passos está no seu direito de considerar como erros (não sei é se são capitais), apresentam-se: o “capricho político” e a política de devolução de rendimentos que o líder socialdemocrata considera errada. E, como consequências, teremos o abuso do exercício do direito à greve e a necessidade de maior e excessivo dispêndio público, já referidos, bem como o risco da “evolução da produtividade” e da “competitividade” na economia”.

Vêm depois os outros seis: a contrarreforma do IRC (que põe “em causa as expectativas dos investidores”); a “desastrada reposição das 35 horas” na administração pública (diga-se, em abono da verdade, que o aumento de 5 horas semanais de trabalho representou mais um corte de 15% do salário a juntar aos demais cortes salariais e subsídios); a “subversão dos mecanismos de seleção e recrutamento dos dirigentes da Administração Pública” (com o enchimento da Administração Pública de boys socialistas); “o fim anunciado dos programas Descentralizar e Aproximar, o que suscita incerteza e gera desconfiança para o futuro”; as reversões feitas na Educação e na Saúde; e a deterioração da relação com Europa.

Passos Coelho coloca como pano de fundo originário destes erros, para lá do capricho, que soa a pouco, a política assente no “taticismo” e na “manipulação intelectual”. Como tática, Costa apresenta-se, segundo Passos, “com a bandeira do diálogo e da concertação numa mão” e com a outra a “calar os críticos e mascarar a realidade”. Assim, “no Parlamento, a arquitetura engendrada pela maioria resulta sistematicamente no chumbo de propostas apresentadas pelo PSD e também pelo CDS”. E, como sequelas, resultam, segundo Passos: o declínio social, económico e político e a degradação das “condições democráticas” da vida política portuguesa.

***

O ex-Primeiro-Ministro disse muitas coisas, mas nada que seja exclusivo desta governação, quer se trate do rompimento com políticas anteriores, enxameamento de boys partidários, quer seja se trate de inovação a meio de reformas em curso. Nem esta maioria parlamentar se tem revelado mais frágil que a maioria anterior (ainda há quem tenha memória dos episódios da XII legislatura), se bem que diferente (e mais oscilante) da maioria sustentada num só partido. Porém, torna-se escandaloso, contra os interesses nacionais, esta supina tentativa de incondicionalmente ajoelhar ante as exigências europeias e as suas ameaças de penalização, bem como de aceitar o adiamento de sanções a ver o que se passará com as eleições em Espanha.

Ora, se os portugueses não têm perante o diretório europeu uma posição concertada, como é que pretenderão concitar o apoio de outros países?   

Quanto ao mais, só com forte abanão, sairemos do mecanismo sociopolítico de o Governo vigente lançar culpas para o anterior e a oposição fazer julgamentos negativos sobre o Governo em funções.

2016.05.25 – Louro de Carvalho  

quarta-feira, 25 de maio de 2016

AVÔ

Dez escudos... ..deliciosos!


O avô conta ao seu neto João as grandes mudanças que aconteceram na sociedade, desde a sua juventude até agora...

« Sabes, João, quando eu era pequeno, a minha mãe dava-me dez escudos = (+/-) 5 cêntimos de euro hoje, e com isso mandava-me à mercearia da esquina.
Então eu voltava com um pacote de manteiga, dois litros de leite, um saco de batatas, um queijo, um pacote de açúcar, um pão e  uma dúzia de ovos..!"
E o João respondeu-lhe:
«Mas avô, na tua época não havia câmaras de vigilância?»   



terça-feira, 24 de maio de 2016

sábado, 21 de maio de 2016

Notícias de toda a parte

Cancro – Uma equipa de cientistas dos Estados Unidos descobriu um composto químico que faz com que as células cancerígenas se autodestruam, revela um estudo publicado há dias na revista Proceedings of The National Academy of Sciences.
O novo composto químico actua sobre as células cancerígenas com mais precisão do que qualquer tratamento existente, segundo a investigação realizada por cientistas da organização biomédica The Scripps Research Institute, na Florida.


Madeira transparente – Uma equipa de investigadores suecos desenvolveu uma madeira que poderá vir a substituir o vidro em várias estruturas de construção como, por exemplo, janelas e fachadas.
Segundo a BBC, o novo material foi criado pelo Real Instituto de Tecnologia sueco (Kungliga Tekniska Högskolan – KTH), sediado em Estocolmo, e pode reduzir de forma significativa os custos de produção de painéis solares.

Um muçulmano na Câmara de Londres O Partido Trabalhista garantiu a vitória do seu candidato Sadiq Khan à Câmara Municipal de Londres. Será o primeiro presidente de câmara muçulmano numa capital da União Europeia. Sadiq prometeu dar resposta aos problemas da cidade, cuja população aumentou 900 mil habitantes em oito anos, tendo alcançado um total de 8,6 milhões, dando origem ao aumento da poluição, transportes superlotados e habitação inacessível.

Aumento da natalidade – Estão a nascer mais bebés em Portugal. Nos três primeiros meses de 2016, o número de nascimentos subiu 7% face ao ano passado.

Eutanásia O Presidente da Assembleia da República recebeu no dia 26 de abril uma petição pública pela despenalização da eutanásia, assunto que merece total discordância da Igreja Católica. Recorde-se que os bispos portugueses manifestaram a sua "total rejeição" de uma eventual legalização da eutanásia. "A Igreja nunca deixará de defender a vida como bem absoluto para o homem, rejeitando todas as formas de cultura de morte", afirmam numa pastoral.

Em risco os acordos com o Ensino Privado e Cooperativo Alunos, professores, pais e encarregados de educação, das escolas do ensino privado e cooperativo, em protesto contra o fim ou alteração dos contratos de associação, entregaram 50 mil cartas ao Primeiro-ministro e outras 50 mil ao Presidente da República.

Fonte: aqui

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"Vais levar umas palmadas! És muito mau!"


Casa de pais, escola de filhos
Li uma pequena narrativa de uma mãe – já não sei onde – mas que me impressionou muito. Dizia mais ou menos assim:
«Estava eu na cozinha a preparar a refeição, quando ouço a minha filha aos gritos, a ralhar com alguém: – Vais levar umas palmadas! És muito mau!
Pensei que a miúda estava a querer bater no irmão mais novo, ainda bébé, que chorava convulsivamente.
Afinal a Rita ralhava com o seu boneco e atirou-o contra a mesa do quarto, quebrando estrondosamente uma peça de porcelana.
Entrei, ralhei com ela e ameacei bater-lhe. A pequena disse-me que o boneco não lhe tinha deixado vestir o casaco, por isso tinha berrado com ele e o tinha atirado contra a parede».
Aquele episódio tinha aberto os olhos àquela mãe. Tinha de ter mais cautela como lidava com as pessoas de casa.
As crianças aprendem o mal e o bem na família. As palavras e as atitudes agressivas marcam profundamente os filhos. Uma criança tratada com carinho será carinhosa. Ameaçada com berros e pancada, irá um dia fazer da mesma forma.
Não mais esquecerei aquela entrevista radiofónica com crianças maltratadas na família. Um deles dizia que queria ser grande para fazer como o pai, que batia na mulher e nos filhos.
Do trato nervoso com as crianças só há que esperar jovens rebeldes e mal educados. Afinal como diz a palavra «mal-educado». Não se educa bem se não com carinho. A disciplina é fundamental mas inculca-se com persistência e amor.
A boa ou má educação é sobretudo a de casa. A outra terá os seus efeitos positivos ou negativos mas menos essenciais.
Fonte: aqui

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ópio do povo

A religião, ópio do povo. Porque a quem sofria dores, humilhações, doenças, escravidão, prometia uma recompensa na vida após a morte. Na transformação a que estamos a assistir, pode ocorrer o contrário. O verdadeiro ópio do povo é crer no nada após a morte. Dá um conforto enorme a ideia de que pelas nossas infâmias, ofensas, velhacarias e assassinatos não seremos julgados.
Apesar de ter sido premiado com o Nobel em 1980, Czeslaw Milosz, escritor polaco, nascido em 1911 na Lituânia e que até à sua morte, em 2004, viveu sobretudo nos EUA, não é um autor muito conhecido. É de uma sua recolha de pensamentos que extraí aquela consideração cortante. 
Diferentemente da religião «ópio dos povos», como dizia o velho Marx, ópio é a ilusão «disseminada a mãos largas pelo consumismo e pela imortalidade contemporânea» que não deve haver juízo sobre as nossas ações. Esta condição de impunidade é uma espécie de droga que obscurece a consciência e deixa a mão livre para qualquer ação, mesmo a mais cruel e vergonhosa. 
É verdade que a religião não é só a do juízo; mas não seria mal se se voltasse a realçar o Decálogo, se se reafirmassem as fronteiras entre bem e mal, se se falasse ainda da justiça divina. 
O escritor italiano Antonio Baldini dizia que a religião oferece sempre um grande conforto. Mas ela é também e sobretudo compromisso severo, inquietude da alma, coerência exigente.
Fonte: aqui

terça-feira, 10 de maio de 2016

As principais vítimas da troika foram os mais pobres


Decorreu, a 9 de maio, no Hotel Santarém, na cidade do mesmo nome, o Encontro Nacional de Associados da Rede Europeia Antipobreza, sendo este um dos modos de assinalar o 25.º aniversário da sua presença em Portugal. O tema do evento foi “A luta contra a pobreza e a exclusão social nos últimos 25 anos: conquistas e desafios”. E o objetivo foi:

Promover a reflexão estratégica sobre a intervenção da organização no combate à pobreza e à exclusão social, envolvendo alguns parceiros fundamentais para a definição duma atuação conjunta e concertada em torno da situação atual, contemplando os principais desafios, orientações e estratégias que a luta contra a pobreza e a exclusão social exige a nível nacional e europeu.

Antes de mais, é refira-se que a EAPN – European Anti Poverty Network (Rede Europeia Antiobreza) é tida como a maior rede europeia de redes nacionais, regionais e locais de ONGs, bem como de organizações europeias ativas na luta contra a pobreza. Criada em Bruxelas, em 1990, a EAPN está atualmente presente em 31 países, entre os quais se conta Portugal.

Estabelecida, a 17 de dezembro de 1991, a EAPN Portugal é reconhecida como Associação de Solidariedade Social de âmbito nacional, obtendo em 1995 o estatuto de ONGD (Organização Não Governamental para o Desenvolvimento). Sediada no Porto, estende a sua ação a todo o país através de 18 núcleos distritais. Em 2010, a Assembleia da República atribuiu-lhe o Prémio Direitos Humanos, por decisão unânime do júri, constituído no âmbito da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. O encontro de Santarém, que decorreu em conformidade com o programa atempadamente delineado e divulgado, constou de:

Sessão de Boas-vindas, com a participação do padre Jardim Moreira, Presidente da EAPN Portugal, Cláudia Joaquim, Secretária de Estado da Segurança Social, e Ricardo Gonçalves, Presidente da Câmara Municipal de Santarém;

Conferência de Abertura, “A Evolução recente dos Indicadores de Pobreza e de Exclusão Social”, por Carlos Farinha Rodrigues – ISEG;

I Painel: “A luta contra a pobreza e a exclusão social nos últimos 25 anos: conquistas e desafios”, com a participação José Alberto Reis, Vice-presidente da EAPN Portugal, moderador, Sandra Araújo, diretora executiva da EAPN Portugal, Sérgio Aires, da EAPN Europa, Joaquina Madeira, Coordenadora do Núcleo de Lisboa da EAPN Portugal, Cidália Barriga, Representante do Conselho Nacional de Cidadãos, e Edmundo Martinho, Vice-provedor da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa;  

Filme: “Os 25 anos da EAPN Portugal”

II Painel: “Apresentação do estudo “O Impacto da Crise no 3.º setor”, por Paula Cruz e Fátima Veiga, da EAPN Portugal – promovido pela EAPN Portugal em parceria com a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;

Mesa-Redonda: “O Impacto da Crise no 3.º setor”, com a participação de Vítor Malheiros, do jornal Público, moderador, Paula Guimarães, da Fundação Montepio, Sílvia Ferreira, da Faculdade de Economia de Coimbra, Eduardo Graça, da CASES, e Carlota Quintão, da A3S.

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É de esclarecer, num breve parêntesis o que são a CASES e a A3S.

As grandes linhas definidoras da missão da CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social) são: reconhecer, promover, dinamizar, fortalecer e qualificar o setor da economia social.

Assente numa parceria efetiva entre o Estado e organizações representativas do setor da economia social e assumindo a forma jurídica de “cooperativa de interesse público”, a CASES tem por objeto a promoção do fortalecimento do setor da economia social, aprofundando a cooperação entre o Estado e as organizações que o integram, e pretende estimular o potencial do setor da economia social e das suas organizações, em prol do desenvolvimento socioeconómico do país, sob a orientação de 4 eixos estratégicos:

Colocação da economia social na agenda política nacional através da promoção do reconhecimento legal e institucional do setor;  reforço da aliança entre o setor da economia social e o Estado através da revitalização de modelos de interação entre o Estado, a sociedade civil organizada e o mercado; desenvolvimento de um conjunto de programas destinados a promover a criação de oportunidades para a modernização do setor da economia social; e promoção e apoio do empreendedorismo social e estímulo da capacidade empreendedora dos/as cidadãos/ãs e das organizações, visando o desenvolvimento sustentável.

Por seu turno, a A3S (associação para o empreendedorismo social e a sustentabilidade do terceiro setor) tem como principais objetivos, entre outros, a promoção do empreendedorismo social de base coletiva, do conhecimento e reconhecimento do terceiro setor, do trabalho em rede entre organizações e a prestação de serviços de consultoria.

Os valores fundamentais que orientam a ação da A3S são, designadamente, os seguintes:

Democracia participativa e corresponsabilização das pessoas e organizações; transparência na prestação de contas sociais, ambientais e económicos; coerência entre a intervenção e o ideário da economia social e solidária;

trabalho digno em contextos qualificantes e empoderadores; pensamento crítico na construção de alternativas; e lealdade e confiança nas relações com as diferentes pessoas e organizações.

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À saída do encontro, Sandra Araújo, diretora da executiva da EAPN Portugal, pronunciou-se sobre os contactos já mantidos com o atual governo (nomeadamente uma audiência com Vieira da Silva, Ministro da Segurança Social), declarando ter encontrado “abertura a um trabalho de parceria efetivo”, a par de “muita sensibilidade para a necessidade duma estratégia nacional” de combate à pobreza – o que permite acalentar a esperança de que o Governo comece a trabalhar com vista a diminuir a pobreza e a exclusão social.

Por outro lado, a organização, recebida em audiência pelo Presidente do Parlamento, desafiou mesmo a Assembleia da República a assumir o combate à pobreza como prioridade e a avaliar anualmente “as políticas públicas com impacto na pobreza e na exclusão social”. Sandra Araújo, muito contente com a recetividade de Ferro Rodrigues às ideias da Rede Antipobreza, revelou:

“Pedimos também que todos os anos fosse realizado um debate na Assembleia da República, onde fosse feita uma avaliação das políticas públicas com impacto na pobreza e na exclusão social”.

Espera, pois, a EAPN Portugal, com o apoio do Governo e do Presidente da Assembleia da República, encontrar a mesma abertura por parte dos partidos, pelo que afirmou:

“Temos agora que nos sentar à mesa com os outros partidos políticos e tentar perceber se existe, de facto, interesse e um compromisso para transformar a luta contra a pobreza num desígnio nacional”.

Além disso, a EAPN Portugal está a preparar uma petição pública em torno da necessidade de uma estratégia nacional de combate à pobreza. A este respeito Sandra Araújo sustentou:

“O objetivo é mobilizar toda a sociedade, todos os cidadãos e instituições para os sensibilizar para a importância de Portugal construir uma estratégia integrada de combate à pobreza e o que isso implica na mudança das políticas e na nossa forma de estar enquanto cidadãos”.

Neste encontro, foram apresentados vários estudos que registam o aumento da pobreza em Portugal e na Europa nos últimos anos e da importância das instituições sociais na resposta aos casos emergentes. Urge agora definir uma estratégia nacional para combater o problema.

Mas a Europa não ficou esquecida. O presidente da Rede Europeia Antipobreza é categórico quando fala da União Europeia. Sérgio Aires considera que a UE precisa duma “mudança total de paradigma”, tendo de “voltar às raízes da sua fundação e alterar o seu modelo económico”, procurando uma maior distribuição da riqueza.

Por sua vez, o padre Jardim Moreira anotou que se verificou “uma pobreza generalizada em todo o país e em todos os setores”, referiu o aumento das assimetrias e disse que as instituições de solidariedade social viram emagrecer os seus orçamentos a ponto de algumas terem de se endividar. A este respeito, explicitou:

 “As instituições, não tendo receitas, tiveram de emagrecer também as suas respostas, porque o dinheiro não chega. Algumas tiveram de se endividar, outras gastaram o que tinham, outras recorreram a voluntariado ou a patrocínios de gente e instituições que pudessem apoiar as despesas para poderem manter a sua instituição aberta.”.

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Porém, o que ressaltou foram as declarações de Carlos Farinha Rodrigues, professor do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), que defende uma estratégia de combate à pobreza que incida, sobretudo, nas crianças e nos jovens e que “tenha ao mesmo tempo uma dimensão na área dos recursos financeiros para essas famílias”. Por outro lado, “tem de ter medidas concretas de articulação com o sistema educativo”. De acordo com o docente, que coordenou o estudo sobre o impacto da intervenção da troika em Portugal, vai levar tempo a recuperar do retrocesso dos últimos anos mas o Governo parece ir no bom caminho, uma vez que, se na Europa mais de um quarto da população está em risco de pobreza, em Portugal foram os mais pobres que pior ficaram com a crise. O especialista frisa:

“O balanço social deste processo de ajustamento é, quase que poderíamos dizer, trágico. Regredimos em termos de indicadores de pobreza e exclusão social praticamente para o início do século”.

Entretanto, o investigador contraria a ideia de ter sido a classe média a ver mais reduzido o seu rendimento nos últimos anos. Para ele, os números mostram que os 10% mais pobres perderam 24% do rendimento. Em 2009-2013, “o rendimento dos 10% mais ricos desceu 8%. Analisando a quebra do rendimento dos 10% mais pobres, verifica-se que desceu 24%”. Apesar de comum a ideia de que foi a classe média que mais perdeu nos anos da troika em cortes salariais e aumento de impostos, enquanto os mais pobres estariam mais protegidos dos sacrifícios, a realidade desmente, segundo Rodrigues a propaganda do processo de ajustamento, pois os cortes nas prestações sociais levaram à queda acentuada do rendimento dos que tinham muito pouco.

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Não contesto as afirmações essenciais do especialista do ISEG e a frieza dos números, mas permito-me questionar se efetivamente a classe média foi ou não prejudicada como vem sendo afirmado comummente. É que tudo depende do que se entende por classe média. Concordarei com o investigador se à classe média pertencerem apenas os que auferem um rendimento mensal bruto entre os 6001 euros e os 1500, que foram relativamente mais poupados aos cortes. Mas não me digam que quem ganha 1600 euros pertence à classe alta! E o desemprego, nova pobreza, precariedade, aumento de preços e emigração não se abateram sobre a classe média?

2016.05.10 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Um mundo maravilhoso

Não nos podemos queixar. Vivemos tempos fascinantes num mundo maravilhoso. Nem sempre pelas boas razões, umas vezes sim, outras não. Verdade é que, com tanto mal que nos ocupa o espírito, preenche as páginas dos jornais e toma conta dos tempos de antena, nem nos damos conta da beleza do mundo. Ou das suas surpresas. Nem dos pretextos que nos oferece para sorrir.
Em Havana, Cuba, depois do Papa Francisco, do presidente Obama e dos Rolling Stones, chegou a vez da Chanel. Com alguns dos mais bonitos modelos do mundo, Karl Lagarfeld presidiu, no Paseo del Prado, a um monumental desfile de moda, como já não se via há mais de cinquenta anos. A passagem de modelos teve lugar ao ar livre, só por convite.
Neste fim-de-semana, reúne-se em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, o sétimo congresso do Partido Comunista. Já não havia congressos há 36 anos, recorde de todas as ditaduras de esquerda e de direita! A cidade vive em estado de mobilização há mais de dois meses. Desde as cinco da manhã, os altifalantes públicos começam a despejar, pelas ruas da cidade, apelos ao trabalho e músicas patriotas. Durante os trabalhos do congresso, estão proibidos os casamentos e os funerais.
Donald Trump, candidato da sociedade civil, sem máquina partidária, está praticamente designado como candidato republicano às presidenciais. Depois de vencer no estado de Indiana, os seus rivais desistiram e já quase não há obstáculos a que este racista, xenófobo, machista, homofóbico e autocrata seja definitiva e oficialmente o candidato republicano. Terá provavelmente Hillary Clinton como adversária democrata.
Em Londres, uma das mais importantes cidades cristãs do mundo, realizaram-se eleições para o cargo de mayor. Concorriam o muçulmano trabalhista de origem paquistanesa Sadiq Khan e o judeu conservador de origem alemã Zac Goldsmith. Venceu o trabalhista, que assim sucede a Boris Johnson, conservador, candidato a líder do partido e uma das principais figuras do brexit, movimento que pretende que o Reino Unido saia da União Europeia.
Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados brasileira, um dos carrascos da presidente Dilma, arguido e investigado em casos de corrupção ligados à Lava-Jato, foi suspenso das suas funções pelo Supremo Tribunal Federal. Parece que um dos motivos era a forte probabilidade de ele vir a ser presidente substituto, no caso de Dilma ser afastada. Tal hipótese foi agora posta de parte.
Estão praticamente suspensas, em todo o caso interrompidas, as negociações entre a União Europeia (desconcertada, a negociar em fraqueza) e os Estados Unidos (agressivos, a negociar em força), relativamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP).
Contra a opinião dos sindicatos e dos pequenos partidos de esquerda, o primeiro-ministro francês, o socialista Manuel Vals, insiste em fazer aprovar, no Parlamento, uma lei que flexibiliza os regimes laborais e reforça os poderes dos acordos de empresa que poderão sobrepor-se aos regimes gerais e aos contratos colectivos.
Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE, Banco Central Europeu, continua a recusar prestar esclarecimentos ao Parlamento português, insistindo em que o faria apenas ao Parlamento Europeu.
Nos quatro meses de actividade, depois da tomada de posse, o governo português já nomeou, sem concurso, 275 dirigentes e altos funcionários do Estado.
O Presidente Marcelo quer repensar e rever o Acordo Ortográfico. O governo não quer uma coisa nem outra.
O primeiro-ministro António Costa inaugurou neste fim-de-semana o túnel do Marão, um dos maiores da Península Ibérica, assim como mais um troço (Amarante a Vila Real) da auto-estrada do Porto a Bragança. António Costa convidou José Sócrates a assistir à inauguração.
António Barreto, DN 20160508, aqui

domingo, 8 de maio de 2016

“Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo”


Celebra-se hoje, dia 8 de maio, o 50.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, para o qual o Papa Francisco elaborou e fez divulgar uma pertinente mensagem, datada de 24 de janeiro, dia litúrgico de São Francisco de Sales, proclamado patrono dos escritores e jornalistas por Pio XI.

O tema da mensagem papal – comunicação e misericórdia: um encontro fecundo – parece um tanto surpreendente, já que muita da comunicação social hodierna, a coberto da propalada objetividade, marca distância, cria saturação e gera indiferença. Por outro lado, a sede do lucro, a arreigada obsessão da venda de papel ou da consecução de audiências e o protagonismo do exclusivo do preenchimento da cena pública são marcas da atividade empresarial no campo das comunicações chegando a espezinhar a liberdade, a dignidade, a privacidade e a sobrevivência de tantos. Tanto assim é que alguns, como Dom Pio Alves, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, afirmam que a misericórdia está muito ausente da comunicação social. Por outro lado, assistimos a fenómenos de intoxicação da opinião pública através da repetição e excesso de informação que levam à habituação ou à indiferença perante os dramas da humanidade que a comunicação social ostenta, tantas vezes, sem piedade, sem pena, compaixão e misericórdia – como dado inerente à sociedade ou aos poderes. Além disso, muitos repórteres perdem tempo a expor as vítimas, os sinistrados ou os simples “seres frágeis” ao incómodo de terem de expressar os seus sentimentos e as suas vivências, quando aquilo que que precisavam era tranquilidade, paz, acompanhamento e apoio.

Não obstante, Francisco tem razão ao olhar para as comunicações como fator e instrumento de misericórdia por várias razões. Antes de mais, comunicar é pôr em contacto pessoas, estabelecer pontes entre mundos iguais e diferentes. Conhecendo o outro e o seu mundo, temos a rampa de lançamento para a proximidade. Depois, comunicar é alimentar a relação dialógica diluindo o sofrimento e potenciando o gosto de viver. E comunicar é cair na realidade com os olhos, os ouvidos, o olfato, o sabor e o tacto. Ora, se a aguda lucidez da inteligência analisar a realidade e a força da vontade a quiser modificar em ordem à melhoria, a misericórdia acontecerá.

É que a misericórdia é cair na realidade com o coração, saboreando o gosto das coisas boas e a felicidade daquelas pessoas que são felizes e dinâmicas e, ao mesmo tempo e por maioria de razão, abeirar-se dos infelizes, dos que não sabem, não têm e sofrem os males do corpo ou do espírito – não têm vez nem voz, sofrem o descarte, não são livres, tiraram-lhes as condições de viver em dignidade.

E hoje a comunicação social passou de típica comunicação unilateral e difusão a efetivo espaço comunicação interativa e multilateral: muitos programas de rádio e de televisão dão vez e voz aos ouvintes e telespectadores; os jornais editados suporte de papel têm a secção do correio do leitor ou de cartas ao diretor; os jornais on line permitem comentários e artigos de opinião; foi instituído o mecanismo do exercício do direito de resposta; e multiplicam-se os debates, simpósios, fóruns e mesas redondas. Portanto, se a justa liberdade de expressão, o apreço pela insofismável dignidade da pessoa humana, o equilíbrio informativo com a objetividade possível e a capacidade discreta de formação pelos valores axiológicos se sobrepuserem aos objetivos meramente empresariais e ideológicos, fica aberto o campo para a misericórdia. Com efeito, conhecendo os bons ideais enunciados algures temos acesso à adesão a eles através das pontes de encontro criadas e facilitadas pela comunicação social. As mesmas pontes nos permitirão aderir às boas práticas que virmos em outras comunidades. As mesmas pontes de encontro nos abrirão ao mundo dos que mais precisam e mais sofrem, tornando-nos nós os seus próximos. E as mesmas pontes nos exporão naturalmente, com os nossos ideais, boas práticas e dores ao apelo à comunhão dos outros connosco.

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Francisco, na sua já mencionada mensagem, chama a atenção para o facto de o “Ano Santo da Misericórdia” nos convidar a “refletir sobre a relação entre a comunicação e a misericórdia”. Isto, porque “a Igreja unida a Cristo, encarnação viva de Deus Misericordioso, é chamada a viver a misericórdia como traço caraterístico de todo o seu ser e agir”. Assim, cada palavra ou gesto deveria expressar a compaixão, a ternura e o perdão de Deus para todos. E diz o Papa:

“O amor, por sua natureza, é comunicação: leva a abrir-se, não se isolando. E, se o nosso coração e os nossos gestos forem animados pela caridade, pelo amor divino, a nossa comunicação será portadora da força de Deus.”.

Porque na nossa condição de filhos de Deus e irmãos de todos, “somos chamados a comunicar com todos, sem exclusão”, torna-se “próprio da linguagem e das ações da Igreja” a transmissão da misericórdia, “para tocar o coração das pessoas e sustentá-las no caminho rumo à plenitude da vida que Jesus Cristo, enviado pelo Pai, veio trazer a todos”. É “acolher em nós mesmos e irradiar ao nosso redor o calor materno da Igreja, para que Jesus seja conhecido e amado”.

Porque “a comunicação tem o poder de criar pontes, favorecer o encontro e a inclusão” – “tanto no ambiente físico como no digital”, “enriquecendo assim a sociedade” – as nossas “palavras e ações hão de ser tais que nos ajudem a sair dos círculos viciosos de condenações e vinganças que mantêm prisioneiros os indivíduos e as nações”. Ao invés, “a palavra do cristão visa fazer crescer a comunhão e, mesmo quando deve com firmeza condenar o mal, procura não romper jamais o relacionamento e a comunicação”. Por isso, Francisco pretende “convidar todas as pessoas de boa vontade a redescobrirem o poder que a misericórdia tem de curar as relações dilaceradas e restaurar a paz e a harmonia entre as famílias e nas comunidades”.

Neste aspeto, a mensagem papal parte do dinamismo da comunicação para lançar o apelo para as palavras e atitudes de misericórdia a toda a Igreja, a cada um dos cristãos e às pessoas de boa vontade. Porém, não deixa de apelar a que “também a linguagem da política e da diplomacia se deixe inspirar pela misericórdia, que nunca dá nada por perdido” – apelo extensivo àqueles que têm responsabilidades políticas, institucionais e de formação da opinião pública, “para que estejam sempre vigilantes sobre o modo como se exprimem a respeito de quem pensa ou age de forma diferente e ainda de quem possa ter errado”.

E a mensagem de Francisco pretende lançar as bases da alteração do modo de comunicar e servir dos pastores na Igreja de forma a nunca expressarem “o orgulho soberbo do triunfo sobre um inimigo”, nem humilharem “aqueles que a mentalidade do mundo considera perdedores e descartáveis”.

A quem pense que “uma visão da sociedade enraizada na misericórdia seja injustificadamente idealista ou excessivamente indulgente”, recorda as primeiras experiências de relação no seio da família:

“Os pais amavam-nos e apreciavam-nos mais pelo que somos do que pelas nossas capacidades e os nossos sucessos. Naturalmente os pais querem o melhor para os seus filhos, mas o seu amor nunca esteve condicionado à obtenção dos objetivos. A casa paterna é o lugar onde sempre és bem-vindo (cf Lc 15,11-32).

Por analogia, o Papa encoraja todos a pensarem “a sociedade humana não como um espaço onde estranhos competem e procuram prevalecer, mas antes como uma casa ou uma família onde a porta está sempre aberta e se procura aceitar uns aos outros”. Por isso, lembra o essencial do ato de comunicar: comunicar é partilhar; e partilhar exige escuta e acolhimento para se poder responder em conformidade enriquecendo o que se escutou. É preciso escutar mais que ouvir: ouvir refere-se à informação; escutar refere-se à comunicação e postula a proximidade.

Falando de e-mails, sms, redes sociais, chats, sustenta que “podem ser formas de comunicação plenamente humanas, pois “não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao seu dispor”.

Verificando que “a comunicação, os seus lugares e os seus instrumentos permitiram um alargamento de horizontes para muitas pessoas”, define este fenómeno como “um dom de Deus” e “uma grande responsabilidade”. E, finalmente, sintetiza o essencial da mensagem:

“Gosto de definir este poder da comunicação como proximidade. O encontro entre a comunicação e a misericórdia é fecundo na medida em que gerar uma proximidade que cuida, conforta, cura, acompanha e faz festa. Num mundo dividido, fragmentado, polarizado, comunicar com misericórdia significa contribuir para a boa, livre e solidária proximidade entre os filhos de Deus e irmãos em humanidade.”

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Hoje, após a oração do Regina Coeli, Francisco evocou o 50.º Dia Mundial das Comunicações Sociais celebrado neste Domingo da Ascensão do Senhor (nalguns países, a Ascensão celebrou-se passada quinta-feira, como é da tradição bíblico-litúrgica), enviando a todos quantos trabalham na comunicação uma cordial saudação e fazendo votos para que o modo de comunicar na Igreja tenha sempre um claro “estilo evangélico”, um estilo que una a verdade e a misericórdia.

É o recado que visa incutir na comunicação social o elemento fundante da comunicação – proximidade e partilha – possibilitador do ambiente da misericórdia e, o mesmo tempo, lançar as bases de uma comunicação mais misericordiosa e inclusiva em Igreja.

É óbvio que a Igreja, consciente da sua missão de evangelização, não se fica na função informativa e na de entretenimento da comunicação social; quer ir mais longe, fomentando o levar da proximidade solidária a quem festeja a vida e os seus valores, atender com alma e coração solidários os que sofrem lutando pela implantação da justiça e formando na doutrina e nos costumes.

Prosit.


2016.05.08 – Louro de Carvalho

sábado, 7 de maio de 2016

ESA vai lançar em 2018 mini-avião pessoal capaz de voar a 400 km/h


O seu próximo meio de transporte pessoal poderá bem ser um pequeno avião, que levanta voo silenciosamente no seu quintal e que o leva até ao emprego a 400 km/h.
Veja aqui

quinta-feira, 5 de maio de 2016

"Que o passado dos nossos avós não seja o futuro dos nossos filhos”,

No dia em que o mundo recorda o horror do Holocausto, a Renascença falou com Zsuzsa Kálmán, que organiza a "Marcha da Vida" na Hungria, um dos países mais duramente atingidos pelo genocídio.
                                                                   

Em Março de 1944 havia cerca de 860 mil judeus a viver na Hungria. Um ano depois, quando a II Guerra Mundial acabou, restavam cerca de 250 mil.
Houve perseguição aberta intermitente aos judeus nos anos anteriores e o Governo fascista chefiado por Miklos Horthy aprovou uma série de medidas anti-semitas, mas o mesmo ditador recusou-se obstinadamente a aceder às ordens dos seus aliados nazis de deportar a população judaica para a Alemanha.
Até que, em Março de 1944, Hitler perdeu a paciência e ordenou a ocupação da Hungria pelos seus soldados. “Foi uma das piores tragédias na Europa para os judeus, porque mais de 600 mil foram mortos. Em apenas seis semanas em 1944 mais de 400 mil foram deportados para Auschwitz”, explica Zsuzsa Kálmán.
Esta judia húngara lidera actualmente uma organização que todos os anos assinala a memória do Holocausto com uma marcha comemorativa, a “Marcha da Vida”. O objectivo é mostrar que, apesar da tragédia, a comunidade permanece viva.
Viva, mas substancialmente mais pequena. “Os judeus eram mais de 10% da população total. Hoje, a Hungria tem cerca de 10 milhões de habitantes e a comunidade judaica é de 100 mil. A maioria foi morta e os que sobreviveram e voltaram para a Hungria não quiseram ficar, emigraram para a América, Israel ou outros países europeus”, explica Kálmán.
Praticamente nenhuma família judaica ficou completa. “Eu nunca conheci os meus avós, que foram mortos em Auschwitz. Os meus pais sobreviveram. Quando era criança, na escola, percebia-se facilmente quem era judeu e quem não era. Os que não tinham avós eram judeus, os que tinham provavelmente não eram. Era assim quando eu tinha seis ou sete anos”.
"Não vamos repetir o erro"
É uma tragédia com mais de sete décadas, mas que perdura na memória colectiva, não só dos judeus. “É algo que não podemos esquecer. Mas temos de compreender que aconteceu há 72 anos e para muitos é apenas história. A nossa principal tarefa passa por usar essas lições de história para identificar as tendências e os perigos do presente. Se virmos certos sinais nas paredes, nas ruas, até no Parlamento, então temos de dizer: ‘Alto! Isso conduz a uma situação muito trágica’. Já levou a uma situação trágica, não vamos repetir o erro.”
A referência ao Parlamento não é inocente. Os sinais de perigo já lá estão, considera esta activista, referindo-se especificamente ao Jobbik, o partido de extrema-direita da Hungria.
“Claro que é uma preocupação, mas não só para a Hungria, para toda a Europa. Se virmos as recentes eleições na Alemanha vemos que a extrema-direita está a crescer. Infelizmente, os nossos partidos principais não têm respostas para os desafios que actualmente enfrentamos", diz.
Para Zsuzsa Kálmán, "Vivemos num tempo em que as organizações de extrema-direita têm a vantagem de poder dizer disparates populistas, sem qualquer responsabilidade. As pessoas adoram ouvir estas respostas simples a questões que são de facto muito complexas. O Jobbik está no Parlamento e nalgumas partes do país, nomeadamente nas mais pobres, estão cada vez mais fortes e é uma coisa que temos de derrotar, sem dúvida”.
Este ano, a “Marcha da Vida” teve lugar a 18 de Abril e contou com a presença de dezenas de milhares de pessoas, incluindo três bispos católicos. A marcha está aberta a todos, explica Kálmán, e o sucesso vai aumentando de ano para ano. “É muito importante para nós lembrar as vítimas, lembrar os nossos avós. Nós trabalhamos para que o passado dos nossos avós não seja o futuro dos nossos filhos”, conclui Zsuzsa Kálmán.
O dia de memória do Holocausto, conhecido em hebraico como Yom HaShoah, é assinalado no dia 27 do mês de Nisan do calendário judaico, 5 de Maio no calendário gregoriano.
Fonte: aqui